Ela é Rita Lília Cabral Lee

agosto 5, 2026

Lilia Cabral acerta ao mostrar uma Rita Lee construída com sensibilidade em solo sobre os últimos anos da artista

Enquanto combatia um câncer diagnosticado no pulmão, Rita Lee (1947-2023) descobriu que outros nódulos haviam surgido na bacia e no cérebro. Um deles tinha o tamanho de uma bola de gude. Com o país imerso no desgoverno, a artista não perdeu o bom humor: “Vamos então chamar o maior de Jair, e os demais de 01, 02 e 03”, numa alusão ao então presidente da República e a seus filhos. A fala levou à catarse o público que, na noite da última terça-feira (04), lotou o Teatro Riachuelo para assistir a “Rita Lee: Balada da Louca”. O solo, estrelado por Lília Cabral, fez sua primeira (e aguardada) apresentação no Rio de Janeiro, como parte do Festival de Teatro do Rio.

A peça foi idealizada pelo jornalista Guilherme Samora a partir de “Outra autobiografia” (Globo Livros, 2023), na qual a cantora e compositora relata aqueles que acabaram sendo seus derradeiros anos de vida. Com direção de Beatriz Barros, a peça tem como veio central a luta da personagem contra a doença, diagnosticada em 2021, em razão dos efeitos provocados pela primeira dose da vacina contra a Covid.

“As mulheres têm, na medida em que envelhecem duas opções: a de tornarem-se peruas ou bruxas. As primeiras têm no tempo um inimigo enquanto que as bruxas têm no tempo um aliado”, pondera Rita/Lília num dos primeiros momentos do espetáculo. É, portanto, a uma Rita de cabelos grisalhos, em razão da aposentadoria dos palcos,  e serenizada com a passagem do tempo que somos apresentados ao abrirem-se as cortinas.

E um dos muitos trunfos do espetáculo diz respeito à composição criada por Lília. Ao contrário da tendência comum em musicais ou em espetáculos biográficos, a atriz acerta em não imitar a homenageada ou mesmo mimetiza-la através de gestos, intenções ou mesmo através de características vocais ou físicas.

Lília Cabral como Rita Lee em “Balada da Louca”

Lília pinta então uma Rita singela e humanizada, distante portanto da persona pública da roqueira exuberante. E mostra-nos, mais uma vez a atriz sensível e arguta que é, capaz de chegar na emoção sem o uso de atalhos que poderiam leva-la a uma interpretação rasa em se tratando da magnitude de Rita Lee Jones.

Há uma corrente que defende que o teatro pode ser feito com um ator, um refletor e uma cadeira. A opção pela simplicidade é evidenciada nas linhas seguidas por Samora e por Beatriz Barros nas concepções cênica e artística. A começar pelo gênero do espetáculo. Apesar de Lília cantar temas como “Nem luxo, nem lixo”, “Coisas da vida” e tocar, num diminuto xilofone, “Balada do louco”, a peça mostra-se como teatro musicado. E acerta ao fazer uso da voz cantada da própria Rita, ouvida em fragmentos de “Dias melhores virão” e num trecho da supracitada balada.

Apesar de a barra enfrentada pela personagem não ter sido nada leve, o espetáculo é vestido com leveza, lirismo (o uso de “Menino de Braçanã” é um exemplo disso), sensibilidade e uma vez que se trata de Rita Lee: bom humor. E os momentos finais são tocantes com Lilia, numa linha brechtniana, apartando-se da personagem e dando voz a si, estabelecendo em seguida um diálogo entre ela e a própria Rita.

“O Divino está nos animais e não nos homens”, pontua Rita ao contextualizar a cumplicidade com seus pets. O Divino pode também estar no teatro. E manifesta-se em “Rita Lee: Balada da louca”. E NEW MAG apurou que a peça volta ao Rio em outubro, quando fará temporada no Teatro Prio. Sim, ela virá, como os tais dias melhores prometidos por Rita.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Fabrício Meliande/ Aventura (imagens)

Lília entre Guilherme Samora, Maria Siman, diretora do festival, e Beatriz Barros, diretora do solo

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