Chico Anysio (1931-2012), papa do humor no país, cunhou uma legião de personagens tão inesquecíveis quanto seu criador. Marcelo Médici, talento da nova geração, tem esse condão. Sanderson e Mãe Jatira, dois dos tipos criados por ele, estão na memória afetiva do público. Sem falar nos bordões, incorporados à linguagem corrente e ouvidos até hoje. O curioso é que, no caso de Médici, muitas dessas figuras surgiram no palco. E é ali onde, a cada domingo, ele dá voz a outro papel que também cresceu. Dona Lola, personagem-título do solo apresentado por ele no Rio de Janeiro, surgiu em outro projeto e tem hoje um solo dela. As apresentações ocorrem no único dia de folga do ator na TV, onde ele brilha em “A nobreza do amor”, novela da Globo. “Gravo de segunda a sábado e faço teatro aos domingos. Minha escala hoje é 7×7”, reconhece o ator nesta entrevista ao NEW MAG. Na conversa, por telefone e realizada no trajeto entre sua residência e a TV, Médici lembrou o início da carreira no veículo – quando ouviu da veterana Zilda Cardoso (1936-2019) conselho com o qual hoje concorda – e reflete sobre mudanças de comportamento, letramento, estigmatização, aplaude ídolos como Tony Ramos e Marília Pêra (1943-2015) e revela que custou para conquistar Bibi Ferreira (1922-2019). Sobre os tipos que imortalizou, é categórico: “Tive sorte em relação aos personagens”. Sorte tem também o público por testemunhar o brilho de um comediante que tem, além de talento de sobra, um legado do qual já pode se orgulhar.
Vejo na Dona Lola ecos da Margarida, personagem da peça de Roberto Athayde interpretada em mais de uma ocasião por Marília Pêra. Essa percepção faz sentido?
Faz sim. Marília é para mim a maior atriz do mundo, gênio da raça. Não assisti à montagem original da Margarida (“Apareceu a Margarida”, encenada pela primeira vez em 1973), mas assisti à remontagem, nos anos 1990, e li o texto algumas vezes. Marília está nas minhas entranhas e fico lisonjeado com esta comparação. Sem falar que utilizamos a tradução do Roberto em “Irma Vap”, que teve direção da Marília (em montagem estrelada também por Cassio Scapin). Minha Lady Enid tinha um quê dela. Eu a imitava e ela sabia disso. Marília me disse, na época, que aprendeu a fazer mulheres sofisticadas com Dulcina (de Moraes e uma de nossas mais importantes atrizes).
Lola é impetuosa, por isso a comparação com Margarida. Ela é advertida pela buzina a cada vez que usa um termo considerado ofensivo. O letramento é uma censura?
O letramento é superimportante. O humor precisa atentar às mudanças no mundo. Quando assistimos às novelas antigas no streaming, há o aviso de que aquela produção reproduz hábitos relacionados à época em que foi feita, e isso é importante. E o humor não escapa disso. A Dona Lola tem muito da minha avó. O solo é um spin-off de um quadro criado para outra peça. As pessoas mais velhas ainda se encontram, brigam, pegam ranço uma das outras, mas se entendem e continuam vivendo. E elas têm uma certa dificuldade às mudanças. Vejo pelo meu pai. Outro dia fomos ao shopping, e ele fez um elogio à moça que o atendia. Disse que ele não poderia mais fazer aquilo, e ele ficou amuado. Sei que aquilo para ele é uma mesura, mas, hoje, pode ser entendido como um tipo de assédio. É importante que o humor acompanhe isso. Há coisas que não cabem mais.
Tony Ramos participada peça num áudio, e ele está irreconhecível. Na fala, a gente enxerga de fato uma mulher idosa. Ele é danado, né?
O Tony não é só um grande ator, mas uma das melhores pessoas que conheci na vida. Ele é um ator monstruoso e capaz de transitar por lugares inimagináveis. Tive vergonha de pedir a ele a gravação, hesitei e quando ele mandou, eu e o Ricardo (Rathsam, autor e diretor da peça) não parávamos de rir. Ele repete uma determinada frase demonstrando que ele se apropriou daquilo, e botou caco, fez o que quis. Há ali ecos de Oscarito, de comediantes que o formaram, e a comédia no Brasil não costuma ser reconhecida. Todos os meus ídolos fizeram comédia. Muito do que vi e me formou vem da comédia. O Tony é um presente. A participação dele é aplaudida em cena aberta todas as noites.
Quando Leonardo Di Caprio preparava-se para viver gêmeos em O homem da máscara de ferro, ouviu do Jeremy Irons a recomendação: esqueça as semelhanças e atente às diferenças. Qual foi o teu trampolim para os gêmeos que faz em A nobreza do amor?
Quando fui chamado para a novela, a primeira coisa que soube é que faria um padre e isso, para mim, foi um susto. Depois, quando soube que ele teria um irmão gêmeo e que seria cangaceiro, pirei. Tenho fascínio pelo universo do cangaço. Minha primeira incursão pelo teatro foi com uma montagem sobre Lampião e Maria Bonita. O pique de novela é corrido, e o Jeff (Miranda, preparador de elenco) foi crucial ao chamar minha atenção para o fato de ambos terem vidas pregressas. Tanto que nenhum deles é só bom ou só mau. Não há maniqueísmos e, a partir disso, construímos um cangaceiro meio Macunaíma enquanto o padre é austero. Tanto que o Carrapato teve uma filha, da qual abriu mão em razão do cangaço, o que era muito comum. Tive sorte com essa preparação, pois os personagens fogem de estereótipos.
Por ser fascinado pelo cangaço, está acompanhando Guerreiros do Sol ou já tinha assistido pelo streaming?
Agora é que estou assistindo. Tenho fascínio por aquela minissérie “Lampião e Maria Bonita” (exibida pela Globo em 1982). O Nelson Xavier fez uma coisa impressionante: colocou o Lampião falando baixo e, com isso, deu ao personagem a autoridade que ele precisava ter. Já a Tania Alves personificou Maria Bonita de forma assustadora. Esse foi um dos melhores papéis dela na TV.
O Sanderson decolou na Terça Insana e voou alto. Com que outro personagem queria que tivesse acontecido isso?
Com nenhum deles (risos). O Sanderson começou no teatro e foi para a Tv. Quase que fui para a Escolinha (do Professor Raimundo, humorístico estrelado por Chico Anysio), mas acabei fazendo “A Praça é Nossa”. Na Tv aberta tinha de pegar mais leve, mas depois, quando ele entrou no Vai que cola, pôde ser um pouquinho punk. É legal você ser reconhecido por um personagem, mas há uma coisa que não quero perder, que é esse ponto neutro do ator. Não estou cuspindo no prato em que comi, não é isso, mas não quero perder esse elã. Por isso faço teatro e refuto em colocar os personagens no YouTube. Odiaria ficar aprisionado a um personagem.
Já que você falou da Praça, a Zilda Cardoso te deu um toque precioso nos bastidores do programa, né?
Foi, e a ficha demorou a cair. Ela virou para mim e mandou esta: “Você é ator, né? Acho que devia fazer novela”. Disse a ela que novela gravava todos os dias e que, ali, na Praça, gravávamos uma vez na semana, no que ela foi taxativa: “Novela é todo dia, mas chega o dia em que acaba”. Demorei a entender, mas hoje dou razão a ela. No humor, dependendo da força de um personagem, o ator pode ficar preso a ele para sempre. Veja o caso do Roni Rios. Ele interpretava a Velha Surda na Praça e, quando ele morreu, falaram da doença dele e não da sua trajetória. Muita gente certamente nem sabia o nome dele.
O bordão da Smurfete foi adotado pelas minhas irmãs. Qual apropriação mais inusitada você soube em relação à fala de uma personagem?
Muita gente pegou os palavrões do Mico Leão Dourado, por exemplo. O “Toda trabalhada”, da Mãe Jatira (vidente que incorpora a Branca de Neve) acho que é o mais usado até hoje. A Mãe Jatira já foi chamada para campanha publicitária e isso certamente é o mais inusitado em relação a uma personagem…. São 21 anos na Globo, 9 novelas, e o que acho interessante é que, quando me abordam, muitas vezes comentam sobre personagens que viram no teatro, e isso é muito gratificante.
Teus personagens têm marcas fortes. O FLadson tinha a gagueira, por exemplo. O que um personagem precisa ter para te conquistar?
Acredito muito em sorte, e acho que tive muita sorte em relação aos personagens que fiz. Falar de plano de carreira num país como o Brasil é utópico. A gente é chamado para as coisas, vai e faz. Muitas das minhas escalações vieram dos autores. Novela é uma obra aberta que às vezes dá certo e outras vezes não. Quis ser ator para fazer novela. Acontece que sou apaixonado por teatro, então agora estou nesta dinâmica: gravo de segunda a sábado e faço teatro aos domingos. Minha escala hoje é 7×7.
Você trabalhou com diretores de diferentes escolas como Bibi, Antunes, Gerald e Takla… O que um diretor precisa ter para te interessar? Ousadia? Domínio de linguagem?
O mais importante é ter uma boa comunicação com o ator. A química tem de acontecer. Sem paixão o processo não acontece. Senão vira só mais um trabalho em vez de um acontecimento. Com o Gerald o processo foi muito rápido, mas ele é uma figura divertidíssima. Com o Charles Möeller o entendimento é no olho. Com o Ricardo agora, por exemplo, eu me divirto muito.
Foi tranquilo lidar com a austeridade da grande Bibi Ferreira?
Bibi era muito austera e disciplinada. Demoramos a ter intimidade. Ela implicou comigo no início e pegava no meu pé. Entrei no jogo dela. Brincava com todo mundo e com ela ficava quieto, na minha, e ela indagava os outros do porquê de todos se divertirem comigo e ela não. Terminamos o processo apaixonados um pelo outro.
Há ousadia e espírito crítico na série humorística estrelada pela Tatá e pelo Eduardo no streaming. E há ali um quê de TV Pirata, com inovação e resgate de uma linguagem. O futuro do humor está no equilíbrio entre essas forças?
Acho que sim. Sinto falta daquele humor popular, que se comunicava com o povão. Falta humor na grade da TV aberta e isso é imperdoável.
O humor perdeu o protagonismo?
Humor é fenômeno de Comunicação. Ele está esquecido e vilanizado. O humor não vai morrer nunca, e o mesmo pode ser dito sobre o teatro. No caso do humor, ele até pode ficar restrito às redes sociais, ao instagram, mas vai continuar sempre.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e Jairo Goldflus (imagem)





