Para ele, “a memória é uma ilha de edição”. A frase, um achado poético, é fruto das tiradas – todas muito astuciosas – de Waly Salomão (1943-2003). Seletiva ou minuciosa, a memória precisa ser preservada. E duas cantoras fazem isso com parte significativa do cancioneiro deste poeta e letrista, um dos artífices do Tropicalismo. As cantoras em questão são Jussara Silveira e Sylvia Patrícia.
Amigas de longa data, as duas artistas voltam a unir seus timbres para celebrar parte do legado de Waly. E isso se dá no palco. Elas apresentam o show “Balada de um vagabundo – A música de Waly Salomão, nesta terça (28), dentro do Terças no Ipanema, projeto que, capitaneado por Kati Almeida Braga e Flávia Souza Lima, voltou a promover shows musicais no Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa, na Zona Sul do Rio de Janeiro.
— A poesia de Waly é astuta, vigorosa, tem flecha certeira e nos atinge, mas também tem a delicadeza de uma água brotando, de uma fonte nascendo e desbravando a vida, como em “Olho d’Água”, que canto no show – pontua Jussara, que , nascida na Bahia e tendo crescido em Minas, volta ao teatro onde, em 1990, fez sua primeira apresentação na capital fluminense.
Canção-título do CD lançado por Maria Bethânia em 1992, “Olho d’água” é uma das muitas parcerias do poeta com Caetano Veloso. Da dupla, as cantoras escolheram ainda duas outras gravadas por Bethânia: “A voz de uma pessoa vitoriosa” e “Mel”. O roteiro abre espaço a outros parceiros do letrista como Adriana Calcanhotto (“Motivos reais banais”), João Bosco (“Memória da pele”), Lulu Santos (“assaltaram a gramática”) e, claro, Jards Macalé (“Vapor barato”), ao lado de quem Waly e Gal Costa (1945-2022) mantiveram acesa a chama tropicalista durante o exílio de Caetano e Gilberto Gil.
O show, apresentado pela primeira vez em 2024, marca o reencontro artístico entre as duas amigas, que deram seus primeiros passos na música em fins dos anos 1970 e justamente em Jequié (BA), terra natal do poeta. A apresentação conta, inclusive, com a colaboração de dois familiares do homenageado: seu filho caçula, o também poeta Omar Salomão, e a produtora Claudia Salomão, sobrinha do compositor. Eles respondem pelas projeções com falas e imagens de Waly que estarão entremeadas às canções.
— Waly foi um artista multimídia, totalmente de vanguarda, muito à frente de seu tempo, e um poeta incrível, que está cada dia mais atual – avalia Sylvia destacando ainda: — Agora mesmo estão traduzindo seus poemas para o espanhol e para o inglês, além de produzirem um documentário sobre ele – avalia Sylvia.
Lá vem o poeta, então, com sua coroa de louros. E, como apregoado pelo compositor, “o poeta é a pimenta do planeta”. E o mundo começa a abrir seu paladar à doçura e à ardência de Waly. Pois a força dessa especiaria já é conhecida por Jussara Silveira e por Sylvia Patrícia.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto), divulgação (imagens no alto e das cantoras)





