
Uma obra de arte pode perpetuar-se. Uma fotografia, um texto, um filme, uma tela ou um edifício podem, quando bem cuidados, ser preservados. Toda obra de arte é viva. E o teatro é certamente a mais vivaz delas. Como ofício, o teatro é perene, mas como experiência, é efêmero. E pode ser exuberante. Sobretudo quando alinham-se dramaturgia, interpretações, direção e o mister dos demais colaboradores. Quando há essa equidade de forças, o teatro faz-se gratificante. Este é o caso de “Dois de nós”.
O espetáculo, estrelado por Christiane Torloni, Antonio Fagundes, Thiago Fragoso e Alexandra Martins, finalmente chegou ao Rio de Janeiro após bem-sucedidas temporadas em São Paulo e apresentações em Portugal. É uma produção dirigida com apuro e sensibilidade por José Possi Neto e azeitada ao longo de dois anos na estrada que aporta agora no Teatro Axia Casa Grande, na Zona Sul da cidade. E a estreia foi prestigiada por estrelas como Tony Ramos, Juliana Paes, Flávia Alessandra e Wolf Maya, entre outros.
Não por acaso, o texto tem como subtítulo “Uma comédia no espelho”. Seu autor, Gustavo Pinheiro, aprofunda-se numa ideia trabalhada por João Falcão em “A dona da história”, na qual uma mulher (Marieta Severo) depara-se com ela mesma mais jovem (Andréa Beltrão), estabelecendo-se então um conflito (fundamental na arte dramática) pautado por diferenças de pensamentos e visões de mundo, num mea-culpa pelo que a vida desta se torna.
No caso de “Dois de nós”, esse confronto se dá com um casal septuagenário personificado por Pedro Paulo, ou Pepê (Fagundes) e Maria Helena, ou Leninha (Torloni). No quarto de um resort, onde estiveram anos atrás, eles passam a relação a limpo a partir do encontro com suas versões mais jovens, vividas por Fragoso e por Martins. As duplas estão separadas por dois mundos: o analógico, ambientado no Brasil dos anos 1980, e o de agora, tecnológico e no qual itens como folhas de cheque ou a foto do filho na carteira caíram em desuso.
E, a partir disso, há na carpintaria do texto outro mérito que fica ainda mais valorizado pela direção de Possi. Os quatro estão em pé de igualdade, sem que os mais novos sirvam de “escada” para os veteranos. E todos saem-se muito bem, tanto contracenando com seu respectivo par quanto com a outra versão de si. E o mesmo vale para os solilóquios em que solam.
Na noite da última quinta-feira (23), Fagundes foi merecidamente aplaudido em cena aberta. E o mesmo poderia ter acontecido com Torloni no momento em que Maria Helena relata como elaborou o luto pela perda do filho. Torloni e Fagundes não são meros “bichos de teatro”. Do alto dos seus respectivos 60 e 50 anos de carreira, eles são animais soberanos em suas plenitudes. E Thiago e Alexandra não ficam atrás.
Em meio a trocas de petardos (muitos deles bem-humorados) em razão de lapsos, faltas, e falhas cometidos por eles, Maria Helena busca lembrar o conselho dado a Pedro Paulo pelo pai desta ao leva-la ao altar. “Cuide dela enquanto houver amor”, relembra-lhe Pepê num dos momentos mais sensíveis do espetáculo.
E amor é o que há ali. Amor ao ofício. Com direção primorosa, atuações magistrais (e plenamente equilibradas) e texto pleno de minúcias, “Dois de nós” chegou chegando como um dos mais potentes acontecimentos teatrais da atual temporada carioca.
Que o público então não desperdice a oportunidade de viver essa experiência tão vivaz. Enquanto houver amor por esta arte tão fascinante ao menos.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Vera Donato (imagens)



























