‘A nudez foi usada de forma apelativa’

julho 10, 2026

Nuno Leal Maia volta aos palcos, passa sua trajetória a limpo e opina sobre a TV de hoje, nudez no cinema e a chegada à maturidade

Reza o ditado que o bom filho à casa torna. E isso se dá com Nuno Leal Maia. Ele tinha 22 anos quando estrelou a hoje histórica montagem de “Hair”, cuja versão brasileira estreou em 1970. Hoje respeitado por seus pares e amado pelo público, o ator volta à ribalta após estar afastado há 11 anos (isso mesmo) do lugar onde ele nasceu artisticamente (“Aprendi a fazer na raça”). E este reencontro se dá com um clássico da dramaturgia brasileira: “Meno male”, de Juca de Oliveira (1935-2026). Sucesso de público entre as décadas de 1980 e 90, a comédia volta à baila sob a batuta de Léo Stefanini e com elenco encabeçado por Nuno, Suzy Rêgo, Joaquim Lopes e Marcelo Faria, ao lado de quem volta a atuar após trabalhos na TV – o primeiro deles na novela “Top model”, quando Nuno tinha 48 anos e Marcelo, 18. “Parece que o tempo não passou para a gente”, atesta ele nesta entrevista, por telefone, ao NEW MAG. Em época de Copa, Nuno, que atuou na vida real como treinador de futebol, atendeu ao pedido após conferir o embate entre Portugal e Espanha e ainda sob efeito da ressaca da eliminação do Brasil (“Ancelotti foi uma decepção”). A seguir, o ator  rememora momentos marcantes na TV (“Não queria fazer ‘A gata comeu’”), fala da  relação que tem hoje com o veículo, pondera sobre o uso da nudez pelo cinema brasileiro e, dono de uma cultura cinematográfica invejável, elogia “Ainda estou aqui” e aponta para “O caso dos irmãos Naves” como “o maior filme brasileiro de todos os tempos”. Conhecimento para tanto ele tem, a ponto de ser categórico: “TV é importante, mas prefiro cinema”.

Natália do Vale e Tony Ramos ficaram 20 anos afastados dos palcos. Você está há 11 anos. Por que vocês, veteranos, ficaram de mal com o teatro?

Não se trata de ficar de mal com o teatro. Acontece que, durante um bom tempo, não apareceram projetos que me interessaram. Posso dizer que nasci no teatro. Fiz faculdade de cinema e, dali, fui para o teatro fazer “Hair”. Aprendi a fazer teatro na raça. Aprendi a nadar nadando.

Esse tempo todo afastado provocou aquele friozinho na barriga?

Ensaiamos bem a peça, e a preparação foi muito bem conduzida. O Léo é um ótimo diretor. Ele assistiu à primeira montagem, na qual o pai dele (o ator Fúlvio Stefanini) atuava, e sabia bem o que queria com essa montagem. Tanto que ele foi muito firme para que o texto fosse seguido à risca, sem inserção de cacos. Claro que, como o texto tem um olhar crítico sobre a política, uma ou outra coisa foram atualizadas, mas a preparação foi muito bem cuidada. O frio (na barriga) diminuiu.

Juca vem de uma tradição de excelentes dramaturgos que que nos remete também a Alcione Araújo, Vianinha e, indo mais longe, Jorge Andrade. Estamos abandonando nossos grandes autores?

Acho que não. Juca teve outro de seus textos montado recentemente. Nelson Rodrigues é montado de quando em quando. Plínio Marcos é outro autor muito cobiçado. E o Juca vem nessa leva de grandes autores, que são respeitados e aceitos por diretores e produtores.

A peça não poderia ser mais apropriada quando políticos de diferentes ideologias receberam benesses de um banqueiro cuja instituição prejudicou aposentados e trabalhadores. O que os políticos perderam de vez: o decoro ou a vergonha?

Antigamente havia mais ética na política. Getúlio Vargas se suicidou. Acho que, hoje em dia, nenhum político tiraria a própria vida por conta de um malfeito. A corrupção é inerente à política e, no caso do Brasil, essa escalada é historicamente antiga e vem dos tempos da Colônia. Autores como o Juca e o (Gianfrancesco) Guarnieri tinham como propósito a derrubada da ditadura, um sistema em que a imprensa não tinha a liberdade que tem hoje. O país mudou, a população cresceu, e os atos relacionados à corrupção certamente aumentaram, mas vêm à tona hoje com mais clareza.

Marcelo Faria era adolescente quando vocês trabalharam em Top Model. Hoje, são dois adultos, cada qual com suas vivências. Qual o sabor desse reencontro?

Parece que o tempo não passou para a gente. Tenho um carinho imenso pela família dele: pelo Reginaldo (Faria, pai do ator), pelo Roberto (Farias, cineasta falecido em 2018) e pelo Lui (Farias, diretor e filho de Roberto). Além de ter trabalhado com o Marcelo, fomos também vizinhos. Para ele ir à praia, passava pelo meu condomínio e dizia na guarita que iria à minha casa, mas ia à praia (risos).

Novelas como A Gata Comeu, Top Model e Vamp tinham núcleos infantis….

Acredita que eu não queria fazer “A gata comeu”? Acabei cedendo aos apelos do Herval (o diretor Herval Rossano), que queria porque queria fazer um trabalho diferente na TV. Topei e foi sensacional. O elenco era ótimo: (Christiane) Torloni, (Roberto) Pirillo, Zé Mayer…

E você sempre teve esse lado tiozão ou ele aflorou em razão dos personagens?

Isso vem do Calmon (o novelista Antonio Calmon). O Calmon tem essa jovialidade nele. A mentalidade dele se mantém jovem, e ele escreve com muita propriedade sobre esse universo. No caso de “A gata comeu”, o texto era da Ivani (Ribeiro), uma autora mais conservadora, mas esse lado da jovialidade veio do Herval.

A Zezé Polessa lembrou aqui que, como muitas das cenas de top Model eram na praia, eram canceladas em razão da mudança no tempo. E vocês saíam para lanchar com as crianças.

O clima era muito legal e não só pelas crianças. A turma do surfe também aparecia e ficava lá com a gente: o Rico (de Souza), o Maraca (Rossini Maranhão Filho)… O Damião (o diretor Carlos Wilson) também fazia a diferença. Ele foi professor no Tablado e sabia como lidar com todo mundo ali. Era uma patota muito legal.

Qual dos personagens te privou mais da tua liberdade: o Fábio, de A gata comeu; o Tony de Mandala ou o Gaspar de Top Model?

Tony Carrado sem sombra de dúvidas! Ali a audiência era total. Eu tinha muitas cenas, muito texto para decorar e havia muita pressão. Foi um trabalho difícil, mas muito prazeroso ao mesmo tempo.

Tony chamava antena parabólica de antena paranoica, entre outros erros. Os amigos te zoavam muito em relação às gafes do personagem?

Vários dos erros vinham das ideias que trocava com o Marcílio (Moraes, coautor da trama). O Dias (Gomes) não quis continuar, e o Marcílio acabou assumindo a dramaturgia (que contou ainda com Lauro César Muniz). Marcílio era muito bacana e permitia que o ator sugerisse coisas e criasse junto. Ele é um cara que deveria ter mais reconhecimento dentro da TV. Houve um tempo em que a TV propiciava isso aos atores.

A TV está mais careta?

A TV está mais disciplinada. E a disciplina corta um pouco da criatividade do bom ator. Se ele for inteligente consegue driblar o rigor de agora, e esse rigor é importante se não vira um esculacho. Lembro que na época de “Vereda Tropical”, criei para o meu personagem (Bertazzo) um sotaque inspirado na galera que morava na Mooca (bairro de São Paulo), mas que virou quase que um dialeto próprio. O Guel (Arraes) levou uma dura do Jorge Fernando (diretor geral da novela) por ter deixado. O Guel ficou chateado, mas a TV dava essa liberdade aos artistas (e Nuno foi premiado por sua atuação).

Você completa este ano 50 anos desde seu primeiro trabalho numa novela. A TV ainda te interessa como veículo e meio de expressão?

Claro! Estava, neste instante assistindo a Portugal e Espanha (a entrevista se deu na última segunda-feira, dia 06)…

Não me refiro à grade esportiva, Nuno, mas à dramaturgia da TV…

Quando o produto é bom, eu assisto. Tenho assistido a muitos filmes pela TV. Gosto do cinema italiano e acabo conhecendo também outras coisas do cinema europeu. Há um canal voltado ao cinema europeu, mas essas produções mereciam mais abrangência. Gosto também de observar o trabalho dos atores. Quando tem coisa boa, eu vejo. A TV é importante, mas prefiro o cinema.

Você ficou nu no cinema e em “Hair”. Você lidava com a nudez de forma tranquila?

Acho que, muitas vezes, a nudez foi usada no cinema de forma apelativa. E o cinema viveu muito tempo dessa exploração. Há ousadia em filmes franceses e no realismo italiano, mas a nudez nunca foi explorada por eles como foi aqui. Muita coisa mudou e, hoje, temos roteiros muito melhores e mais bem trabalhados.

A nudez no cinema está ligada às pornochanchadas, que ganharam vulto nos anos 1970. O que acha da geração vinda do Cinema Novo?

Os filmes do Cacá (Diegues) são geniais. Os do Nelson Pereira (dos Santos) também. Temos grandes obras-primas no nosso cinema. “O pagador de promessas” é uma delas. O Person (o diretor Luís Sérgio Person) tem aquela maravilha que é “O caso dos irmãos Naves” (de 1967), no qual o Juca, de quem falamos aqui, atua de forma magistral. Esse filme é para mim o grande filme brasileiro de todos os tempos.

O que acha desta nova geração de cineastas como Kléber Mendonça Filho e Walter Salles?

Eles são muito bons. “Ainda estou aqui” é um grande filme.  E aquela participação da Fernanda (Montenegro) no final do filme é tocante. Ela rouba o filme para ela, e faz isso com tranquilidade e sutileza como só ela é capaz de fazer.

Indo agora para outra seleção, como ex-treinador de futebol qual nota dá à Seleção de Carlo Ancelotti?

Ancelotti foi uma decepção como técnico. Ele escalou mal, mas, durante as partidas, mexeu relativamente bem. Pecou por não colocar em campo os melhores. Então, a nota é 2,5; 3 no máximo! Danilo e Luiz Henrique poderiam ter sido mais bem utilizados. Não dá para colocar um craque em campo faltando 15 minutos para o fim da partida. Aquele pênalti perdido pelo Bruno Guimarães foi de lascar! Como um jogador chuta sem olhar para o gol? Falta humildade a muitos jogadores. É aquilo que o Jorge Ben (Jor) chama de “humildade em gol” (em “Fio Maravilha” e cujo título foi modificado para “Filho Maravilha”)

Estar mais próximo de completar oito décadas de vida te deixa mais sereno, apreensivo ou grilado?

Grilado? De jeito nenhum! Envelhecer é parte do processo. Estar vivo implica em acompanhar a evolução da vida e a do planeta. Ou você está integrado a ele ou não está. Enquanto tiver forças vitais você vive. Quando elas faltarem, você se despede.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e entrevista) e divulgação (imagem)

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