A experiência de assistir a um show fica, nesses tempos de arenas e grandes casas de espetáculos, restrita, muitas vezes, a uma única noite. Nem sempre foi assim. Houve um tempo, no Rio de Janeiro, em que grandes estrelas da MPB apresentavam-se ao longo de meses, às vezes de quarta a domingo – e com lotação esgotada. Era assim em duas casas de saudosas memórias na cidade: o Canecão (que deve voltar à baila) e o Scala. Neste a cantora Simone fez História. Isso, por cumprir a mais longa temporada de um show naquela casa – e uma das mais longas de um artista na cidade. A Cigarra apresentou no Scala II o show “Simone”, posteriormente batizado de “Amor e paixão”, entre julho de 1986 e fevereiro do ano seguinte. Foram, portanto, sete meses na casa inaugurada pelo empresário espanhol Chico Recarey.
Com direção de Flávio Rangel (1934-1988), “Simone” fez sua estreia no dia 15 de julho de 1986. E, nos 40 anos da estreia desta temporada histórica no Rio de Janeiro, NEW MAG conversou com o pianista Cristóvão Bastos, diretor musical do show, e ouviu dois espectadores daquele feito. E que, impactados, acabaram por serem levados às áreas em que brilham hoje. E um deles é a cantora e compositora Zélia Duncan.
A apresentação mesclava temas gravados por Simone no LP “Cristal” (casos de “Você é real’ e “Amor no coração”), lançado um ano antes, a clássicos imortalizados por ela como “O que será?”, de Chico Buarque, e “Sangrando”, de Gonzaguinha (1945-1991). O roteiro abria guarida também a dois temas da cena pop: “Exagerado” e “Olhar 43”, lançados por Cazuza (1958-1990) e pelo grupo RPM naquele ano. Ao longo da temporada, canções foram acrescidas como “Amor explícito”(Nico Rezende, Paulinho Lima e Antonio Cícero), hit do álbum “Amor e paixão”, lançado naquele 1986. Cristóvão lembra que Simone e Flávio chegaram aos ensaios certos do que queriam.

— Simone tem muita certeza do que quer cantar e muito discernimento sobre como quer apresentar as canções e dos arranjos que quer ouvir. Ela é extremamente musical e uma excelente cantora – elogia Bastos destacando que Flávio não entrava na seara dos arranjos: — A atenção dele era mais para o espetáculo e para o roteiro, que ia construindo a partir dos assuntos trazidos pelas canções. Mas ele tinha um conhecimento musical imenso. Uma vez, num intervalo dos ensaios, dedilhei no teclado um tema do Ernesto Nazaré, e ele, na hora, acusou o que eu estava tocando. O Flávio era um craque.
O mesmo pode ser dito dos músicos que integravam a banda, definida por Cristóvão como “uma confraria”. O maestro destaca quatro deles em especial: o baixista Jorjão (“extremamente atento e preciso”), o violonista Natan Marques (“capaz de uma costura musical implacável”), que havia acompanhado Elis Regina (1945-1982), o baterista Picolé (“Muito versátil e com muito suingue”) e o também tecladista Ricardo Leão, com quem Bastos fez uma excelente dobradinha: — Um arranjador e orquestrador extremamente competente. E as músicas que foram entrando ao longo da temporada eram administradas por ele, que definia os timbres com a Simone.
O espetáculo estreou curiosamente numa terça-feira. E a escolha do dia, incomum para a estreia de um show, foi uma deferência da cantora a uma de nossas mais importantes atrizes. Fernanda Montenegro apresentava “Fedra” de quarta a domingo e poderia, portanto, estar na estreia, como de fato ocorreu. A noite foi prestigiada ainda por grandes nomes do teatro como Marília Pêra (1943-2015), Marco Nanini e os diretores Augusto Boal (1931-2009) e Amir Haddad, além de estrelas da TV (Jô Soares, Vera Fischer e Maitê Proença) e da cena musical, como Ney Matogrosso, Sidney Magal e do supracitado Cazuza. O hoje jornalista Leonardo Uliana era ainda garoto e, já fã de Simone, foi à estreia levado pela mãe. Ele conta sobre o impacto provocado nele pela apresentação e pela noite em si.

— A década de 80 foi marcada por uma feliz supervalorização das vozes femininas, e a Simone era quase unanimidade de público e crítica. E, estando no auge de sua potência vocal, ela fazia a plateia delirar em interpretações como “Você é real”, “Sangrando” e “Tinha de ser”. Esta última era um lado B, onde ela bradava a plenos pulmões o refrão, que lhe propiciava tal façanha – recorda-se Leo destacando ainda: — “Tinha de Ser” ela logo deixou de lado, e, com o lançamento do álbum “Amor e Paixão”, incluiu “Amor explícito”, que entrou na trilha sonora da novela “Corpo Santo” (Tv Manchete) e com a qual ela se apresentou infinitas vezes no Globo de Ouro.
O show no Scala foi a segundo em que uma certa cantora, que labutava na noite como Zélia Cristina, viu Simone cantar ao vivo. A primeira vez havia sido quatro anos antes, quando Zélia Duncan, então com 17 anos, viu a Cigarra na casa que, em meados daquela década, tinha com a de Recarey uma rivalidade: o Canecão. E a ida à casa do Leblon foi proporcionada por um amigo em comum, como relembra ZD ao site.

— Naquela época, provoquei um pequeno cataclisma na minha vida e vim cantar no Rio. Um músico sempre aparecia para dar canjas comigo em uma casa noturna. Ficamos amigos. O nome dele é Cristóvão Bastos, um dos maiores pianistas de música brasileira que temos. Ele me disse que estava tocando na banda de Simone e que estavam em cartaz no Scala. Isso, para mim, era bem mais do que ir à lua: era inatingível naquele momento. Mas ele me ofereceu um convite. UM. Dei um jeito, consegui uma folga e fui, sozinha. O show era luxuoso, e ela, bem… Ela era o que é hoje. Claro que o momento era outro, mas a grandeza de Simone nunca a abandona.
Com ingressos esgotando-se mal a bilheteria abria (não havia ainda internet), a temporada foi sendo prorrogada. A casa estava sempre lotada e, eventualmente, cadeiras extras tinham de ser providenciadas para convidados de última hora. Recarey via tudo com um sorriso de uma orelha a outra. A alegria reinava também nos bastidores como conta Cristóvão Bastos:
— O clima no camarim era o melhor possível e sempre festivo. Os músicos eram, na sua maioria, criançonas, daquelas que contam uma piada já conhecida e riem como se a ouvissem pela primeira vez.

Um show é um organismo pulsante. Ele acontece ali, ao vivo e in loco. Quem viu, viu. E pode calhar de ele continuar vivo na memória daqueles que o assistiram. De gente que, brilhando nos bailes da vida, mantém aquela experiência indelével, como é o caso de Zélia Duncan.
— Quando a vida deu outro salto, e viramos amigas e parceiras de palco, por vezes, no meio de uma música, eu ainda a olhava, meio hipnotizada. Sempre serei perto dela aquela aspirante a cantora de 17 anos, olhando para um horizonte chamado Simone – arremata a artista.
Um horizonte que está ali, há décadas, diante dos nossos olhos e que continua a fascinar.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Cristina Granato (imagens)






