‘Considero-me um valente’

agosto 23, 2026

Conheça o ator que divide com José Loreto protagonismo de musical e cujo nome é aclamado no exterior

Tiago Barbosa estava no evento de renomada marca de moda italiana na Espanha, onde vive, quando recebeu um convite tentador – e irrecusável para um ator de musicais como ele. A convocação era para a nova montagem de “Ópera do Malandro”, clássico de Chico Buarque relido agora pelo diretor Jorge Farjalla. Na montagem, Barbosa reveza-se no papel de Max Overseas com José Loreto, que concilia o expediente teatral com as gravações de “Quem ama cuida”, novela da TV Globo.

No momento do convite, Tiago usava um terno branco com uma flor vermelha na lapela e credita que o figurino deve ter ajudado. O fato é que o ator faz História como o primeiro negro a viver o personagem que, no teatro, foi interpretado por nomes como Otávio Augusto, em 1978, e, no cinema, por Edson Celulari. O feito é celebrado por Tiago, claro:

— Sou o primeiro ator negro a fazer esse papel e isso tem um gosto diferente para mim. Me sinto orgulhoso de ocupar esse espaço! Me sinto feliz por ter um diretor que acredita e aposta no meu trabalho. Max é Brasil!

A convivência com Loreto é tranquila, assegura. O Iuri de “Quem ama cuida” entrou no processo antes e teve, por isso, tempo hábil para construir seu personagem, enquanto que Barbosa entrou em campo com o jogo já começado (“Cheguei ao Brasil às 11h e, às 15h30, estava na sala de ensaio”). E o ator encontrou no colega não um rival, mas um aliado.

—  Loreto é muito generoso. Trocamos muitas ideias, e ele sempre tem um bom conselho, uma boa risada e uma boa resenha. Não participei do processo de criação que ele teve, não tive o tempo que ele teve de construção, mas ele tem sido uma peça-chave para a construção do meu Max – elogia, destacando que as linhas de interpretação são diferentes: — Somos dois Max muito diferentes, e isso também faz parte da proposta do nosso diretor, que tem me dado toda a tranquilidade, apoio e direção para o meu processo.

Mesmo sendo brasileiro, Tiago precisou correr contra o tempo e cortar um dobrado para alcançar a prosódia tipicamente carioca do personagem. Sua base é em Madri, Espanha, mas o ator pode-se considerar um cidadão do mundo em razão das diferentes produções que estrela. E, no dia a dia, o português não é sua linguagem corrente, como ele explica:

— Estou já há uma década morando fora e, lá, não falo português. Poucas vezes falo com a família e, neste momento, não tenho amigos brasileiros por perto. Então, trazer esse carioca para a minha embocadura, deu um pouco de trabalho, já que a musculatura da fonação estava adaptada para outro idioma.

Ele correu contra o tempo, e o esforço valeu a pena. E a receptividade do público brasileiro compensa toda a investida.

— Trabalhar no meu país é rever minhas origens. Não existe nada mais bonito do que o público brasileiro, a receptividade, os aplausos e o impacto social na representatividade desse corpo negro ocupando esse espaço – pontua o artista, que realiza um desejo com a oportunidade: — Faz tempo que eu tinha o desejo de realizar um trabalho nacional, ainda mais com esse peso e selo do Chico Buarque.

A relação com o Brasil é, na verdade, cheia de idas e vindas. Ele atuou, por exemplo, nas versões brasileiras de musicais como “O Rei Leão”, “Mudança de hábito” e, mais recentemente, “Wicked”. O fato de estar há tanto tempo labutando no ofício no qual sempre acreditou tem a ver com uma característica que nós, brasileiros, conhecemos bem: a resiliência.

— Só nós sabemos o que é ser artista neste país. Tem que ter muita resiliência, vontade e disposição para aguentar o rojão! Tive o privilégio de protagonizar grandes espetáculos no Brasil e lá fora, mas manter-se constante num mercado excludente e elitista é complicado. Considero-me um valente – arremata.

E, como tal, Tiago Barbosa brilha. O palco é, definitivamente, seu lugar: de fala e na vida.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Priscila Prade (foto alto)

Tiago Barbosa como Max de “Ópera do Malandro”: “Trabalhar no meu país é rever minhas origens”

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