
Projeto brasileiro, o livro “Nigrum Corpus”, que propõe uma reflexão sobre a representatividade da população negra na formação médica, foi um dos grandes vencedores do Cannes Lions 2026. A iniciativa, desenvolvida pelo Instituto Yduqs, IDOMED e Artplan, conquistou um Grand Prix na categoria Glass: The Lion for Change e um Leão de Bronze em Creative Data.
A premiação, uma das principais do mundo da comunicação e da inovação, aconteceu entre os dias 22 e 26 de junho, em Cannes, na França. Criada em 2015, a categoria Glass reconhece projetos que utilizam a criatividade para enfrentar desigualdades e promover mudanças sociais e culturais. O reconhecimento ao “Nigrum Corpus” veio justamente por colocar em pauta uma questão historicamente negligenciada: a presença da população negra nos materiais de ensino e na formação de profissionais da área da saúde.
Presente no festival, Cláudia Romano, presidente do Instituto Yduqs e vice-presidente do grupo educacional Yduqs, destacou o alcance que o projeto ganhou fora do país.
— O que mais no emociona é ver como o propósito do Mediversidade encontrou eco, ressonância muito forte, em escala global. O programa é a resposta do IDOMED e do Instituto Yduqs ao incômodo da invisibilidade das pessoas negras na saúde, tanto na educação quanto na assistência, e foi uma jornada de dois anos cheia de perguntas. Como vamos tratar disso? Como educar sobre o problema? Como trazer as pessoas para esse nosso lugar? Sabíamos que estávamos num território de potência, de transformação, mas havia muitas perguntas — afirma.
A presidente da instituição conta ainda que a dimensão do reconhecimento internacional se tornou mais concreta durante a cerimônia de premiação.
— Quando entrei na cerimônia e vi a galeria toda ambientada com o nosso trabalho, a ficha caiu. Conseguimos conectar. Essa sintonia, ter acertado o ponto no coração e na cabeça das pessoas, é nossa plataforma para a transformação. Exatamente o que está sendo reconhecido.
Cláudia também ressalta o papel da educação como ferramenta de mudança social:
— “Nigrum Corpus” traduz de forma muito potente a visão do Instituto Yduqs sobre o papel transformador da educação. É um projeto que provoca reflexão, amplia repertórios e traz para o centro do debate uma pauta urgente: a representatividade e a equidade no cuidado em saúde. Conquistar um prêmio dessa relevância mostra que, quando unimos propósito, conhecimento e criatividade, conseguimos mobilizar conversas importantes e contribuir para mudanças reais na sociedade.
Para Amanda Machado, médica, professora do IDOMED e integrante do Núcleo de Inclusão, Diversidade e Humanização da instituição, a discussão precisa fazer parte da formação dos futuros profissionais.
— O projeto se faz necessário e urgente, como uma ação antirracista concreta na medicina brasileira, historicamente marcada por desigualdades de acesso e representatividade. A formação médica precisa estar comprometida com a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, incorporando, ao longo de todo o currículo, uma visão de cuidado que considere as especificidades, os contextos e as necessidades da população negra — diz a professora.
Em 2026, o projeto concorreu nas categorias Outdoor, Media, Creative Data e Glass: The Lion for Change. O reconhecimento se soma ao desempenho obtido no Cannes Lions 2025, quando o Nigrum Corpus conquistou um Grand Prix, dois Leões de Ouro e um Leão de Bronze.
— Falar sobre racismo, que é um determinante social da saúde, durante a graduação é essencial para formar médicos mais preparados, conscientes e comprometidos com uma assistência que lance mão da equidade — conclui.
Crédito das imagens: divulgação







