No dia 24 de junho de 1976, quatro importantes talentos da música brasileira estreavam um show juntos. Os planos eram muito bons e, entre eles, estava o de reavivar o espírito despretensioso que marcou, 12 anos antes, na Bahia, o início das carreiras daqueles amigos. Eles eram Maria Bethânia, Gal Costa (1945-2022), Caetano Veloso e Gilberto Gil, artistas que, àquela altura, não precisavam mais se colocar à prova de quaisquer julgamentos artísticos. Juntos eles formaram Os Doces Bárbaros, grupo musical cujo encontro motivou um LP duplo ao vivo, documentário dirigido por Jom Tob Azulay e que, 18 anos depois, a partir da escolha do quarteto para enredo da Mangueira, renderia reencontros no palco e mais um registro audiovisual.
Partiu de Bethânia a ideia da reunião. Ela não imaginava que Caetano, a quem expôs a intenção, tinha ideia semelhante. As canções para o projeto foram compostas no início de 1976 e estavam finalizadas em duas semanas. Os primeiros ensaios, inicialmente só com o quarteto, aconteciam ora na casa de Bethânia, ora na de Caetano. A banda só entrou no circuito em maio daquele ano. Essas são algumas das curiosidades garimpadas pelo pesquisador Luiz Abrahão em “Mistério sempre há de pintar por aí – Uma História dos Doces Bárbaros” (Garota FM Books), livro-reportagem que celebra os 50 anos do conjunto e cuja pré-venda começa nesta quarta (24), dia em que a turnê estreou.
— O impulso mais primitivo para a criação dos Doces Bárbaros foi essa vontade de reviver momentos de leveza, de frescor, que os quatro haviam experimentado em Salvador, no início de suas carreiras. Então, tem o episódio de Bethânia fazer o poema “Pássaro Proibido” e pedir a Caetano para o musicar. Nesse momento, ela externalizou o desejo de reunião, sem saber que ele também alimentava essa vontade. Só então, Gil e Gal foram consultados, e aceitaram imediatamente – explica o autor, corroborando ainda: — Demorou um bom tempo para eles se encontrarem: tanto pelos compromissos já acertados quanto pelo fato de que precisavam se ambientar com a ideia. No verão da Bahia, Gil e Caetano começaram a compor canções. Em seguida, começaram ensaios só os quatro. A banda só chegou quando os arranjos vocais estavam praticamente estruturados.
Após a estreia no Anhembi, São Paulo, a celebração foi na casa de Rita Lee (1947-2023). A artista estreitara laços com Caetano, Gil e com Gal na época em que, em fins dos anos 1960, revolucionaram a música brasileira com a Tropicália. Rita era também homenageada no show, com a música “Quando”, solo de Gil cuja autoria traz a participação de… Gal Costa, como comenta Abrahão:
— Interessante que essa letra tem a parceria de Gal, Gil e Caetano. Foi Gal quem ajudou os compositores a resolver um detalhe poético-melódico e, por isso, ganhou a parceria.
Outro dado trazido pelo pesquisador diz respeito à internação de Gil e do baterista Chiquinho Azevedo em razão do episódio referente à prisão dos dois, em julho daquele ano, por porte de maconha. Gil e Chiquinho foram proibidos de participar do ensaio geral para a estreia carioca do show. A medida acabaria por prejudicar a apresentação, mas não afetou em nada o sucesso da temporada, como pontua o pesquisador:
— Na clínica psiquiátrica, Gil e Chiquinho faziam jam sessions, mas isso não substituía tocar com todos os músicos. Por isso, quem viu a reestreia relatou certos desencontros pontuais que a crítica fez questão de ressaltar. Com o tempo, tudo se ajeitou. O que mais chama a atenção é que, daquele momento em diante, os Doces Bárbaros viraram um fenômeno cultural: o Canecão ficava lotado, e apurei que os baianos chegaram a bater o recorde de público da casa, destronando Roberto Carlos.

Escrever sobre o grupo era uma espécie de predestinação. Doutor em Filosofia pela UFMG, o professor universitário tinha já um rico acervo jornalístico sobre os quatro artistas, colecionado ao longo de décadas. O material não estava, no entanto, organizado, e um fato ocorrido no dia 09 de novembro de 2022 foi crucial para o escritor – que brilha também tocando guitarra em vídeos no instagram – arregaçar as mangas e dar mãos à obra.
— No dia em que Gal morreu, fiquei aturdido, como tantas outras pessoas. Passei a acompanhar na mídia as citações a ela como “doce bárbara” e me perguntava: “Será que as pessoas têm essa referência?”. O passo seguinte foi começar a sistematizar o material, mas não havia pretensão de virar um livro. Nas semanas seguintes, com tudo mais organizado, consegui conceber a ideia de escrever a respeito. Um artigo, um ensaio, não exatamente um livro. Por vício do ofício, consultei obras de referência em música popular brasileira, como uma revisão bibliográfica, e notei que havia muitas lacunas na historiografia. De alguma forma, eu conseguia preenchê-las. Aí sim, finalmente, a ideia de que tudo pudesse virar um livro ganhou algum sentido – avalia Abrahão, brindado pelo cineasta Jom Tob Azulay com o texto usado no prefácio da edição.
Mesmo conhecendo bem as fontes da sua pesquisa, o professor foi atentando para detalhes que foram ganhando maior proporção ao longo do processo da escrita. E eles tanto dizem respeito à força das canções como a “patrulha” em torno do quarteto pelos agentes da Lei, como ele conta:
— Surpreendi-me com a quantidade de versões e regravações às quais, ao longo dos anos, o repertório inédito dos Doces Bárbaros foi submetido. Mas não posso deixar de ressaltar minha surpresa ao ver como os autoritários perseguiram o quarteto: eles foram perseguidos, vigiados, censurados de muitas formas, e eu, inicialmente, não sabia disso. Só tomei conhecimento quando consegui acessar documentos e arquivos, alguns classificados como confidenciais, e isso foi fundamental para que eu pensasse nos Doces Bárbaros como um projeto não exclusivamente mercadológico, midiático ou comercial.

O livro não se atém somente à criação do grupo naqueles meados dos anos 1970. Afinal, aquela reunião tinha o propósito de celebrar os 10 anos de carreira daqueles amigos. A narrativa evoca, portanto os primórdios das respectivas trajetórias musicais e fatos ocorridos a posteriori e pregressos ao show como o surgimento da Tropicália e o exílio ao qual Caetano e Gil foram condenados em fins dos anos 1960.
— Não queria um livro que fosse para “iniciados” apenas. Então, desde o início, defini que não entraria em questões políticas, históricas ou sociológicas que julgasse desnecessárias. Mas, com o tempo e com a finalização da escrita, foi ficando claro que as várias camadas da história dos Doces Bárbaros me impeliam a alguns voos mais filosóficos – revela Abrahão, trazendo à conversa um dos papas da filosofia: — Por isso, decidi incluir um pequeno posfácio, no qual me aventuro a fazer uma leitura dos Doces Bárbaros como uma “utopia de liberdade” no contexto da redemocratização do Brasil após anos de Ditadura Militar. Eu recorro a um conceito do Friedrich Nietzsche, “gaia ciência”, para interpretar a experiência de liberdade ansiada pelo grupo em 1976. Isso veio quando o livro estava pronto.
Para o pesquisador, o legado do grupo é perene. E, passadas cinco décadas, a iniciativa precisa servir de norte a um país onde as conquistas relacionadas às liberdades e à própria democracia em si precisam ser respeitadas como direitos pétreos.
— Vejo os Doces Bárbaros como uma lição atemporal para os ciclos de barbárie. Diante de expressões de fascismo, precisamos manter os vínculos, as amizades, os afetos. Eles – e a organização política – são fundamentais para vivermos uma vida em sentido pleno. Cinquenta anos depois, não estamos muito distantes dessa situação, e esta talvez seja a atualidade dos Doces Bárbaros – arremata.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto), divulgação (imagens) e Larissa Simão (foto autor)






