O tempo de Miá Mello é como aquele imortalizado por Cazuza (1958-1990): não para. E, a partir desta sexta (1º de agosto), ele ficará ainda mais corrido. A atriz viaja o país com o solo “Mãe fora da caixa”, com que lota teatros país afora e, durante a semana, dá expediente no Teatro UOL, em São Paulo, onde divide a cena com Camila Raffanti e Juliana Araripe em “Mulheres em chamas”, que tem tudo para incendiar o país. “Abracei uma profissão que me possibilita trabalhar até os 95 anos”, celebra Miá em entrevista ao NEW MAG e numa alusão à longevidade de uma de nossas maiores atrizes: Fernanda Montenegro. A seguir, a artista defende a importância de atuar em diferentes frentes, numa delas como mãe, ponderando, inclusive, sobre o fato de Nina, sua filha adolescente, querer sair de debaixo das asas maternas. “Ela está no mundo”, reconhece, defendendo retomadas de consciência nos campos da segurança feminina e, claro, no do humor, cujas mudanças são apontadas como o “caminho a ser tomado”.
Ser diversa foi um meio de sobreviver aos altos e baixos da profissão ou uma característica que te acompanha desde sempre?
É uma característica que trago desde a adolescência. Acho que me encaixo bem em muitas coisas. Tanto que me formei em Publicidade e teria feito um caminho bacana nessa profissão. Comecei na comédia e se tivesse ficado só nisso, teria sido feliz, mas fui além. Tinha acabado de sair da Célia Helena (Centro de Artes e Educação, em São Paulo) quando fui levada para o meu primeiro trabalho pelo Paulinho Serra. Se ele tivesse me chamado para dançar balé, teria ido. Era minha primeira oportunidade e sempre tive esse despudor de me jogar nas coisas. Sempre remei contra a maré.
Certos humoristas pautam seus estilos pela ofensa. Preta Gil não foi respeitada quando chorávamos sua partida. Como vê o limiar entre a graça e a agressão?
Sou mulher e, quando nós, humoristas, começamos a reavaliar nossos estilos, isso não foi um drama para mim. Pensei: que bom, é o caminho a ser tomado. Racismo é crime. Pedofilia é crime. O limiar que difere a piada da agressão é o da Lei. Tem quem consuma humor chulo e de gosto duvidoso. Não é o que gosto de fazer. Da mesma forma que não faria piadas que fiz lá atrás.
Quais, por exemplo?
Sabe que meu pai converteu para HD todo o meu material que ele guardava em VHS. Isso me entusiasmou, pois vi a oportunidade de mostrar à minha filha meu trabalho no Deznecessários. Assistindo com ela e com meu marido, vi que algumas piadas não tem mais cabimento nos dias de hoje.
O humor pode ficar datado…
Sim, o humor perece com o tempo e pode também apodrecer.
Fábio Porchat criou um prêmio para o humor. O humor precisa ser mais valorizado?
Precisa. É um gênero que sempre levou muito público aos teatros e às salas de cinema e sempre foi subvalorizado. É um gênero associado à inteligência e que te exige rapidez de raciocínio, jogo de cintura e muito domínio de técnica. Não é fácil ser humorista.
Seu primeiro trabalho no cinema foi ao lado do Porchat. Me conta uma característica dele só sabida pelos amigos
Nunca vi o Fábio reclamar de nada, fosse pelo tempo de espera num set ou pelo excesso de trabalho. Ele é muito profissional. E tem muito apuro. Sabe aquela moto que passa ao longe e que ninguém ouve? Ele escuta e interrompe a gravação por saber que aquilo vai atrapalhar o andamento do trabalho. O olhar dele para o roteiro mostra muito isso também. Aprendi com ele que você só deve acrescentar algo ao roteiro se aquilo favorecer o andamento da narrativa.
Você foi repórter no “The Voice”. O formato dos realities pode ainda nos surpreender ou esgotou-se?
Todo mundo tem interesse em ver pessoas, e é uma fórmula que não tem fim. Os realities são para sempre. Além de sedutores, eles representam um espelhamento do nosso comportamento, para o bem e para o mal. Alguns formatos perdem a graça com o tempo, mas podem ser reformulados. Os realities são para sempre.
Você fez entrevistas no Net Geo. Pensa em retomá-las?
A experiência no “Posso explicar” foi muito bacana. A proposta estava ligada à Educação, mas recebemos nomes como Sabrina Sato, Porchat e a Rita Lobo e adorei fazer.Sou genuinamente interessada pelas pessoas. Adoro ouvir histórias e tenho essa falta de filtro, que me leva a fazer perguntas mais cabeludas de um jeito suave.
Você é mãe de uma adolescente que, imagino, quer ir à balada com as amigas. A que ponto a vulnerabilidade feminina te preocupa?
Sou mulher e preparei a Nina para a vida. Como mãe, tenho receios e preocupações, que são inerentes à vida. E chega uma hora em que a gente tem de entregar ao Universo. Ela tem 16 anos e vive dentro da normalidade: sai, faz uso do transporte público, tem cuidados com celular… Ela está no mundo, e acho que foi bem preparada.
O que achou do vídeo sobre autodefesa gravado pelo Malvino Salvador em solidariedade à mulher agredida num elevador em Natal?
Acho que a questão precisa ser mais discutida pela sociedade como um todo. Essas situações existem, acontecem o tempo todo e não podem chegar à barbárie. Fico até sem palavras…
Grace Gianoukas homenageou Dercy; Beth Goffman, Zezé Barbosa… Que nome feminino gostaria de homenagear?
Admiro atrizes comediantes como a Andrea Beltrão, Débora Bloch e Denise Fraga, mas se fosse para escolher uma, seria a Regina Casé. A Regina tem uma história de vida muito sedutora com muitos pontos interessantes para mostrar.
Em algum momento pensa em pegar mais leve ou mesmo em entrar numa caixa?
Nunca (risos)! Eu to muito orgulhosa do que conquistei. O pique é puxado, e as pessoas me perguntam se não vou ficar cansada. Digo que batalhei por isso. Se não fosse assim, teria parado. Abracei uma profissão que me possibilita trabalhar até os 95 anos…
E Dona Fernanda Montenegro aposentou-se do cinema…
Mas está fazendo teatro e excursionando. Daqui a dez anos a gente volta a conversar (risos).
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Thay Bonin (imagem)





