Um ano e meio depois da morte de Ney Latorraca (1944-2024), Edi Botelho volta aos palcos. O reencontro com seu ofício se dá na adaptação tetral de um clássico da poesia universal. Mais exatamente de “A divina comédia”, de Dante Alighieri. O espetáculo em questão é “A divina comédia: Ritrovai (reencontro) – Rivedere (reimaginação)”, dirigido por Regina Miranda que ocupa os jardins do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. O ator interpreta Virgílio, o poeta romano autor de “Eneida” e guia de Dante em sua travessia pelo Inferno, Purgatório e pelo Paraíso.
— Fui convidado pela Regina, uma artista que conheço há muito tempo. Ela já me dirigiu em outro espetáculo, inclusive em um projeto meu, e agora me convidou para participar desse evento grandioso. É uma experiência muito diferente, porque não acontece em um teatro. É um espaço completamente distinto e isso torna tudo muito interessante. Fora isso, Virgílio é um personagem maravilhoso, um poeta importantíssimo da literatura universal — afirma Edi ao NEW MAG.
O espetáculo, que terá duas sessões nesta quinta-feira (30), é uma releitura da obra que Regina encenou há 35 anos. Essa nova versão também se destaca por reunir 120 artistas, proposta idealizada pela diretora para ampliar o diálogo entre diversas experiências de vida e de cena.
— É muito bonito ver essa diversidade. Pessoas com experiências completamente diferentes, desde meninas de cerca de 12 anos até uma senhora de 90 anos. Tem gente da dança, gente do teatro, como é o meu caso. Minha formação é teatro, embora ela dirija uma companhia de dança. Mas ela também trabalha com atores e com texto, porque a dança não é apenas movimento. Está sendo uma experiência muito prazerosa e acredito que o resultado será muito bonito — conta o ator.
A diversidade do elenco dialoga com a própria essência de “A divina comédia”, obra que continua despertando reflexões séculos após sua publicação. Para o ator, a permanência desse clássico está ligada aos temas universais abordados por Dante:
— Tudo o que é falado ali continua muito atual. Existem temas que são eternos: o amor, as relações humanas, tudo isso faz parte da cultura universal e nunca vai desaparecer. Hoje vivemos um mundo de tecnologia, inteligência artificial e tudo mais, mas o ser humano continua existindo e é insubstituível. Além disso, há obras que são eternas. Shakespeare, Dante, Virgílio… Todos falaram de questões fundamentais da existência humana. Por isso essas histórias continuam sendo relevantes e permanecem presentes em nossas vidas, independentemente dos avanços do mundo.
Se a montagem representa uma nova etapa na carreira, ela também simboliza um recomeço na vida pessoal do ator. Este é o primeiro trabalho de Edi desde a morte de Ney Latorraca, com quem compartilhou três décadas de vida e de profissão.
— Viver uma perda é sempre muito difícil. Eu e o Ney fomos casados durante 30 anos. Construímos uma vida inteira juntos, não apenas na vida pessoal, mas também como artistas. Fizemos muitos trabalhos juntos, nos prestigiávamos muito e também estivemos em cena dirigidos por outros diretores. Existe toda uma história construída ao longo desses anos. Já faz um ano e meio que ele nos deixou, mas, para mim, tudo ainda é muito recente, muito latente.
Por isso, subir ao palco novamente também significa levar consigo a memória de quem esteve ao seu lado durante grande parte da vida.
— Ele estará presente o tempo todo. Existem coisas que você não consegue desvincular da sua vida. O Ney sempre fez parte da minha história e, como falei, também da minha trajetória artística. É impossível separar uma coisa da outra. É difícil, mas ao mesmo tempo é muito gratificante. Tenho certeza de que, onde quer que ele esteja, está torcendo por mim e por essa montagem — arremata.
Créditos: Bruno Nunes (texto) e divulgação (imagem)





