Pode calhar de um álbum ganhar, algum tempo depois de chegar às plataformas, uma versão mais aprimorada, comumente chamada de “de luxe” (e isso vem desde os tempos do CD). Pois o mesmo pode acontecer com um show. E Roberta Sá demonstrou que isso é possível. A artista levou ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro, na noite da última segunda-feira (27), o repertório de “Tudo que cantei sou”. O formato originalmente minimalista da apresentação cresceu a partir da roupagem trazida pela Nova Orquestra sob a regência precisa de Ludhymila Bruzzi.
No show, Roberta é acompanhada por Gabriel de Aquino (violão) e por Alaan Monteiro (bandolim e direção musical). O formato mais coeso foi pensado em razão da temporada da artista no projeto Terças no Ipanema, no Rio de Janeiro. Satisfeita com o resultado, a cantora decidiu gravá-lo, o que veio a acontecer na Casa de Francisca, em São Paulo. Assim nasceu “Tudo que cantei sou”. E um show que já era bonito ficou ainda melhor a partir do adorno orquestral.
Revelada pelo reality musical “Fama”, da TV Globo, Roberta construiu uma trajetória pautada pelo bom gosto e pela coerência artística. E ela reitera suas escolhas neste novo projeto, no qual reaviva pepitas colhidas ao longo das duas décadas de carreira. Com os cabelos presos e vestindo um longo preto e luvas marfim – num look que a assemelha a Maria Callas (1923-1977) – Roberta já estava no palco quando, ao som dos primeiros acordes de “Água doce” (Roque Ferreira), as cortinas foram abertas.
E o roteiro seguiu na cadência bonita de “Eu sambo mesmo” (Janet de Almeida) culminando na sofisticação bossanovista de “Casa pré-fabricada” (Marcelo Camelo). Ali, estava já claro para o público que o “casamento” entre as sonoridades havia-se consumado.
“Vim a este teatro muitas vezes. Já estive neste palco, mas não com o meu repertório”, declarou a cantora após abrir a noite com os temas supracitados. E o roteiro continuou com “Pavilhão de espelhos” (Lula Queiroga), seguida por “Não posso esquecer o que o amor me faz” (Cezar Mendes/Capinam) e por “Sem avisar” (Wanderley Monteiro).

Um fato deixou a cantora especialmente emocionada. Era a primeira vez que sua filha, Lina, assistia a um show da mãe, o que levou a artista a saudar a oportunidade de estar na companhia de uma orquestra composta somente por mulheres.
— Ela não está vendo somente sua mãe cantar, mas está me vendo ser acompanhada por essas mulheres poderosas – pontuou, externando ainda sua fé num país mais igualitário: — Que possamos ter um futuro mais seguro às nossas meninas.
A fala serviu como preâmbulo ao set seguinte, voltado ao empoderamento feminino, a partir de temas como “Virada”, do repertório de Marina Íris, e “Lavoura”, de Pedro Amorim e Teresa Cristina. O núcleo contou ainda com o samba “Me erra”, de Adriana Calcanhotto, com direito a citação de “Vai, malandra”, de Anitta, o que levou Roberta a constatar:
— Juntei duas poderosas: uma do Sul e outra de Onório Gurgel.
Poderoso foi o conluio – e àquela altura plenamente estabelecido – entre o canto refinado da intérprete e a austeridade inerente ao acompanhamento orquestral. As cordas estavam ali à serviço daquele cancioneiro, que teve suas características reforçadas por aquele conjunto. É como se a orquestra atuasse como uma lente de aumento, ressaltando desde sutilezas, em temas como “Juras” (Rosa Passos/Fernando de Oliveira), à síncope de “O lenço e o lençol” ou de “Fogo de palha”, temas de Gilberto Gil – o segundo deles com Roberta — extraídos de “Giro” (2019), álbum em que ela interpretou temas inéditos do grande compositor.
— Essa é uma noite de gala para mim – definiu a cantora após fazer “Essa confusão” (Dora Morelenbaum/Zé Ibarra) e antes de brindar o público com dois outros temas de Roque Ferreira: “Marejada” e “Vai ralar o coco”.
Quando Gal Costa (1945-2022) estreou, em 1992, o show ‘Plural”, era comum ler na imprensa carioca que aquele show ficava cada vez melhor. Isso é passível de acontecer. E Roberta Sá demonstra que um show muito bem amarado como o seu “Tudo que cantei sou” pode ficar mais do que primoroso; irretocável.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Thaty Aguiar (imagens)






