Alie o gosto por estudar a uma sensibilidade apurada. Acrescente a isso doses de ousadia, coragem e obstinação. O resultado é o de uma realizadora múltipla e aguerrida. Assim é Carla Camurati. Quando iluminava a tela da TV em idos dos anos 1980, em novelas como “Livre para voar” e “Fera radical”, ela certamente intuía que tinha muito mais a mostrar como artista. E, na década seguinte, lá foi ela para detrás das câmeras e, com isso, ajudou com seu “Carlota Joaquina” a reerguer no país a então combalida indústria cinematográfica. Comprometida com o que abraça, não se intimidou diante de novos desafios como o de gerir um dos mais tradicionais teatros do país ou mesmo o de envolver-se na realização das Olimpíadas de 2016 no Brasil. “Quando tenho de realizar algo, sou impelida a fazer”, reconhece Carla nesta entrevista, por telefone, ao NEW MAG. E dá uma prova disso em sua mais nova incursão pelo cinema. Em “Raízes do Sagrado Feminino”, ela fala do papel da mulher sob o prisma de religiões consolidadas a partir de escrituras sagradas. “Quis fazer essa mistura entre conhecimento e entretenimento”, pontua a diretora, que ouviu líderes religiosos dos mais notórios. A seguir, ela fala do anseio por um mundo igualitário, defende a política de cotas ao mesmo tempo em que sugere menos burocratização no fomento ao cinema, celebra encontros com Thales Pan Chacon (1956-1997) e com Marco Nanini (“dos melhores atores do mundo”) e dá sinais de que pode voltar a atuar – e nos palcos.
Em que momento você se deu conta de que precisava falar do lugar do feminino diante das religiões pautadas por escrituras sagradas?
Foi logo que terminaram os trabalhos nos Jogos Olímpicos (Carla foi diretora de Cultura junto ao Comitê Organizador dos Jogos). Estávamos em 2017 e pipocavam na imprensa e na TV notícias relacionadas à violência contra mulheres. Havia uma corrente que dizia ser um fenômeno da internet, mas, conversando com diferentes pessoas, me dei conta de que não. Aquele comportamento vinha de muito antes e, naquele momento, estávamos nos dando conta de que ele existia. A leitura de um livro em especial, “A Bíblia das mulheres”, da Elizabeth Stanton, foi fundamental para despertar em mim a vontade de me aprofundar no assunto. E lá fui eu estudar… Em razão da boa bilheteria do “Getúlio” (filme dirigido por João Jardim e produzido por Carla), acabei investindo nesse projeto o dinheiro que ganhei ali.
Chegou a temer alguma retaliação ao filme pautada pela intolerância ou pela desinformação?
Sabe que não? Segui com este projeto a mesma premissa de “8 presidentes e 1 juramento” (documentário sobre os presidentes que comandaram o país da Redemocratização ao governo Bolsonaro). Ali, a narrativa é fundamentada por fatos históricos. Ele foi exibido como série na TV e depois foi para o streaming. Ele é baseado em fatos, e a gente não poupou ninguém. Segui a mesma linha neste novo documentário. Não estou atacando nenhuma religião, mas ouvindo opiniões de pessoas abalizadas sobre a relação desses credos com o feminino. Estão ali, estudiosos, líderes religiosos, um teólogo, um padre, um rabino, pessoas que conhecem a fundo os temas de que falam. Adoro ouvir as pessoas e quis fazer neste projeto essa mistura entre conhecimento e entretenimento, profundidade e leveza.
Como vê esse discurso autocomiserativo de que a masculinidade está sendo oprimida?
Acho que esse comportamento vem de uma insegurança masculina. E toda insegurança é natural a partir de certos pleitos. O Patriarcado é muito sólido no Brasil, e essa insegurança é compreensível. Nesses momentos são necessárias calma e escuta. Percebo hoje um receio em opinar. As pessoas têm medo de falar por temerem retaliações. Os homens deveriam ter mais escuta, mas muitos deles preferem não ouvir. É necessário todo um letramento para os homens em relação às questões femininas. Fazer com que eles se permitam isso é muito difícil e fica cada vez mais complicado.
A menina é educada para ser recatada, e o menino, um garanhão, numa conta que não fecha. Você vislumbra um mundo mais igualitário?
Vislumbro, mas a mudança depende da gente. A educação infantil precisa ser repensada. Poderíamos fazer como na China, onde as crianças brincam com brinquedos de ambos os gêneros. Não tem esse preconceito que há aqui. Ali, a linha de pensamento está mais voltada às aptidões. É uma questão de mudança de pensamento e não são necessários zilhões para investir nisso. Os homens e as mulheres precisam saber desempenhar diferentes tarefas, e isso é evidente em muitos países hoje. O Brasil está atrasado em relação a isso. Brinco que se eu fosse ministra, uma parte do mandato seria toda voltada a implementar mudanças na educação infantil.
Carlota Joaquina completou 30 anos. Hoje, olhando em retrospecto, o que te deixa mais orgulhosa desta empreitada?
Tenho orgulho do resultado, de ter conseguido fazer um filme do jeito que queria e com a linguagem escolhida. Não tinha dinheiro. Fazer cinema é caro e trabalhar com reconstituição histórica deixa a produção mais cara ainda. Então, precisei me colocar em outro lugar. O filme parte da conversa entre um tio e sua sobrinha, então muitas das imagens não são exatamente fidedignas pois vêm da imaginação dessa criança. E ainda optei pelo humor. Isso fez com que o filme recebesse críticas, por exemplo, de membros da família real. Acontece que o filme está amparado em uma pesquisa histórica muito sólida, e isso fez toda a diferença. O cinema não precisa necessariamente explicar, mas ele te abre portas para você ir atrás do que de fato te interessa.
Marco Nanini está presente em três dos filmes dirigidos por você. O que te seduz no ator que ele é?
Acho o Nanini um dos melhores atores do mundo, de um padrão muito impressionante. Ele não se torna somente o personagem, mas alcança a verdade daquilo numa dimensão muito mais ampla. Assisti a um espetáculo em que ele atuava com a Camila Amado, “As cadeiras”, e era maravilhoso. Ele é aquele ator que, quando está em cena, consegue te mostrar tudo. Sou encantada por ele.
Um dos trabalhos mais tocantes do Thales Pan Chacon no cinema é em La serva padrona. Ele não tem uma fala, mas está ali por inteiro. O que o Tales te ensinou de mais genuíno?
Conheci o Tales no teste para “Eu sei que vou te amar” (de Arnaldo Jabor). Ele já estava certo para o papel e contracenou com todas as atrizes-candidatas. Na minha vez, ele já estava todo suado e não guardei dele uma boa impressão. Tempos depois, nos reencontramos em “Drácula”, em São Paulo. Nos aproximamos e namoramos. Ele era divertidíssimo e, por isso, nunca conseguimos brigar. Sou debochada, e ele também era. Quando começava a subir o tom, ele derrubava meu argumento e, quando via, estávamos gargalhando. O Tales era de fato uma pessoa muito especial.
Fazer cinema no Brasil exige paciência. Os processos acontecem com longos intervalos entre eles. O que falta na política de incentivo para dar mais dinamismo às produções?
A questão é que os processos são muito burocratizados e poderiam ser mais ágeis, como são as coisas no mundo digital. Dinheiro tem, mas tem também muita burocracia. É claro que há toda uma conduta em se tratando de uso de verbas e de leis, e a gente vê essas denúncias de agora (relacionadas ao banco Master) e isso tudo é uma vergonha. A corrupção no Brasil é endêmica e precisa ser combatida, mas o processo de fomento poderia ser melhor. E o Brasil faz tanta coisa legal… Participei recentemente da curadoria do Festival de Miami e só assisti a filmes bacanas! A questão da produção de cinema no país está melhor distribuída, mas as coisas relacionadas à fluidez das realizações podem melhorar. A prestação de contas foi aprovada? Subiu no sistema? Então, vamos avançar, mas não, tudo é uma guerra.
Os editais ajudam ou atrapalham?
Ajudam, e é fundamental que existam. O sistema de cotas é importante também por levar ao mercado parte da população que era excluída. É importante atender a essa parcela? Sim, mas isso não significa deixar de contemplar os profissionais que têm toda uma trajetória construída no cinema. Então é necessário aumentar o investimento no setor para que a política de fomento seja a mais abrangente possível.
Desde que você abraçou o ofício de diretora sentiu vontade de voltar a atuar?
Sabe que penso em voltar a atuar? Tenho sentido saudade de fazer teatro e me dei conta disso outro dia. Pude fazer no teatro coisas das quais gostei muito, como “Cartas portuguesas”, com direção da Bia Lessa. Fui me afastando, ficando longe, mas tenho os olhos brilhantes ainda para o teatro.
Enquanto realizadora, você sempre arregaçou as mangas e botou a mão na massa. Coragem sempre foi tua marca ou foi descoberta aos poucos?
Não sei te responder… Nunca me vi dessa forma. Faço as coisas porque elas precisam ser feitas. No caso do restauro de um teatro (o do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, durante sua gestão) foi um trabalho que levou sete anos! Se tivessem me perguntado se ficaria sete anos envolvida num trabalho, talvez dissesse que não, mas era algo que precisava ser feito. Você tem de acreditar e ir em frente. Quando tenho de realizar algo, sou impelida a fazer. Tenho de fazer e vou fazer direito. Adoro desafios que me levam a estudar, a me preparar para aquilo. A pessoa que deixa de estudar não sabe o que está perdendo.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e reprodução/instagram (imagem)





