Mal abrem-se as cortinas, apenas o canto e o violão de Zeca Veloso são ouvidos nos primeiros minutos. Os demais instrumentos entram aos poucos, na medida em que avançam letra e melodia de “Peter Gast”. Foi com a canção, lançada por Caetano Veloso no LP “Uns”, de 1983, que Zeca abriu, na noite do último sábado (04), o show de lançamento do seu primeiro álbum solo, “Boas novas”. A apresentação, dentro do festival Queremos!, arrebatou o público que lotou o Teatro Carlos Gomes, Centro do Rio de Janeiro, num show que contou ainda com as participações de Xamã e de Dora Morelenbaum.
E a escolha da canção de Caetano, de versos como “Escuto a música silenciosa de Peter Gast”, não é aleatória. Com ela, Zeca prenunciou suas intenções neste que é seu primeiro grande show, no qual divide o palco com sete excelentes músicos. Ele quer mostrar a essência de sua música. E este intuito é cumprido. Ao elencar as dez faixas do álbum (sem seguir a ordem com que estão no disco), Zeca acaba por louvar também as referências que o forjaram como artista – e elas abarcam de Tom Jobim (1927-1994) a Lincoln Olivetti (1954-2015), passando por Tim Maia (1942-1998) e por bambas do samba.
Se os trabalhos foram abertos com uma reverência a seu pai – sentado numa das primeiras filas ao lado de Paula Lavigne, mãe de Zeca –, o roteiro seguiu com a canção-título do álbum seguida por “Salvador”, o afoxé contagiante que abre o projeto e que cumpriu a missão de animar o público.

Com a plateia mais “molinha”, como diria Maria Bethãnia, tia do cantor, era o momento da primeira das boas surpresas do show. A banda, capitaneada com competência por Lucca Noacco (ou Lucão, como Zeca se referia a ele antes de muitos dos números), ataca com uma salsa. O ritmo caribenho emoldura “Volta por cima”. Ele mesmo, o samba de Ataulfo Alves (1909-1969) magistralmente recriado por Bethânia no antológico LP “Drama” (1972). E a releitura de Zeca não ficou em nada aquém da versão roqueira de sua tia-cantora, mostrando que o jovem tem tino e personalidade.
A segunda surpresa da noite deu-se no número seguinte, “A carta”, com Paula Moremenbaum entrando para cantar a parte final com Zeca. A segunda canja veio em seguida a duas outras faixas do álbum, “Talvez menor” e “Carolina”. Zeca mandava ver na funkeada “Máquina do Rio” quando Xamã surge para uma intervenção falada na canção, arrebatando o público que já sacolejava ao som do groove.
E as surpresas não pararam. Zeca ataca em seguida com “Garota de Ipanema”, de Jobim e Vinicius de Moraes (1913-1980) numa versão na qual sua devoção ao maestro soberano (evidente nos arranjos de cordas de “Boas novas”) foi confirmada. Se o arranjo da canção trazia eflúvios daquele apresentado por Jobim em “Tide”, o canto de Zeca se aproximou também do de Tom, com ele respeitando, inclusive, suas divisões vocais.

Após Zeca beber novamente na própria cepa com a singela “Desenho de animação”, o samba fez-se novamente presente. “Não tem tradução” (Noel Rosa) é outro ponto alto da apresentação, e a ela podem somar-se as autorais “Sopro do fole” e aquela que foi a mais aclamada da noite: “Todo homem”.
Encerrado o roteiro com “O sal desse chão”, a derradeira surpresa foi guardada para o bis. Com o artista diante do teclado, ele ataca de “Amor, meu grande amor” (Angela Ro Ro/ Ana Terra) com direito a citação de “Maria, Maria” (Milton Nascimento/ Fernando Brant).
E, após uma rápida enquete com o público, o grand finale deu-se com “Salvador”, com Zeca liberando subir ao palco aqueles que soubessem a letra subir. Moreno Veloso, que participa da gravação original, foi, e com ele, amigos e fãs de Zeca, num arremate no melhor estilo Novos Baianos.
E, ao encerrar o show assim, Zeca demonstra estar mais perto daquele “homem comum” da letra de “Peter Gast”, canção com que abriu a noite. Filho de um dos mais importantes compositores brasileiro, Zeca Veloso demonstrou, na noite do último sábado, ter as credenciais para trilhar um caminho próprio na música, num show em que elencou referências e confirmou sua força autoral.
Como reza a letra de “O sal desse chão”, o anzol está lançado. E os ingredientes para o “caldo quente” estão aí. E Zeca Veloso pode)refestelar-se à vontade. Afinal, a festa já começou.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Renan Prado (imagens)






