
No palco, Valéria Barcellos canta “Geni e o zepelim”. Ao fundo, tremula uma imensa bandeira referente à população trans com suas cores manchadas de sangue. Ao fim do número, o público levanta-se para aplaudir a artista. Aplaudir não: ovacionar. Assim foi na noite do último domingo (16) e tem sido assim desde que “Ópera do Malandro” aportou no Teatro Multiplan, no Rio de Janeiro, após bem-sucedida temporada em São Paulo.
O número é um dos muitos pontos altos desta releitura que o diretor Jorge Farjalla faz do musical, cujas canções – hoje todas clássicas – foram elaboradas por Chico Buarque, autor também do texto que, inspirado na “Ópera dos Três Vinténs”, de Bertold Brecht (1898-1956) e Kurt Weill (1900-1950), contou com colaborações de nomes como Luis Antônio Martinez Corrêa (1950-1987), diretor da montagem original, de 1978, e de Marieta Severo, a Teresinha da referida encenação.

Brecht revolucionou o teatro ao romper com o estilo de interpretação realista levando às suas encenações uma proposta que ficaria conhecida por provocar distanciamento. Esse distanciamento aproxima na verdade o espectador ao estabelecer elos entre o que é narrado no palco e o momento atual do mundo. E Farjalla apropria-se deste recurso. A começar pelo prólogo do musical. O tema “O malandro” tem só um trecho cantado na abertura, que traz um pot-pourri de temas que incluem “A volta do malandro” (criado por Chico para o filme de 1986), pontos que evocam Exu (como “O sino da igrejinha”) e um trecho de “Vai , malandra”, funk lançado por Anitta (sim, Anitta!) em 2017.
Os fãs mais puristas da obra de Chico podem estranhar tamanha ousadia, mas o resultado funciona – e bem. O ‘susto” dissipa-se à medida em que o espetáculo avança e ouvimos temas como “Hino de Duran”, bem defendida por Edgar Bustamante (Fernandes de Duran), e “Viver de amor”, magistralmente cantada por Totia Meirelles (que traz na sua interpretação eflúvios do canto de Marlene, intérprete do tema no LP de 1979). Cantriz que já demonstrara seu poder de fogo em montagens como as de “Pippin” e a de “Herivelto como o conheci”, Totia usa de sua Vitória Régia para corroborar suas força e grandeza cênicas.
O texto e as canções de Chico estão lá, mas a peça avança com Farjalla provocando outros “distanciamentos” ao estabelecer elos entre diferentes Brasis (a introdução de “O meu sangue ferve por você” ecoa num dado momento). O “Tango do Covil” é cantado e dançado com direito a intervenções do Voguing, estilo de dança surgido na periferia de Nova York e que Madonna (sim, Madonna!) acabaria por popularizar.

Esta ópera é plena de travessuras que, como naquela celebração, funcionam como gostosuras. Os temas criados originalmente por Chico estão quase todos lá. Já que “Se eu fosse o seu patrão” foi suprimida, o diretor se valeu de outros temas do autor. Do filme estão “Las muchachas de Copacabana”, cantada juntamente com “Folhetim”, e “Palavra de mulher”, magistralmente interpretada por Marya Bravo (Lúcia), cantriz que, a exemplo de Totia, tem uma longa folha de excelentes serviços prestados aos musicais.
De “Calabar – O elogio à traição” (1973), censurado musical de Chico e Ruy Guerra, Farjalla pescou “Tatuagem” que, acrescida de “Atrás da porta” (1972), resulta num medley muito bem cantado por Carol Costa (Teresinha) em duo com a supracitada Bravo. Costa é, aliás, outro trunfo da montagem. A cantriz dá na medida exata à Teresinha a carpintaria pedida pela personagem, construída e defendida com segurança.
O elenco principal está todo muito bem. Se Amaury Lorenzo pinta com tintas clownescas seu delegado Tigrão (chamado por Max de Tigresa), José Loreto brinda o público com um Max Overseas pleno de carisma e savoir vivre sem descuidar da virilidade do malandro da Lapa numa construção que resulta no macho desconstruído dos tempos de hoje.

Tempos que estão presentes em muitas cenas do espetáculo. Num acerto de contas entre Barrabás e Max, este usa a expressão “farmar aura”, que ganhou a linguagem corrente ao sair do vocabulário dos gamers. E já que falamos de Anitta, esta “Ópera do Malandro” tem muito de “Equilibrium”, álbum em dois volumes lançado este ano pela artista.
Jorge Farjalla acerta ao (re)colocar o malando na praça outra vez. E numa montagem que estabelece fortes laços entre tão diferentes e semelhantes Brasis, seja o da Era Vargas (no qual a montagem é ambientada), o de 1978 e o de hoje, mais tecnológico do que analógico. Mas povoado ainda por contraventores, empresários com negócios espúrios e com “aquela tal malandragem” difusa agora em diferentes esferas do Poder.
Sim, eu fui à Lapa, ops!, à Barra e não perdi a viagem. Tomara que o Chico, sempre discreto e reservado, vá também.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Adriano Doria (imagens)





