Da mesma forma que o Cinema Novo teve na frase “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” a síntese da sua grandiosidade, a bossa nova teve no banquinho e no violão sua mais perfeita tradução. E foi munido desses dois objetos (OK, o banquinho deu lugar a uma cadeira) que Dori Caymmi faz um apanhado do que há de mais extraordinário do seu já primoroso cancioneiro. E este inventário musical está a olhos vistos – e a ouvidos interessados e atentos – em temporada do artista no Rio de Janeiro.
Dori é, desde o início do mês, a atração do Terças no Ipanema, o bem-sucedido projeto que, com curadoria de Kati Almeida Braga e Flávia Souza Lima, voltou a promover temporadas de shows no hoje rebatizado Teatro Ipanema Rubens Corrêa. E a apresentação da última terça (21) foi merecidamente registrada em vídeo a ser futuramente disponibilizado nas plataformas pela Biscoito Fino.
Legítimo representante de uma geração que, juntamente com Edu Lobo, Chico Buarque e Sidney Miller (1945-1980), fundaria o que conhecemos hoje como MPB, Dori não precisa mais do que um violão para dizer (cantar seria o mais correto) a que veio. Filho de um baluarte da canção, Dorival Caymmi (1914-2008), ele não se intimidou por eventuais comparações e, firme no leme, singrou seu caminho, pautado pelo refinamento.
A plataforma de lançamento do show parte da celebração das mais de cinco décadas da parceria com o poeta e letrista Paulo César Pinheiro, mas Dori dá rasantes por outros terrenos da própria vida, encadeando canções a causos saborosos, muitos deles envolvendo sua família, em especial seus irmãos Nana (1941-2025) e Danilo.
E a memória de Nana, que completaria 85 anos no dia 29 deste mês, foi celebrada logo após Dori abrir os trabalhos com “Voz de mágoa”. A segunda canção da noite foi “Velho piano”, imortalizada pela cantora naquele que certamente pode ser apontado como o mais sublime álbum da sua discografia, “Voz e suor”, gravado juntamente com Cesar Camargo Mariano.
A canção serviu para Dori abrir seu baú de memórias ao comentar sobre seu encontro com um dos mais importantes compositores de trilhas sonoras do cinema mundial: Henri Mancini (1924-1994). Depois de este ouvir “Velho piano”, destinou a Dori a sentença em razão da elaborada harmonia: “I hate you” (Odeio você), lembrou o compositor para deleite dos presentes.
O set-tributo a Nana continuou com “Medo de amar” (Vinicius de Moraes) e com “Se queres saber” (Peter Pan), com o artista incluindo na homenagem sua mãe, a cantora Stella Maris (nome artístico de Adelaide Tostes, 1922-2008), uma vez que aquela canção era do seu repertório – e acabaria gravada pela filha-cantora no LP “Nana”. E o set terminou com aquela que acabou sendo um dos carros-chefes do repertório da irmã, “Resposta ao tempo” (Cristóvão Bastos/ Aldir Blanc), com direito a coro do público.
— Nana reclamaria do fato de vocês pagarem para ouvi-la e quererem cantar com ela, mas, neste aspecto, sou mais democrata-cristão – gracejou, dizendo, mais adiante, que a verborragia da irmã era também uma característica de Tom Jobim (1927-1994): — Eram outros tempos. Não haviam essa patrulha e essa polarização que pautam as discussões hoje.

O afago à memória da mãe, mineira de Pequeri, seguiu com outro petardo: “Desenredo”, raro exemplo no qual Pinheiro escreveu a letra sobre melodia já com o estribilho criado por Dori. E lá foi ele tirar do baú outra lembrança:
— Eu fazia no Bottle’s, no Beco das Garrafas, show com Francis Hime. Ele cantava umas coisas minhas, e eu, outras dele. Uma das canções era “Minha”, parceria do Francis com Ruy Guerra. Minha mãe ficou empolgadíssima e assistiu ao show mais de uma vez. Até que, lá pelas tantas, saiu-se com esta: “Meu filho, por que você não faz canções como o Francis?”.
Acontece que Dori fez canções tão elaboradas quanto a do companheiro de geração. E, da safra recente, mostrou “Canto sedutor” e “À toa”, não à toa, gravadas por outra voz feminina magistral: Mônica Salmaso. E Dona Stella foi chamada novamente à baila com “Rio Amazonas”, que, segundo Dori, era a única da sua lavra que ela gostava.
Ainda na seara familiar, antes de a noite encerrar-se com a plateia cantando em coro “Suíte dos pescadores”, clássico do pai Dorival, Dori fez troça do fato de o público que comumente confundi-lo com o irmão-cantor, Danilo.
— Estava eu no táxi, recém-chegado ao Brasil (Dori viveu por anos em Los Angeles, nos EUA), quando o motorista disse que me conhecia de algum lugar. Danilo chegou ao ponto de, tanto que confundem a gente, criar um heterônimo: Dorilo – arrematou.
Gaiatices à parte, o nome dele é Dorival Tostes Caymmi. Mas você pode chama-lo de Dori. É, sob este nome artístico, que ele criou um cancioneiro dos mais sofisticados da nossa música. E ele estará, na próxima terça (27), em Ipanema, ao alcance das mãos. Dos ouvidos, melhor dizendo.
Crédito: Christovam de Chevalier (texto e imagens)





