‘O futuro não me amedronta’

maio 15, 2026

Reginaldo Faria brilha no cinema e avalia sua trajetória, a dedicação à TV, celebra nova parceria com Renata Sorrah e revela conselho dado a Alexandre Nero

Um filme-poema. Uma obra plena de sutilezas e referências a mestres do cinema – de Grande Otelo (1915-1993) a Júlio Bressane, passando pelo Federico Felinni de “La dolce vita” (1960). E estrelada por um ator que, aos 88 anos, não precisa provar nada a mais ninguém. O filme é “Perto do sol é mais claro”, e o astro em questão é Reginaldo Faria. No longa, o artista trabalha enfim com os três filhos. Régis Faria, seu primogênito, assina a direção e divide com o pai a produção executiva. Já Marcelo e o caçula Carlos André contracenam com o patriarca. Reginaldo é Régi, afeito a hábitos analógicos como o de escrever a máquina e efetuar pagamentos com cheques. “Sou parecido com meu personagem”, reconhece o ator, por telefone, ao NEW MAG, na manhã da última quinta-feira (14), quando a produção chegou aos cinemas. E, na conversa, ele fala, a partir de temas do filme, sobre cancelamento e da dialética entre as vidas real e virtual. E faz também um balanço sobre sua relação com o tempo (“Quero existir no agora”) e a contribuição à telinha e à telona. “Gosto da TV tanto quanto do cinema”, pontua. Tal equilíbrio é latente nas mais de seis décadas dedicadas à arte, o que faz de Reginaldo Faria senhor de si e do próprio mister.

O fato de o seu personagem ter hábitos analógicos me lembrou o protagonista de Dias Perfeitos, do Wim Wenders. Precisamos encontrar o equilíbrio entre os mundos analógico e tecnológico?

Não ando por esse caminho. Mantenho-me na vida analógica. Posso dizer que sou um pouco antigo. Então, fujo desse mundo tecnológico na medida em que posso e sou parecido com meu personagem. Sou também apegado à Natureza e, sempre que posso, estou fugindo para Friburgo. Gosto do ar puro e do silêncio. Essa minha relação com a Natureza vem muito do Eric Fromm, um psicanalista (e sociólogo alemão) que foi muito importante e que pregava a importância dos vínculos com a Natureza. Sob este aspecto, ele fez minha cabeça.

No filme, o terapeuta e a Vanessa (Gerbelli) dizem, em momentos distintos, que as vidas real e virtual são hoje uma só. Redes sociais, IA, China criando robôs humanoides… O futuro te amedronta ou fascina?

O futuro não me amedronta e também não me fascina. Pelo que sou e sinto, os avanços da tecnologia não têm a menor importância para mim. Não me cabe fazer aqui uma análise profunda, mas acho que o ser humano está cada vez mais afastado da Natureza. Estamos hoje totalmente dependentes da tecnologia. Ficamos sentados e basta um clique num controle remoto ou no celular para otimizarmos algo. No tempo do rádio, ouvíamos as músicas e os programas e imaginávamos toda uma realidade. Não temos mais isso hoje. Não fantasiamos mais nada. As imagens estão aí, prontas, e nos chegam a todo instante. Acho isso um desastre.

Um dos livros lidos pelo teu personagem é do Bukowski, autor cuja ironia é incompreendida hoje. A cultura do cancelamento é uma nova censura?

Sabe que aquele livro não é meu, mas do Régis. Eu o usei como um objeto de cena e não posso falar dele exatamente porque não o li.

Mas o que acha exatamente da política do cancelamento?

No sentido de apagamento, acho um horror. Acho que estamos sendo levados a não mais pensar ou mesmo elaborar um conceito aprofundado sobre algo. Repare que não procuramos mais ninguém ou nada, mas somos procurados. Tudo está ao alcance das mãos e não nos aprofundamos sobre nada.

Você e Renata Sorrah vão viver um casal na próxima novela das 19h, décadas depois de contracenaram em Transas e Caretas e viverem em Vale tudo personagens que foram casados. O que podemos adiantar sobre esse novo trabalho?

Não posso te responder sobre a trama por não saber ainda o teor da estória, mas, quanto a voltar a trabalhar com a Renata, posso dizer que será um prazer. Ela é uma pessoa maravilhosa, uma colega que une características como companheirismo, empatia e sensibilidade. Ela é aquela atriz que se entrega de fato ao trabalho e nos leva junto com ela. É muito comum vermos que um determinado colega tem admiração ou respeito por você, mas quando há entrosamento, o trabalho é o grande beneficiado. A força de um é também a do outro, e quando essa troca se dá, isso te leva a criar e a crescer.

A cena em que Marco Aurélio dá uma banana para o Brasil foi refeita no remake de Vale Tudo, desta vez com outro desfecho. Qual o conselho dado ao Alexandre Nero quando ele pediu tua bênção para o papel?

Disse que ele é um excelente ator, com um carisma grande, e que deveria construir o personagem de acordo com o que sentisse a respeito dele. Construí o Marco Aurélio de acordo com a minha sensibilidade em relação ao país que tínhamos naquela época, com uma inflação de 40% ao mês. O país não é mais aquele de 40 anos atrás.

Gilberto Braga me disse numa entrevista que, na época de Água Viva, você e Betty Faria pediram para o nome de cada um ser o primeiro na vinheta de abertura da novela. A solução encontrada foi a de os dois nomes entrarem juntos. Você confirma esse relato?

Não foi bem assim… Numa noite, meu nome entrava primeiro e, na noite seguinte, o da Betty, e assim sucessivamente. E por que fiz isso?  Eu tinha, na época, um contrato de protagonista, o que me dava a prerrogativa. A Betty fez pedido semelhante ao Talma (o diretor Roberto Talma, 1949-2015), que me procurou, e disse a ele que tudo bem. Não vou brigar por essas coisas. Um nome é algo que você constrói ao longo da sua trajetória, e ter o devido reconhecimento é um direito. Se você não cuidar disso, quem vai fazer por você? A própria empresa não vê essas coisas, talvez, no caso, o departamento artístico. As atenções vão sempre para quem está brilhando, e você precisa brigar por seus direitos para se manter empregado e ter seu prato no dia a dia.

A vaidade chegou a te tirar do prumo em algum momento?

Isso nunca aconteceu. Sempre tive uma relação cordial com os colegas e com a equipe. Não ligo para essas coisas. Para você ter uma ideia, não sou de ir a festas e fazer lobby. Acho isso muito chato. Prefiro ficar na minha.

Fazer humor como Jacques Leclair em Ti,ti,ti foi uma carta de alforria?

Você pergunta isso exatamente em relação a quê?

Ao fato de você ter podido mostrar outras facetas além das que o público conhecia.

Esse tipo de pensamento nunca me passou pela cabeça. Gosto da TV tanto quanto do cinema. Meu trabalho na TV foi sendo feito de acordo com aquilo que a função me exigia.

Entre Dancin Days, em 1978, e Ti, ti, ti, em 1985, você emendou trabalhos ininterruptos na TV, entre novelas e casos especiais. A dedicação ao veículo atrapalhou algum projeto pessoal?

Não, nunca. Até porque eu estava muito mergulhado naquele universo, e aquela dinâmica estava ligada à maneira que eu tinha para subsistir. Meu caminho na TV nunca interrompeu meus desejos, meus anseios e minhas fantasias pessoais. As ideias nos ocorrem, e eu as anotava, e pude realiza-las dentro do possível.

Sua família consolidou-se no cinema e você viu o surgimento de órgãos como Embrafilme e Ancine. Como vê as relações espúrias entre um banqueiro e um senador a propósito de patrocínio a um filme?

Eles deveriam se inteirar sobre a Lei Rouanet (E Reginaldo não contém a gargalhada). É um acinte pedir esse dinheiro todo. Certas pessoas pensam que podem fazer a sociedade de burra. Esse gesto é de um cinismo escr*t*.

Tua neta diz no filme que teu cabelo tem a “cor de tempo”. Que cor tem o tempo afinal? 

Para mim o tempo é o do presente, do instante em que vivo. Fui, ao longo da vida, muito chicoteado pelo futuro do passado e isso me causou um aprisionamento que foi um entrave à minha estabilidade emocional. Quero existir no agora. Enquanto vivo, mato as coisas do passado e me entrego ao futuro. Que ele venha, então!

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e Régis Faria (imagem)

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