É um filme sobre artistas fundamentais na nossa música. Mais do que isso: o olhar revelador sobre o processo criativo de três talentos da cena pop. E corajoso ao mostrar as idiossincrasias desses artistas com aquilo que elaboram. Estas são maneiras (simplórias talvez e certamente apressadas) de definir “Tribalistas – O baú da hora fértil”, documentário de Dora Jobim sobre a Criativíssima Trindade formada por Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown. A obra teve sua primeira exibição pública, na noite da última segunda-feira (03), abrindo festival do Curta! e contou com as presenças dos artistas retratados no filme.
Numa das cenas iniciais, Brown, Marisa e Arnaldo trabalham na música “Passe em casa”, incluída no primeiro álbum do trio. Ao escolher o verbo implorar para o verso “Estou implorando socorro”, o poeta argumenta: “As pessoas comumente pedem por socorro”. Lá pelas tantas, numa das execuções do tema, Marisa canta “estou explorando socorro”, levando Brown a espantar-se. A cena é apenas um dos muitos trunfos de “Tribalistas – o baú da hora fértil”.
Num país onde sua música é certamente seu mais precioso commodity, é natural que se façam filmes sobre seus artistas. Maria Bethânia já foi retratada em diferentes momentos em obras como o curta “Bethânia bem de perto – A propósito de um show” (1966), de Júlio Bressane e Lauro Escorel, a, mais recentemente, “Fevereiros”, de Marcio Debelian. E, no caso de um grupo de rock, é comum o diretor recorrer a imagens de arquivo ou ao acervo de TVs por ter acompanhado à distância a gênese do personagem central.
Quem certamente cumpriu à risca esta proposta foi Jom Tob Azulay no doc sobre Os Doces Bárbaros, o grupo formado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e por Bethânia. O filme em questão acompanha o quarteto dos ensaios às apresentações da turnê. E, a partir das detenções de Gil e de Chiquinho Azevedo, o roteiro abre-se à reportagem ao cobrir a prisão/julgamento/condenação dos dois. O filme de Tob não mostra, no entanto (e não há demérito nisso), como Caetano e Gil compuseram o repertório daquele show.
Então, feita esta ressalva, Dora Jobim faz História ao mostrar au grand complet a trajetória de um grupo musical, da sua gênese à consagração. Este banquete visual e musical ela nos dá ao longo dos 90 minutos do filme. O roteiro estrutura-se em três movimentos: 1); a criação do repertório do álbum de estreia do grupo e, passados 14 anos, 2); a elaboração do segundo álbum e, 3); a turnê consagradora (o que não ocorreu com o primeiro álbum) pelo país, pela Europa e pelos EUA.

Findas as apresentações, ao saírem de cena, os artistas trocam impressões como as elaboradas por Brown ao fazer observações como “Hoje estávamos mais teatrais” ou “mais musicais”. A comparação com “Os Doces Bárbaros” não é portanto aleatória. Enquanto o filme realizado em1976 enaltece os números musicais, reproduzindo-os quase que na íntegra, o de Dora privilegia os bastidores, seguindo os artistas por hotéis, traslados, camarins e pelos estúdios, sejam eles de ensaios (com direito às presenças de Margareth Menezes e, a posteriori, de Carminho) ou de gravações.
É gratificante ver apuro comum aos três artistas, tão diferentes entre si e ao mesmo tempo tão complementares. Numa cena, Marisa alerta os parceiros de que estavam se afastando da melodia originalmente criada e, munida de seu gravador portátil, apela: “Vamos voltar à melodia e trabalhar a partir dela”. É interessante também ver que, numa folha de papel que Arnaldo tem nas mãos, “Um a um” teve como título primevo “Do time”.
E o filme fica enternecedor ao mostrar-nos que esses artistas podem também se comportar feito crianças travessas. Num teatro em Buenos Aires, diante de um paredão com cartazes de artistas que por lá passaram, eles fazem blague da vinheta (a partir de um tema italiano) que apresentava os jurados do “Show de calouros”, do SBT. “E a Laura Pausini lá/ lá, lá, lá, lá, lá, lá/ E o Julio Iglessias lá”, divertem-se Arnaldo, Marisa e Brown.
Já com a turnê nos seus estertores, um Arnaldo eufórico com o desempenho da trupe e a receptividade do público, lamenta: “Deveria ser para sempre”. “Mas é para sempre”, rebate Marisa. Pois é… Esta reunião, já registrada em álbuns e num DVD, está agora eternizada no cinema. E Dora Jobim fez, como dito, História.
“Tribalistas – O baú da hora fértil” é o retrato dos artistas quando jovens e, 14 anos depois, amadurecidos. Uma pintura precisa de tão fidedigna de talentos que transcenderam adjetivos como modernos. São eternos, portanto. E eternizados num filme exuberante de tão revelador.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Gabi Neto (imagens)






