A hora da estrela

outubro 5, 2025

Benedita Casé Zerbini brilha no cinema sob as bênçãos de Caetano Veloso, Fernanda Montenegro e de Regina Casé

Um libelo sensível e tocante por um mundo inclusivo. Assim pode ser definido “90 decibéis”. E os aplausos efusivos com os quais o filme foi recebido no Festival do Rio, na noite do último sábado (04), tomaram a plateia ainda na cena final, quando os nomes dos atores – todos pessoas com deficiência (PCDs) – despontavam na tela culminando no de Benedita Casé Zerbini, protagonista do longa e merecidamente ovacionada.

Ela e a roteirista do filme, a também autora teatral Júlia Spadaccini são deficientes auditivas e, aliadas ao olhar sensível do diretor Felipe Barbosa (que perdera recentemente a mãe para uma doença degenerativa), encabeçam uma produção que presta um serviço de informação e de utilidade pública à população brasileira. E o filme estreia sob as bênçãos de dois importantes nomes da Cultura brasileira. Fernanda Montenegro e Caetano Veloso prestigiaram a sessão.

– Sou madrinha da Benedita e não poderia faltar. Estou aqui para aplaudi-la – declarou a grande dama do teatro brasileiro minutos antes de, sob os cuidados de Carmen, sua empresária e fiel escudeira, sentar-se ao lado de Caetano na plateia. – Sem dúvida nenhuma é um filme importante, e ela está numa hora de grande presença diante dela e diante do que ela pretende da vida dela.

A percepção de Fernanda não é em vão. Filha da atriz Regina Casé e do artista visual Luiz Zerbini (ambos presentes à sessão), Benedita tem de fato uma grande presença e ocupa a tela com a destreza dos vocacionados, indo da leveza à dramaticidade (e vice-versa) numa demonstração de equilíbrio entre a convicção e a entrega despudorada à personagem. Ela tem estrela.

E sua personagem é Ana, uma advogada bem-sucedida que é levada a defrontar-se com a progressão da perda auditiva. A saída é a de  fazer uso de aparelhos, levando-a ao processo paulatino de adaptação àquele recurso e à própria vida, vida transformada a partir aceitação de ser ela uma PCD.

Em uma das muitas cenas tocantes, Ana indaga o filho pequeno sobre o fato de um de seus colegas do colégio, um menino com down, não estar na lista do seu aniversário. “É que ele não joga bola como a gente”, explica o menino sendo demovido pela mãe: “A sua mãe tem deficiência auditiva. Você gostaria de me ver excluída das coisas por isso?”

Àquela altura o público já estava enredado pela história de vida daquela mulher e pelas dos demais personagens, vividos por atores com algum tipo de deficiência, em maior ou menor grau, num elenco potente de coadjuvantes formado por nomes como o de Pedro Nechling (ele também deficiente auditivo) e Cléber Tolini, ator do solo “O Subnormal – Uma história de baixa visão” e que tornou-se mais conhecido a partir da sua atuação em “Todas as flores”. Ninguém está ali por acaso e todos brilham.  E, como apregoou Caetano em uma de suas canções, gente é pra brilhar.

“90 decibéis” é uma produção cuidadosamente delicada e vibrante. Um filme que precisa ganhar as alas de cinema, as escolas, as TVs e, a partir delas, os lares do país.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e divulgação/ Festival do Rio (imagens)

 

MAIS LIDAS

Posts recentes

Samba de primeira

Talentos do gênero como Diogo Nogueira e Karinah participam de festa pelos 25 anos do museu dedicado ao segmento

Presença soberana

Quitéria Chagas rememora episódio surpreendente vivido no início da carreira em encontro no Rio de Janeiro

‘Essa é nossa razão’

Nathalia Timberg comemora 97 anos e celebra 90 de carreira em noite de grande homenagem no Rio de Janeiro