A cultura do cancelamento, a polarização e a necessidade de julgar o outro ganham novos contornos quando colocadas em diálogo com “O alienista”. O clássico de Machado de Assis (1839-1908) ganha uma nova adaptação para o teatro estrelada por Roger Gobeth. O ator interpreta Simão Bacamarte, personagem que conduz uma discussão sobre os limites entre a razão e a loucura, abrindo espaço para reflexões contemporâneas.
— Machado é muito atual. Quando a gente olha para “O alienista”, percebe que essa questão de quem tem o poder de julgar, de quem pode dizer quem é louco ou quem está certo continua muito presente. Sou completamente contra a cultura do cancelamento. O ser humano é passível de erro, de correção, de aprendizado. Quem somos nós para cancelar alguém? — questiona Roger em entrevista ao NEW MAG.
Com direção de Gustavo Paso, a montagem estreia no dia 11 deste mês, no Teatro Iquê, em São Paulo. A temporada marca a primeira vez que o ator apresenta uma peça na capital paulista, embora já tenha circulado por diferentes cidades do estado ao longo da carreira.
Produzido pela CiaTeatro Epigenia, o espetáculo reúne 14 atores e cantores, além de um cenário de grandes proporções. A relação de Roger com a obra, no entanto, começou muito antes do convite para viver o protagonista. Aos 15 anos, ele leu o conto para a escola, mas foi o contato com o palco que transformou sua visão sobre a estória.
— Eu já tinha lido “O alienista” na escola, mas foi vendo o espetáculo que comecei a perceber outras possibilidades para a obra. Eu assisti algumas vezes à montagem e fui me aproximando daquele universo. Quando surgiu o convite para fazer o Simão Bacamarte, já existia uma relação com o espetáculo — conta.
A primeira versão da montagem estreou no Rio de Janeiro, em 2022, com outro elenco. Roger já trabalhava com a companhia e acompanhou a produção de perto. Agora, a nova formação retoma o texto machadiano sob outra perspectiva.
— É uma peça muito física. Existe uma mistura de atuação, música, movimento, coro e grotesco. São elementos que ajudam a criar uma experiência diferente para o público e fazem com que a história ganhe outra dimensão no teatro — explica o ator.
O processo de preparação trouxe um desafio extra: durante os ensaios, Roger também estava envolvido em outro trabalho da companhia, a peça “De perto ninguém é normal”. Ambos os papéis exigiam um volume denso de texto e papel central na condução dos enredos:
— Foi um processo doido, porque nas duas peças o meu personagem era o que dava o ritmo a peça, com muito texto, e nunca tinha feito isso. Até pensei se tinha sanidade mental para conseguir distinguir uma da outra, porque primeiro eu comecei a ensaiar uma fazendo a outra e, depois, comecei a apresentar as duas concomitantemente, mas no fim deu tudo certo.
Mais do que atualizar a obra, a encenação busca provocar o público a partir das dúvidas que a história suscita sobre autoridade, julgamento e arbitrariedade. O comportamento nas redes sociais também entra nessa leitura, especialmente pela forma como opiniões são formadas e compartilhadas de maneira cada vez mais rápida.
— A gente vive um momento de muita polarização, de muita coisa superficial. As pessoas leem uma manchete e já saem compartilhando, sem saber exatamente o que está por trás daquela informação. Isso também está na peça. Ela não dá respostas, mas coloca um espelho na nossa frente. Você começa a se perguntar quem é o louco, quem decide quem é louco e até onde vai o poder de cada um? Às vezes, o mais interessante é sair do teatro com alguma coisa fazendo barulho na cabeça — arremata.
Créditos: Bruno Nunes (texto) e reprodução / Internet (imagem)





