‘Vi cenas a partir de músicas da Bethânia’

agosto 16, 2026

Izabella Bicalho fala sobre solo musical inspirado em histórias de violência doméstica e relembra os tempos de Narizinho no "Sítio do Picapau Amarelo"

Foi entre músicas de Maria Bethânia, experiências pessoais e histórias de outras mulheres que Izabella Bicalho encontrou o caminho para “A dona dos raios e do vento”. No solo musical, a atriz transforma vivências em uma história que mistura humor, emoção e ancestralidade para falar sobre uma mulher em busca da própria liberdade.

— É tão bom voltar, reestrear, sentir de novo o calor do público. Faço esse trabalho com muito apreço e amor, porque é um texto que escrevi a partir das minhas experiências, misturadas às experiências de outras pessoas — afirma Izabella em entrevista exclusiva ao NEW MAG.

O espetáculo está em cartaz no Teatro Fashion Mall, em São Conrado, Zona Sul do Rio de Janeiro, e segue com sessões nas duas próximas sextas-feiras, 21 e 28. A montagem acompanha Helena, uma mulher que vive um relacionamento abusivo e começa a encontrar forças para mudar a própria história a partir da relação com outras mulheres e do contato com a própria ancestralidade.

A ideia começou a ganhar forma quando Izabella preparava um show em homenagem a Bethânia. Durante os ensaios, algumas músicas da cantora despertaram imagens que, mais tarde, dariam origem ao espetáculo.

— Quando surgiu essa história, estava fazendo um show que era um tributo à Bethânia. Estava cantando e pensando: “Nossa, eu acho que podia fazer uma cena assim, cantando essa música, que ia ficar muito bom”. Foi assim que surgiu o espetáculo. Vi cenas a partir de músicas da Bethânia — declara a atriz, que conta com a parceria de Sueli Guerra na direção da montagem e Wladimir Pinheiro na direção musical.

A pandemia levou a atriz a aprofundar-se em questões pessoais e, consequentemente, no tema da violência dentro das relações. O que começou a partir de uma experiência própria ganhou novas camadas com a pesquisa sobre histórias de outras mulheres:

— Com a pandemia e todo aquele tempo em casa, falar de histórias sobre si acabou gritando muito. Ficamos olhando para isso, muito fechados também. Fiz esse mergulho em mim mesma e uma catarse sobre esse momento de violência na relação. Pensei que não era suficiente ter só uma referência que fosse a minha. Comecei a ler trabalhos de faculdade, pesquisas, histórias de pessoas que viveram violência doméstica em vários graus, em várias situações.

Canções como “Fera ferida”, “Reconvexo”, “Carcará”, “Grito de alerta” e “Explode coração”, eternizadas na voz de Bethânia, conduzem diferentes momentos da trajetória de Helena, enquanto a obra da cantora também se tornou objeto de uma pesquisa mais profunda para Izabella.

— Agora estou explorando mais o repertório dela, parei para pesquisar profundamente. Como intérprete e artista que tem uma seleção de músicas primorosa. Ela canta clássicos belíssimos, descobre novos talentos sensacionais. É uma coisa linda. Canto “Quem me leva os meus fantasmas”. Nossa, essa música é um primor. Cai como uma luva na minha história.

A temporada também acontece durante o Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher. Para Izabella, colocar o assunto em cena é uma oportunidade de ampliar uma conversa que atravessa gerações.

— Casou bem com o mês da conscientização contra a violência doméstica, contra a mulher. É um problema que atravessa a sociedade há séculos. Que bom que agora estamos falando e debatendo sobre o assunto.

A relação da atriz com trabalhos que misturam experiências pessoais e criação artística não começou agora. Entre os projetos que considera mais importantes em sua trajetória está uma montagem de “Gota d’água”, de Chico Buarque, realizada em 2009. O espetáculo deu origem ao “Gota d’água – In concert”, outro projeto de sucesso da artista que voltará em breve em cartaz.

— Foi um trabalho que marcou muito aquela época. Fiz uma turnê em Portugal. Gosto muito de falar dele porque foi o primeiro projeto que criei para mim mesma. E isso é uma das coisas mais importantes no meu trabalho: as coisas que crio para mim. Elas falam muito sobre mim, sobre as experiências que tive — diz Izabella.

A atriz também começou cedo a construir essa relação com a cena. Ainda criança, interpretou Narizinho no “Sítio do Picapau Amarelo”, durante a década de 1980, experiência que considera fundamental para sua formação artística e pessoal.

— Era um trabalho que me ensinou muito a ter disciplina, a descobrir e a expandir a minha criatividade, à medida que era uma criança e tinha espaço de interpretar, de ensinar histórias e situações absolutamente de fantasia. Lembro que a primeira história que fiz foi “Viagem ao céu”, em que eles iam para o espaço. Foi um lugar em que tive um grande aprendizado. Como atriz mirim, era uma criança, mas foi muito grande ali — completa.

Créditos: Bruno Nunes (texto) e reprodução / Internet (imagem)

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