Em certos países da Europa, quando uma atriz – e refiro-me àquelas por excelência—atinge a plenitude, recebe a alcunha de “dama”. Tal título vem muito bem a calhar quando se trata de Natália do Vale. Ela está de volta aos palcos, seu habitat natural, para quebrar um jejum de 20 anos longe deles e celebrar cinco décadas de uma carreira vitoriosa, através da qual nos brindou com personagens memoráveis na TV. Natália divide a cena com Herson Capri (outro ator de responsa) em “A sabedoria dos pais”, espetáculo escrito e dirigido por Miguel Falabella, com quem retoma parceria que rendeu trabalhos como “A partilha”, comédia que alçou Miguel ao rol dos nossos grandes autores. “A sabedoria dos pais” segue para São Paulo no fim deste mês, onde tem tudo para repetir a bem-sucedida trajetória iniciada no Rio de Janeiro, de onde se despede neste fim de semana. “A ideia de trabalharmos os três é antiga”, explica a atriz nesta entrevista, por telefone, ao NEW MAG. A seguir, Natália celebra a confiança que a liga a Falabella, compara a TV de hoje àquela onde construiu seu nome, festeja a abertura do veículo à diversidade e avalia os ganhos trazidos pela maturidade e por perseverar na profissão. “Não ter ansiedade é libertador”, atesta.
Plenitude é uma palavra que o teu desempenho e o do Herson na peça me trazem. Os ensaios começaram sem que o texto estivesse concluído. A confiança é um dos principais temperos para a receita não desandar?
Com certeza, e essa confiança tem de ser mútua, tanto em relação ao Herson quanto em se tratando da gente e do Miguel. A ideia de trabalharmos os três é antiga e foi sendo protelada até que calhou de acontecer. Conheço o Miguel há muitos anos e isso implica em conhecer o temperamento dele, sua inteligência e sensibilidade. Começamos os ensaios sem o texto pronto, com as primeiras cenas escritas somente. Com “A Partilha foi assim também…
Esse brainstorm deve ter sido interessantíssimo…
Na época da Partilha, ele telefonava a uma da manhã para ler o que tinha acabado de escrever. E não foi muito diferente com essa peça de agora. O Miguel tá sempre trabalhando, então com ele morando em São Paulo, nossos primeiros encontros foram virtuais. Herson vinha aqui para casa e falávamos com o ele pelo computador.
Você volta a trabalhar com Miguel no teatro 35 anos após A Partilha e 25 anos após A vida passa. Qual sabedoria foi aguçada neste reencontro?
Difícil responder a esta pergunta… A gente acaba voltando à questão da confiança. O fato de o Miguel dirigir um texto também escrito por ele faz a diferença. Ele escreve ouvindo o som das nossas vozes e chega na cena com uma ideia precisa do que quer e o que espera da gente. E vai reescrevendo a cena ali, no ensaio. Ele ia mostrando as cenas para a gente e pedia: não decora. Aí eu chegava no ensaio com o tudo decorado, ele reclamava e eu explicava que não sabia fazer de outro jeito (risos). Independentemente disso, ele confia em mim e sabe o que pode extrair de mim.
Atores do teu quilate e do de Tony Ramos não podem se dar o luxo de ficar mais de 20 anos sem fazer teatro… Porque esse período sabático tão longo?
Por uma questão muito simples: em 1984, fazia a novela “Transas e caretas” e estava em cartaz no teatro com “Besame mucho”, de quarta a domingo e com duas sessões aos sábados. A gente chegava ao estúdio às 8h sem hora para sair e, nos finais de semana, eu saía correndo feito uma louca. Trinta e cinco anos depois, a gente não tem mais a disposição de antes, e há muito que a TV perdeu aquela boa vontade com que olhava os atores que faziam teatro. Já era puxado lá atrás e agora está pior. Fora a questão da logística. Tenho uma vida estruturada no Rio e Já recusei convites para fazer teatro porque implicariam em eu ter de me mudar para São Paulo.
Capitanias hereditárias estreou no dia em que você perdeu sua mãe. Com qual dos sentimentos foi mais difícil de lidar naquela ocasião?
Assim que soube, o Ney (Latorraca, colega de elenco na peça) foi ao hospital me abraçar. O Miguel (Falabella) gentilmente me perguntou se não queria que adiássemos a estreia, e disse que não, que minha mãe ficaria triste se isso acontecesse (e Natália chora ao recordar o fato). Durante a apresentação, nas vezes em que não estava em cena, acompanhava da coxia as cenas dos colegas, tudo para não perder meu foco. E, no dia seguinte, enterrei minha mãe. Foi um momento difícil e me amparei no pensamento de que ela gostaria de me ver em cena.
O ator tem de lidar com esses dilemas; parar ou não. Situação semelhante você viveu em A Partilha, não?
Perdi meu irmão justamente quando estava em cartaz numa peça do Miguel. A vida do ator tem dessas coisas. Houve uma situação inesquecível em “A partilha”: o teatro pegou fogo. Fazíamos a cena final quando o público começou a debandar. Cheguei a pensar que eles não haviam gostado daquele final quando uma espectadora levantou e gritou “FOGO!”. Aí foi aquela correria louca (risos).
Você atuou simplesmente em cinco novelas do Manoel Carlos. Todas as suas personagens eram mulheres criveis de tão humanas. Em algum momento ficou intimidada por alguma delas?
Nunca! E me diverti muito com a minha personagem (Silvia) em “Mulheres apaixonadas”, ainda mais naquela cena em que ela e o motorista (Caetano, interpretado por Paulo Coronato) vão para o motel. Algumas cenas podiam soar absurdas, mas a vida é feita de absurdos. Então, eu sempre encarei esses desafios com bom humor, um humor almodovariano (em referência ao cineasta espanhol Pedro Almodóvar) quase. E, nessas situações, eu saio de mim. Não levo a personagem para casa e nem levo a pessoa física para o set.
A TV está mais diversa, com mais protagonistas negros, PCDs e pessoas trans em seus elencos. Podemos sonhar com uma TV ainda mais inclusiva?
A TV caminha bastante bem neste sentido. A novela das 21h (“Três Graças”) tem uma atriz trans (Gabriela Loran) que é excelente. Venho de uma família pequena. Éramos meus pais, meu irmão e eu e, nas nossas conversas, nunca houve abertura à intolerância. A TV está no caminho certo.
A novela vertical te atrai?
Não faço ideia. O fato é que o formato atual das novelas já não me atrai (risos). Talvez, por ser uma coisa mais dinâmica, com menos capítulos, talvez. Fazer novela, como fazíamos, era puxado. Vejo hoje novelas com menos capítulos e essa mudança é necessária.
Acho corajosa sua opção por não ter tido filhos, indo contra a expectativa de que a maternidade é a condição primordial feminina. Com o que foi mais difícil de lidar na quebra desse paradigma?
Quero esclarecer um ponto aqui. Essa mesma questão foi trazida numa entrevista recente, e o jornalista escreveu que eu me arrependia por não ter tido filhos. Em momento algum disse isso! O que disse é que meu pai teria gostado de ter sido avô, mas isso não implica num arrependimento meu. Não quis ter filhos e nunca me senti cobrada ou pressionada socialmente por isso. Sou mais introspectiva. Ao mesmo tempo em que gosto de estar entre amigos, valorizo meus momentos de solidão.
Você é muito reservada na vida pessoal. Marisa Monte me disse que dá mais trabalho criar conteúdo do que preservar-se. Concorda com ela?
Sempre fui assim, desde o começo da carreira. Não me sinto pressionada a atender certas demandas e nem fico atormentada por isso. O Wagner Moura não ter redes sociais é o máximo! Agora, a peça que estou fazendo tem que ter, o produto com que estou envolvida sim. Revisitando fotos da família, me dei conta de que quase não tenho fotos de quando era pequena. A verdade é que nunca gostei de fazer fotos.
Qual a principal sabedoria trazida por 50 anos de carreira?
A serenidade. E a certeza de ter desempenhado meu trabalho com seriedade e correção, senão não estaria aqui falando com você hoje. Não ter mais aquela ansiedade do começo é libertador. Ter paz e serenidade para desempenhar meu trabalho é o que mais prezo hoje.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e Nana Moraes (imagem)





