‘Uma lição atemporal à barbárie’

junho 24, 2026

Grupo formado por Bethânia, Caetano, Gal e Gil em 1976 tem sua história narrada em livro para celebrar os 50 anos do projeto

No dia 24 de junho de 1976, quatro importantes talentos da música brasileira estreavam um show juntos. Os planos eram muito bons e, entre eles, estava o de reavivar o espírito despretensioso que marcou, 12 anos antes, na Bahia, o início das carreiras daqueles amigos. Eles eram Maria Bethânia, Gal Costa (1945-2022), Caetano Veloso e Gilberto Gil, artistas que, àquela altura, não precisavam mais se colocar à prova de quaisquer julgamentos artísticos. Juntos eles formaram Os Doces Bárbaros, grupo musical cujo encontro motivou um LP duplo ao vivo, documentário dirigido por Jom Tob Azulay e que, 18 anos depois, a partir da escolha do quarteto para enredo da Mangueira,  renderia reencontros no palco e mais um registro audiovisual.

Partiu de Bethânia a ideia da reunião. Ela não imaginava que Caetano, a quem expôs a intenção, tinha ideia semelhante. As canções para o projeto foram compostas no início de 1976 e estavam finalizadas em duas semanas. Os primeiros ensaios, inicialmente só com o quarteto, aconteciam ora na casa de Bethânia, ora na de Caetano. A banda só entrou no circuito em maio daquele ano. Essas são algumas das curiosidades garimpadas pelo pesquisador Luiz Abrahão em “Mistério sempre há de pintar por aí – Uma História dos Doces Bárbaros” (Garota FM Books), livro-reportagem que celebra os 50 anos do conjunto e cuja pré-venda começa nesta quarta (24), dia em que a turnê estreou.

— O impulso mais primitivo para a criação dos Doces Bárbaros foi essa vontade de reviver momentos de leveza, de frescor, que os quatro haviam experimentado em Salvador, no início de suas carreiras. Então, tem o episódio de Bethânia fazer o poema “Pássaro Proibido” e pedir a Caetano para o musicar. Nesse momento, ela externalizou o desejo de reunião, sem saber que ele também alimentava essa vontade. Só então, Gil e Gal foram consultados, e aceitaram imediatamente – explica o autor, corroborando ainda: — Demorou um bom tempo para eles se encontrarem: tanto pelos compromissos já acertados quanto pelo fato de que precisavam se ambientar com a ideia. No verão da Bahia, Gil e Caetano começaram a compor canções. Em seguida, começaram ensaios só os quatro. A banda só chegou quando os arranjos vocais estavam praticamente estruturados.

Após a estreia no Anhembi, São Paulo, a celebração foi na casa de Rita Lee (1947-2023). A artista estreitara laços com Caetano, Gil e com Gal na época em que, em fins dos anos 1960, revolucionaram a música brasileira com a Tropicália. Rita era também homenageada no show, com a música “Quando”, solo de Gil cuja autoria traz a participação de… Gal Costa, como comenta Abrahão:

— Interessante que essa letra tem a parceria de Gal, Gil e Caetano. Foi Gal quem ajudou os compositores a resolver um detalhe poético-melódico e, por isso, ganhou a parceria.

Outro dado trazido pelo pesquisador diz respeito à internação de Gil e do baterista Chiquinho Azevedo em razão do episódio referente à prisão dos dois, em julho daquele ano, por porte de maconha. Gil e Chiquinho foram proibidos de participar do ensaio geral para a estreia carioca do show. A medida acabaria por prejudicar a apresentação, mas não afetou em nada o sucesso da temporada, como pontua o pesquisador:

— Na clínica psiquiátrica, Gil e Chiquinho faziam jam sessions, mas isso não substituía tocar com todos os músicos. Por isso, quem viu a reestreia relatou certos desencontros pontuais que a crítica fez questão de ressaltar. Com o tempo, tudo se ajeitou. O que mais chama a atenção é que, daquele momento em diante, os Doces Bárbaros viraram um fenômeno cultural: o Canecão ficava lotado, e apurei que os baianos chegaram a bater o recorde de público da casa, destronando Roberto Carlos.

Gil, Gal, Caetano e Bethânia em 1976

Escrever sobre o grupo era uma espécie de predestinação. Doutor em Filosofia pela UFMG, o professor universitário tinha já um rico acervo jornalístico sobre os quatro artistas, colecionado ao longo de décadas. O material não estava, no entanto, organizado, e um fato ocorrido no dia 09 de novembro de 2022 foi crucial para o escritor – que brilha também tocando guitarra em vídeos no instagram – arregaçar as mangas e dar mãos à obra.

— No dia em que Gal morreu, fiquei aturdido, como tantas outras pessoas. Passei a acompanhar na mídia as citações a ela como “doce bárbara” e me perguntava: “Será que as pessoas têm essa referência?”. O passo seguinte foi começar a sistematizar o material, mas não havia pretensão de virar um livro. Nas semanas seguintes, com tudo mais organizado, consegui conceber a ideia de escrever a respeito. Um artigo, um ensaio, não exatamente um livro. Por vício do ofício, consultei obras de referência em música popular brasileira, como uma revisão bibliográfica, e notei que havia muitas lacunas na historiografia. De alguma forma, eu conseguia preenchê-las. Aí sim, finalmente, a ideia de que tudo pudesse virar um livro ganhou algum sentido – avalia Abrahão, brindado pelo cineasta Jom Tob Azulay com o texto usado no prefácio da edição.

Mesmo conhecendo bem as fontes da sua pesquisa, o professor foi atentando para detalhes que foram ganhando maior proporção ao longo do processo da escrita. E eles tanto dizem respeito à força das canções como a “patrulha” em torno do quarteto pelos agentes da Lei, como ele conta:

— Surpreendi-me com a quantidade de versões e regravações às quais, ao longo dos anos, o repertório inédito dos Doces Bárbaros foi submetido. Mas não posso deixar de ressaltar minha surpresa ao ver como os autoritários perseguiram o quarteto: eles foram perseguidos, vigiados, censurados de muitas formas, e eu, inicialmente, não sabia disso. Só tomei conhecimento quando consegui acessar documentos e arquivos, alguns classificados como confidenciais, e isso foi fundamental para que eu pensasse nos Doces Bárbaros como um projeto não exclusivamente mercadológico, midiático ou comercial.

A capa da obra é inspirada no cenário criado por Flávio Império para o show

O livro não se atém somente à criação do grupo naqueles meados dos anos 1970. Afinal, aquela reunião tinha o propósito de celebrar os 10 anos de carreira daqueles  amigos. A narrativa evoca, portanto os primórdios das respectivas trajetórias musicais e fatos ocorridos a posteriori e pregressos ao show como o surgimento da Tropicália e o exílio ao qual Caetano e Gil foram condenados em fins dos anos 1960.

—  Não queria um livro que fosse para “iniciados” apenas. Então, desde o início, defini que não entraria em questões políticas, históricas ou sociológicas que julgasse desnecessárias. Mas, com o tempo e com a finalização da escrita, foi ficando claro que as várias camadas da história dos Doces Bárbaros me impeliam a alguns voos mais filosóficos – revela Abrahão, trazendo à conversa um dos papas da filosofia: —  Por isso, decidi incluir um pequeno posfácio, no qual me aventuro a fazer uma leitura dos Doces Bárbaros como uma “utopia de liberdade” no contexto da redemocratização do Brasil após anos de Ditadura Militar. Eu recorro a um conceito do Friedrich Nietzsche, “gaia ciência”, para interpretar a experiência de liberdade ansiada pelo grupo em 1976. Isso veio quando o livro estava pronto.

Para o pesquisador, o legado do grupo é perene. E, passadas cinco décadas, a iniciativa precisa servir de norte a um país onde as conquistas relacionadas às liberdades e à própria democracia em si precisam ser respeitadas como direitos pétreos.

— Vejo os Doces Bárbaros como uma lição atemporal para os ciclos de barbárie. Diante de expressões de fascismo, precisamos manter os vínculos, as amizades, os afetos. Eles – e a organização política – são fundamentais para vivermos uma vida em sentido pleno. Cinquenta anos depois, não estamos muito distantes dessa situação, e esta talvez seja a atualidade dos Doces Bárbaros – arremata.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto), divulgação (imagens) e Larissa Simão (foto autor)

O professor universitário e pesquisador musical Luiz Abrahão

 

Posts recentes

‘A ficha ainda não caiu’

Saiba quem é o ex-garçom brasileiro que brilha nos mais concorridos desfiles da Semana da Moda de Milão