‘Sofri preconceitos, mas o trabalho se impõe’

novembro 6, 2026

Laila Garin brilha como Édith Piaf no teatro e fala sobre viver a cantora francesa, comenta os preconceitos enfrentados na carreira, exalta a força feminina e a busca por liberdade e autonomia

Com uma presença cênica magnética e uma extensão vocal ímpar, Laila Garin construiu uma das trajetórias mais respeitadas do teatro musical e do audiovisual brasileiro. Filha de pai francês e mãe baiana, a atriz traz na bagagem a intensidade do Nordeste e uma profunda ligação com a cultura europeia — uma combinação de origens e vivências que deságua em interpretações viscerais, como a inesquecível Elis Regina (1945-1982) em “Elis, A Musical”, marco que transformou sua carreira e abriu as portas para papéis marcantes na televisão e no streaming. Agora, Laila realiza um sonho de infância ao mergulhar na alma de outro ícone global: Édith Piaf (1915-1963). Distanciando-se do melodrama que costuma cercar a biografia da lendária cantora francesa, o musical “Piaf – Eu não me arrependo”, em cartaz no Rio de Janeiro no Teatro Riachuelo, aposta em uma narrativa contemporânea, em que Piaf surge como a heroína da própria história — uma mulher à frente de seu tempo, livre em seus amores e dotada de um humor e de uma alegria de viver. Nesta entrevista para o NEW MAG, Laila reflete sobre o processo de construção desse espetáculo que tem emocionado o público e discute as barreiras do patriarcado. Com a franqueza e a elegância que lhe são próprias, a atriz fala ainda sobre a busca constante por autonomia, o orgulho de suas raízes e a importância de usar a arte como ferramenta de presença, liberdade e desconstrução de padrões. E ela afirma: “ainda estou aguardando minha protagonista no audiovisual”.

Édith Piaf teve uma trajetória marcada por dores, perdas, amores intensos e recomeços. Como foi o processo de construção dessa personagem e de mergulho em uma história tão visceral, sendo você ainda filha de francês?

Li algumas biografias sobre a vida dela, assisti a muitos vídeos e entrevistas disponíveis na internet, além de ouvir suas músicas. Eu já escutava Piaf na infância por conta do meu pai. Sempre fui tocada pela voz e pela dramaticidade dela e sempre tive o sonho de interpretá-la. Normalmente, quando se fala da trajetória de Piaf, destacam-se as dores e os sofrimentos. Mas esta montagem parte de um texto original, criado especialmente para o espetáculo, com um olhar contemporâneo. Não damos ênfase ao sofrimento dela, porque o que mais impressiona é justamente sua capacidade de se regenerar, seu senso de humor e sua enorme alegria de viver. Ela é a heroína da nossa história. E o que queremos ver na saga de um herói é alguém lutando para sobreviver, lutando para ser feliz, e não alguém com pena de si mesmo. Piaf passou por momentos muito difíceis. Sua vida foi realmente marcada por tragédias, doenças e acidentes. Mas o que impressiona é que ela sempre mantinha um sorriso, um senso de humor e uma vontade de cantar. Continuava cantando, mesmo desobedecendo às ordens médicas. Meu principal trabalho foi encontrar essa força e essa alegria de viver. 

Piaf viveu em uma época em que as mulheres enfrentavam muitas barreiras para conquistar autonomia, especialmente no meio artístico. O que a história dela ainda tem a nos ensinar sobre liberdade, independência e força feminina?

Ela foi uma mulher muito à frente do seu tempo, porque não fez o que se esperava de uma mulher, algo que ainda existe atualmente. Espera-se que a mulher fique confinada ao ambiente doméstico, seja mãe e dedicada à família. Piaf, não. Casou-se bem depois, porque quis, e também se separou. Teve todos os amantes e amores que quis. Ela também era compositora, algo que, infelizmente, ainda é raro de se ver. Compunha as próprias músicas e gerenciava sua carreira da maneira que queria. Tudo era pensado. Ela escrevia as músicas, escolhia o repertório de outros autores e decidia quais seriam os passos estratégicos da carreira. Também desenhou a carreira de outros artistas e cantores, como Yves Montand e Charles Aznavour. Era uma mulher que pensava e tinha autonomia. Apesar de ter sido ajudada por homens ao longo de sua trajetória, principalmente no início da carreira, ela foi, sim, uma mulher à frente do seu tempo. Vendo a emoção do público e como as pessoas têm se envolvido, percebemos que temos um teatro cheio, um enorme sucesso de crítica e pessoas muito emocionadas. Isso mostra como, mesmo sendo uma mulher de outra nacionalidade, essa história toca os brasileiros, porque trata de questões universais, como amor, carreira, trabalho e superação. Ela é uma mulher que abriu portas e um exemplo da força feminina. Por isso, quisemos fazer um texto original, escrito com o olhar contemporâneo de hoje, no qual ela é a narradora da própria história. Ela é a dona da própria narrativa.

Você também deu vida a Elis Regina em “Elis, A Musical”, espetáculo que teve grande reconhecimento. O que esse trabalho representou para você?

Foi um marco na minha carreira. Foi o espetáculo que me tornou mais conhecida nacionalmente, no qual recebi muitos prêmios e passei a ser mais conhecida pelo público. Isso significou entrar no audiovisual, fazer mais novelas e ter mais autonomia para desenvolver meus projetos. Foi um trabalho que realmente mudou a minha vida.

Em “3%”, você interpretou a comandante Marcela, em uma série de ficção científica que abordava autoritarismo, desigualdade e militarização. Hoje, diante do avanço da extrema-direita no mundo, você enxerga paralelos entre a distopia da série e a realidade que estamos vivendo?

Com certeza. Eu estava até revendo a série e assisti a uma cena que fiz com Ney Matogrosso, na última temporada de “3%”, e percebi justamente essas semelhanças. Primeiro, a série fala de uma desigualdade social que ainda existe no Brasil. Apesar de termos provas e evidências de que a fome diminuiu e de existirem algumas políticas públicas que ajudam a reduzir essa desigualdade, ela ainda é muito grande. Principalmente quando comparamos com outros países, aqui vemos a desigualdade muito de perto, o luxo ao lado da pobreza, às vezes no mesmo espaço. A série também tem relação com a extrema-direita brasileira, porque, no Maralto, os ricos eram os donos do poder, praticamente uma única família, os Álvares. Acho a série excelente porque, por meio da ficção científica, conseguimos conversar com o público por meio de metáforas. O público recebe aquilo de uma maneira mais genuína e fica mais aberto a entender o que estamos dizendo, sem o preconceito de achar que estamos defendendo um partido ou outro. A série fala de humanidade, de divisão das riquezas e dos recursos e da preservação da natureza. É uma produção muito exemplar para falar sobre questões básicas de empatia e solidariedade. 

Você já sentiu que ser baiana e nordestina trouxe desafios ou preconceitos na sua trajetória artística?

Essa questão já mudou bastante, mas ainda existe. O Brasil sempre se voltou para esse modelo do Sudeste, como se fosse o centro do país. Acho que o olhar sobre o Nordeste está mudando. Eu não tenho um fenótipo tipicamente nordestino, então nunca fiquei presa àqueles estereótipos de personagens que existiam antigamente, em que o nordestino só aparecia para falar de miséria e seca. Hoje a força do Nordeste já está chegando. Existe uma parte do Brasil que se nega a enxergar, mas outra já vê de uma maneira diferente. Sofri preconceitos, mas acredito que o trabalho da gente se impõe. Felizmente, não foram situações muito graves que me impedissem de trabalhar em alguns lugares, mas ainda estou aguardando minha protagonista no audiovisual.

Você costuma preservar bastante sua intimidade. Em um mundo em que parece existir uma obrigação de compartilhar tudo, como é para você manter sua vida pessoal longe dos holofotes?

Não há muito interesse nisso, felizmente. Tenho um trabalho muito interessante, então existe muita coisa para falar em cena. O que tenho de melhor, coloco no palco ou em um set de filmagem. Fora da vida profissional, sou uma pessoa normal; não há nada de extraordinário ou interessante. Também não tenho tempo para ficar compartilhando minha vida. Trabalho muito.

Você já falou sobre liberdade para amar e sobre se permitir viver novas experiências sem se prender às convenções sociais. Como foi esse processo de se redescobrir e entender que nunca é tarde para mudar os rumos da própria vida?

Esse é um processo mesmo. Venho de uma família bastante irreverente, fora dos modelos convencionais. Mas vivemos em uma sociedade majoritariamente orientada por valores católicos, na qual existem a culpa, o patriarcado e a branquitude. Somos todos parte de uma sociedade racista, classista e cheia de culpa. Isso independe até do nosso núcleo familiar. Essas questões estão dentro de nós, em maior ou menor grau. Se desvencilhar disso é muito difícil. Talvez nem seja possível conseguir se desvencilhar completamente em uma vida, porque são opressões invisíveis que sentimos. Para a mulher, é ainda mais difícil. Para alguns gêneros, raças e classes, é muito pior. Mas vamos tentando. Essa é a minha busca constante: alcançar uma liberdade maior e entender o que pertence ao social e o que é meu. Com a idade, isso vai melhorando. No início, eu nem sabia que tinha essas amarras, não percebia o quanto estava presa a elas. Quando me casei, casei para namorar, porque meu marido era estrangeiro. Mas, quando percebi, estava envolvida nas convenções do casamento. Precisamos estar sempre presentes e atentos, não no sentido negativo, mas verdadeiramente vivos. É preciso estar presente para não ficar repetindo padrões. Como artista, acho que isso é mais fácil para mim. A arte tem esse poder, essa função de abrir sempre o nosso olhar para a vida.

Créditos: Bruno Nunes (texto e entrevista) e Antropofagia (imagem)

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