Rigorosa com seu ofício, Maria Bethânia permitiu um atraso de módicos 12 minutos para o início do show com que abriu, na noite do último sábado (06), no Rio de Janeiro, as celebrações pelos seus 60 anos de carreira. E, às 19h12, adentrou o palco do Vivo Rio, ao som de “Rainha dos raios/ Tempo bom, tempo ruim”, versos de “Iansã” (Caetano Veloso/Gilberto Gil) entoada por seus backing-vocals. A noite foi aberta com “Sete mil vezes”, também do mano Caetano, gravada por ela no LP “Alteza” (1981). E o verso “Noite de fogo e de paz” serviu como prenúncio do clima que teria a celebração.
O tema de Caetano – que Bethânia há muito não cantava – veio acompanhado de uma citação de “Canções e momentos” (Milton Nascimento e Fernando Brant) seguida por “Gás neon”, de Gonzaguinha (1945-1991), numa espécie de prólogo sobre a relação lúcida e apaixonada da cantora com seu ofício. “Ai, de quem mergulhar nesse mar de veneno/ Nessa lama enfeitada/ Nesse sangue das taças/ Temendo sofrer” reza a letra, e Bethânia vai e mergulha e ressurge fortificada.
Ainda sob o viés da indignação, a artista resgatou do show “20 anos de Paixão” (1985) “Podres Poderes” (Caetano Veloso), atualíssima num Brasil que faz ainda jorrar sangue demais “nos pantanais, nas caatingas/ E nos Gerais”. A toada é mantida com “Baioque”, primeiro dos quatro temas de Chico Buarque presentes no roteiro. E, aos 79 anos, continua com sangue nos olhos – e na voz – aquela que é a Mummy de todas as cantoras surgidas após sua aparição no histórico “Opinião” (1965).
E, por falar em Chico, show concebido a partir do veto à peça “Calabar – O elogio à traição”, “A cena muda” (1974) foi o único a merecer um set exclusivo no espetáculo. O bloco é formado por “Resposta” (Maysa), “Demoníaca” e “Encouraçado”, ambas de Sueli Costa (1943-2023) com Vitor Martins e Tite de Lemos (1942-1989), respectivamente; “Taturano” (Caetano) e a supracitada “Gás neon”, esta inserida no set de abertura.
Bethânia Guerreira Guerrilha da dá lugar à cantora romântica que, a partir de 1976, quebraria a “barreira do som” (no dizer de Waly Salomão) com o LP “Pássaro Proibido”, do qual pescou, aliás, a bela “Balada do lado sem luz”, de Gilberto Gil. É no set romântico que Bethânia enaltece a força de nossas compositoras, já presentes no bloco dedicado à “Cena Muda”.

Angela Ro Ro é reverenciada, como antecipado aqui, com “Mares da Espanha”, interpretada pela primeira vez pela artista, seguida por “Gota de sangue”, lançada por Bethânia em “Mel” (1979). O show marca também o retorno ao roteiro de outra compositora presente em LPs como “Talismã” (1980) e “Dezembros” (1986): Marina Lima. E a Abelha Rainha reacende o crepúsculo com “O lado quente do ser”, numa explícita e merecida homenagem a Antonio Cicero (1945-2024), letrista daquela canção.
No show, Bethânia não somente celebra sua trajetória como reverencia nomes que não estão mais entre nós e que são essenciais à sua arte. E as mais tocantes a cantora reserva para o segundo ato do show, aberto com “Tocando em frente” (Almir Sater/Renato Teixeira).
Nana Caymmi (1941-2025) é celebrada com “A voz de Nana”, texto do poeta Eucanã Ferraz seguido por “Sussuarana” (Heckel Tavares/Luiz Peixoto), gravada em dueto pelas duas no CD “Brasileirinho”. Outra singela reverência foi prestada a Rita Lee (1947-2023)
– Rita Lee deixou uma letra-poema com um pedido: que eu a cantasse Entregou à minha voz seus pensamentos, reflexões e lucidez (…) Comovida, realizo o desejo dessa artista imensa — explicou Bethânia abrindo alas para a tocante e inédita “Palavras de Rita”, letra póstuma musicada por Roberto de Carvalho, viúvo e parceiro musical da compositora
A canção foi recebida calorosamente pelo público que chegaria à catarse em seguida. “Rosa dos ventos” (Chico Buarque), canção-título do histórico show apresentado pela artista em 1971, foi aplaudida de pé – e demoradamente – pelos presentes, brindados ainda pela inédita “Vera Cruz” (Xande de Pilares/Paulo Cesar Feital) encerrando o espetáculo que teve ainda no bis uma palinha de “A menina dos olhos de Oyá”, samba-enredo campeão da Mangueira, seguida por Reconvexo”, de Caetano.
Maria Bethânia celebra seis décadas de carreira sem perder o calor do lado quente do seu ser. Que canta (ainda) mais docemente sem descuidar do dom que Deus lhe deu.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Ricardo Nunes (imagens)








