‘Quase não me reconheço’

agosto 10, 2026

Thomaz Velho fala sobre sua primeira mostra individual e das referências dos pais, Cissa Guimarães e Paulo César Pereio

O que começou como um convite para ocupar um espaço acabou levando Thomaz Velho a experimentar caminhos que ainda não havia percorrido em sua arte. Filho do ator e diretor Paulo César Pereio (1940-2024) e da apresentadora e atriz Cissa Guimarães, o artista prepara-se para abrir sua primeira exposição individual. “Tormenta” estará em uma mostra que reúne trabalhos inéditos e obras de diferentes momentos de sua produção.

— “Tormenta” é como se fosse algo que não pertence a mim. Ela surge para dar esse gatilho de um novo movimento em relação à minha postura com o meu próprio trabalho. Eu expando as linhas, os formatos, os limites — conta Thomaz em entrevista exclusiva ao NEW MAG.

A exposição, que tem curadoria de Adriana Nakamuta, será inaugurada nesta quarta-feira (12), na Casa Brasil, Rio de Janeiro. Para realizar a mostra, Thomaz precisou adaptar o próprio processo de criação ao espaço e desenvolver cerca de 70% das obras especialmente para a ocasião. Algumas telas, inclusive, têm 4 metros de comprimento e precisaram ser montadas no próprio local, já que não cabiam no ateliê do artista.

O tamanho das obras também exigiu uma mudança na maneira como Thomaz trabalha. Em vez dos materiais habituais, ele recorreu a rolos de pintura convencionais, espátulas, facas e sprays para construir as novas telas.

— Quase que eu não me reconheço nesse momento. Foi um desafio enorme e me sinto muito feliz de poder contar isso, porque é a maneira que eu me relacionei também com essa “Tormenta” — afirma.

O próprio nome da exposição traduz o estado de tensão vivido pelo artista durante o processo. Para Thomaz, a palavra não está ligada apenas ao movimento, mas também a sentimentos e imagens que atravessaram a criação.

— “Tormenta” tem algo que se relaciona não apenas com uma coisa do movimento, mas também com sofrimento, aflição, instrumento de guerra, máquina de arremesso. É um momento de conflito, de força, tensão e transformação.

A experiência também levou Thomaz a buscar referências em artistas que, segundo ele, ultrapassam a questão estética e representam maneiras de se posicionar diante da própria criação. Entre as referências estão Cabelo, Tunga (1952-2016), William Turner (1775-1851) e o próprio pai.

— Tem uma expressividade nesses nomes, como Cabelo e Pereio, no sentido da postura de vida. E isso vai além de um resultado estilístico ou de algum trabalho específico deles.

Essa busca por novos caminhos fez o artista comparar o próprio processo a um salto no desconhecido. Ao olhar para a exposição montada, ele conta que chega a se surpreender com o resultado.

— É quase como se eu tivesse me colocado num estado de deriva. É um pouco de liberdade também, de você poder envolver uma coisa que é quase que diametralmente diferente do que você fazia ontem. É como você se jogar realmente num buraco negro, mas lá embaixo tem uma mola.

Além das pinturas, a exposição também apresentará um filme inédito sobre seu processo de criação. Intitulado “Calmaria”, o registro, dirigido por Gabi Paschoal, acompanha parte do caminho percorrido pelo artista até a montagem e será exibido logo na abertura.

Se a mostra representa uma mudança na trajetória artística de Thomaz, parte dessa coragem para experimentar vem de referências que o acompanham desde a infância. Ele atribui à mãe, Cissa Guimarães, papel importante na formação de seu olhar para a arte.

— Minha mãe é uma mola impulsionadora do meu trabalho, sempre. Ela é a pessoa que me apresentou para o mundo das artes de uma maneira ampla, me levando desde sempre para tudo quanto é coxia, tudo que é estúdio, set de filmagem. Todos os museus do Brasil que eu conheci foi com ela — conta o artista, que prossegue: — Ela e o meu pai são realmente as minhas canoas pelas quais iniciei minha navegação onde hoje eu encontro essa tormenta. São os mastros, são as redes, são tudo para mim.

A relação com a família se mistura às influências que ajudaram a formar o artista e também ao momento cultural que ele observa no Rio de Janeiro. Com familiares e outros artistas ocupando diferentes espaços da cidade, Thomaz enxerga uma movimentação que considera especial para a cena carioca.

— Se você olhar hoje para isso tudo, você fala: “O Rio de Janeiro está uma força cultural nesse ano”. É o ano do Cavalo de Fogo, no horóscopo chinês, então é um ano de grandes movimentos. E isso também me inspirou na minha exposição — conclui.

Créditos: Bruno Nunes (texto) e reprodução / Internet (imagem)

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