‘É um processo que tira teu couro’

julho 12, 2026

A atriz Júlia Setúbal, de tradicional família ligada ao mercado financeiro, vai brilhar em festival na França

Ela nasceu em berço de ouro. Estudou em colégios tradicionais e convive, desde pequena, com o que há de melhor em segmentos que vão da moda à gastronomia. Júlia Setúbal poderia ter cursado Economia ou Administração para seguir a cantilena da família, ligada a uma das mais importantes instituições financeiras do país. Discreta e aguerrida, deixou a paixão pela psicologia calar mais fundo. E ela dá agora voz a outra faceta: a de atriz.

Júlia está a mil nos preparativos de “Nunca se tem tanta força como quando não se tem força nenhuma”. O solo, escrito e dirigido por João Paulo Lorenzon, será apresentado em um dos mais respeitados festivais de teatro da Europa. Sim, Júlia sobe ao palco do Festival de Avignon, no Sul da França, no próximo domingo (19).

Abrir mais uma frente de trabalho é natural para a artista. E a experiência adquirida como psicóloga ajudou a pavimentar o caminho trilhado agora. Os exercícios da escuta e da observação, cruciais na relação com os pacientes, são também pré-requisitos para o ator.

— O fato de eu ser psicóloga faz parte da minha história. É algo que compõe quem eu sou e reflete a minha curiosidade intrínseca sobre o mundo, sobre as pessoas e sobre o ser humano – explica Júlia, que destaca outra bagagem importante adquirida na experiência: — A psicologia me faz olhar para o outro, ter uma curiosidade, estar disposta a ouvir e a me abrir para as pessoas.

A mudança de profissão não veio de nenhum rompante, pelo contrário. Ela aconteceu de forma gradual e envolveu todo um trabalho de escuta interna. E Júlia  foi, aos poucos, tomando coragem, sentimento que esta mãe solo conhece bem, como ela conta:

— Sou uma mãe sozinha, com filhos que moram comigo, e estou me realizando como atriz. São todas elas coisas da minha história que me trouxeram exatamente até onde estou hoje.

A atriz foi sendo forjada ao longo do aprendizado em cursos livres ou específicos, alguns deles no exterior. No Susan Batson Studio, em Nova York, Estados Unidos, encontrou o processo com que mais se identificou: uma técnica na qual o conflito interno é peça-chave para o ator não acomodar-se no que foi construído, tanto do ponto de vista físico quanto do psicológico.

—É um processo visceral, que tira o teu couro. Você passa 12 horas por dia, durante quatro dias, lidando com os seus limites. Todo mundo sai perturbado, mas foi o lugar onde eu mais aprendi até hoje. É muito mais sobre você descobrir as suas ferramentas e entender como você expõe isso ao mundo – pontua.

O friozinho na barriga uma semana antes da apresentação na França é normal. Mas Júlia garante que não mudará nada no ritual que segue antes de entrar no palco, como ela explica a seguir:

— Faço um aquecimento corporal e físico muito específico, sozinha, com música e com cores. E, antes de qualquer ensaio ou apresentação, passo todo o texto na cabeça e no mínimo uma vez, além do aquecimento vocal, é claro.

E, assim, aquecida e plena, Júlia tem tudo para arrebatar aqueles que a verão brilhar em Avignon. Voa, menina!

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Maurizio Mancioli (imagens)

Julia e João Paulo Lorenzon, autor e diretor do solo que eles levam a Avignon

 

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