Enquanto combatia um câncer diagnosticado no pulmão, Rita Lee (1947-2023) descobriu que outros nódulos haviam surgido na bacia e no cérebro. Um deles tinha o tamanho de uma bola de gude. Com o país imerso no desgoverno, a artista não perdeu o bom humor: “Vamos então chamar o maior de Jair, e os demais de 01, 02 e 03”, numa alusão ao então presidente da República e a seus filhos. A fala levou à catarse o público que, na noite da última terça-feira (04), lotou o Teatro Riachuelo para assistir a “Rita Lee: Balada da Louca”. O solo, estrelado por Lília Cabral, fez sua primeira (e aguardada) apresentação no Rio de Janeiro, como parte do Festival de Teatro do Rio.
A peça foi idealizada pelo jornalista Guilherme Samora a partir de “Outra autobiografia” (Globo Livros, 2023), na qual a cantora e compositora relata aqueles que acabaram sendo seus derradeiros anos de vida. Com direção de Beatriz Barros, a peça tem como veio central a luta da personagem contra a doença, diagnosticada em 2021, em razão dos efeitos provocados pela primeira dose da vacina contra a Covid.
“As mulheres têm, na medida em que envelhecem duas opções: a de tornarem-se peruas ou bruxas. As primeiras têm no tempo um inimigo enquanto que as bruxas têm no tempo um aliado”, pondera Rita/Lília num dos primeiros momentos do espetáculo. É, portanto, a uma Rita de cabelos grisalhos, em razão da aposentadoria dos palcos, e serenizada com a passagem do tempo que somos apresentados ao abrirem-se as cortinas.
E um dos muitos trunfos do espetáculo diz respeito à composição criada por Lília. Ao contrário da tendência comum em musicais ou em espetáculos biográficos, a atriz acerta em não imitar a homenageada ou mesmo mimetiza-la através de gestos, intenções ou mesmo através de características vocais ou físicas.

Lília pinta então uma Rita singela e humanizada, distante portanto da persona pública da roqueira exuberante. E mostra-nos, mais uma vez a atriz sensível e arguta que é, capaz de chegar na emoção sem o uso de atalhos que poderiam leva-la a uma interpretação rasa em se tratando da magnitude de Rita Lee Jones.
Há uma corrente que defende que o teatro pode ser feito com um ator, um refletor e uma cadeira. A opção pela simplicidade é evidenciada nas linhas seguidas por Samora e por Beatriz Barros nas concepções cênica e artística. A começar pelo gênero do espetáculo. Apesar de Lília cantar temas como “Nem luxo, nem lixo”, “Coisas da vida” e tocar, num diminuto xilofone, “Balada do louco”, a peça mostra-se como teatro musicado. E acerta ao fazer uso da voz cantada da própria Rita, ouvida em fragmentos de “Dias melhores virão” e num trecho da supracitada balada.
Apesar de a barra enfrentada pela personagem não ter sido nada leve, o espetáculo é vestido com leveza, lirismo (o uso de “Menino de Braçanã” é um exemplo disso), sensibilidade e uma vez que se trata de Rita Lee: bom humor. E os momentos finais são tocantes com Lilia, numa linha brechtniana, apartando-se da personagem e dando voz a si, estabelecendo em seguida um diálogo entre ela e a própria Rita.
“O Divino está nos animais e não nos homens”, pontua Rita ao contextualizar a cumplicidade com seus pets. O Divino pode também estar no teatro. E manifesta-se em “Rita Lee: Balada da louca”. E NEW MAG apurou que a peça volta ao Rio em outubro, quando fará temporada no Teatro Prio. Sim, ela virá, como os tais dias melhores prometidos por Rita.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Fabrício Meliande/ Aventura (imagens)






