‘A desbrutalização é urgente’

maio 1, 2026

Sérgio Guizé volta à música e avalia seu desempenho na TV, fala sobre aprendizado e buscas pessoais e revela se pode investir em carreira no exterior

Um ator tem o dom de se transmutar. E, em alguns casos, pode revisitar um personagem do passado. E esse reencontro terá, no caso dos grandes artistas, o desafio de dar ao papel nova coloratura sem que ele perca sua essência. Foi assim com Sérgio Guizé e Candinho, que se reencontraram em “Eta, mundo melhor”, novela de Walcyr Carrasco recém-exibida pela TV Globo. Nela, o ator provou, mais uma vez, ser um dos principais nomes da sua geração. O momento parece propício a reencontros para ele. Agora, na seara musical. Guizé,  Jarbe Gilliard e André Gieswein retomam o power trio criado por eles e, desta vez, com o nome original, Salvador e seus Pecados. A retomada é uma homenagem da trinca ao pai de Guizé, recém-falecido, e sob a nova alcunha apresentam-se no próximo sábado (09), como parte da programação da “Mostra Itaúna de Teatro – Teatro para Todos”, em Minas Gerais. “Herdei do meu pai o amor pela música”, reconhece o ator nesta entrevista ao NEW MAG, reiterando ainda o quão importante a imersão no segmento punk foi para sua tomada de consciência: “O punk me deu a consciência do ‘faça você mesmo’”. A seguir, Guizé fala da relevância de papéis como o Breno de “Sessão de terapia”, da paz encontrada por ele e pela mulher, a atriz Bianca Bin, no refúgio onde vivem e reconhece que, pintando um projeto legal, ele pode seguir os passos de colegas de geração rumo ao exterior. “Meu foco é sempre o projeto e a personagem”, pontua ele.

Vocês retomam o nome original da banda como um tributo à memória do teu pai. Em que aspecto você se acha parecido com ele e qual lembrança dele gostaria que jamais fosse apagada? 

Herdei do meu pai o amor pela música. A imagem que não sai da minha cabeça é a dele tocando, sempre sorrindo, com seus teclados em todos os cômodos da casa e na maioria dos bares da região. É como diziam: ‘Lá vai o seu Salvador e seus teclados’. Retomar com o nome é uma forma de garantir que, toda vez que tocarmos, faremos uma homenagem a ele. O Gilly e o André são o coração e o pulmão da banda, e eles endossam esse tributo com todo amor e dedicação.

O movimento Punk criou uma ruptura com o rock progressivo nos anos 1970 e acabou por abrir alas à cena pop que tomou o mundo nos anos 1980. Você chegou a ser, com a licença do Gil, um Punk da Periferia?

Venho de Santo André, no ABC paulista, onde frequentei ativamente o movimento, principalmente na segunda metade dos anos 90, quando toquei guitarra na banda Motim Punk. Ela era liderada por Antônio de Pádua, o Capitão Gancho, um dos pioneiros do movimento. Lá entendi que se tratava de coisa séria: falávamos em revolução social. O punk me deu a consciência do ‘faça você mesmo’.

Com quais das características contestadores desse movimento você se identifica mais? 

O que mais me identifica com esse movimento não é a estética, mas a recusa em aceitar o estabelecido sem questioná-lo. É essa urgência em dizer o que precisa ser dito, seja no palco, com a guitarra, com as tintas ou em cena como ator. E a frase que carrego desse período é a do Emiliano Zapata, quando ele diz: “Prefiro morrer em pé a viver ajoelhado”. Mesmo hoje não tocando o punk, continuo escutando, admirando e respeitando o movimento.

Você reencontrou o Candinho em Eta, Mundo Melhor, preservando a essência do personagem ao mesmo tempo em que deu a ele novas coloraturas. Qual o balanço dessa reaproximação entre ator e um personagem marcante? 

Amo o Candinho e amo dar vida a ele, que é quase um estado de espírito. Reencontrá-lo 10 anos depois foi como visitar um primo querido e ver que a bondade dele segue inabalável. Sinto que estamos aprofundando nossa relação; ele vai evoluindo de acordo com a época em que é inserido — saindo dos anos 40 para os 50 — acompanhando também a minha própria maturidade. É um personagem muito, muito bonito, um jogo interessante entre criador e criatura. Sou grato às referências, aos que também o criaram e me deram essa oportunidade. E, no fim das contas, sigo aprendendo com ele.

Perdemos recentemente Juca de Oliveira e você, no remake de Saramandaia, interpretou o personagem imortalizado por ele na primeira versão. Chegou a procura-lo para, digamos, pedir a bênção? O que o Juca representou na sua formação como ator?

Quando fui convidado pela Denise Saraceni para viver o João Gibão em Saramandaia, estava saindo de” Sessão de Terapia” e senti o peso da responsabilidade de assumir um papel que foi do Juca de Oliveira. Por coincidência, estávamos hospedados no mesmo hotel no Rio. Passei dias tentando criar coragem para falar com ele, mas a timidez não deixava. Até que, no dia de ir embora, o próprio Juca veio até mim. Falei da minha admiração e perguntei sobre o desafio de fazer realismo fantástico principalmente durante a ditadura, uma vez que era uma personagem que tinha asas e falava sobre  progresso e liberdade . Ele me deu um conselho que levo para a vida: ‘Meu filho, não importa o gênero, pode ser realismo fantástico, fantasioso (risos), drama , comédia, hiper-realismo, não importa. Faça de verdade e com a sua verdade que vai dar tudo certo”. Ali, entendi que se eu acreditasse  que voava, o público também acreditaria naquelas asas. Me tirou um peso enorme e virou o meu norte.

Breno, seu personagem em Sessão de Terapia, era um policial em crise por matar um inocente. A violência é crescente nas capitais e as ações policiais suscitam versões questionadas por moradores. A polícia precisa se desbrutalizar?

O Breno foi um personagem desafiador, um mergulho doloroso na humanidade de quem está na ponta de um sistema falido. A desbrutalização é urgente, mas ela não acontece sozinha: passa por uma reforma estrutural e, fundamentalmente, pelo cuidado com a saúde mental desses profissionais.

Há luz no fim desse túnel?

A luz no fim do túnel reside na empatia e na justiça social. Enquanto houver desigualdade extrema, a violência continuará sendo um sintoma incurável se combatida apenas com força — e com ainda mais violência vinda de quem tem o dever de proteger a população.

Como vê o fato de colegas como Selton Melo e Wagner Moura seguirem, agora na faixa dos 50 anos, carreiras no exterior? Planeja fazer o mesmo?

Admiro muito o trabalho e o caminho que o Selton e o Wagner abriram; são artistas imensos que levam a nossa identidade para o mundo. Meu foco é sempre o projeto e a personagem: se surgir um convite que me desafie artisticamente, irei com o maior prazer e felicidade

Você e Bianca têm o refúgio de vocês, onde vivem de forma mais regrada. A serenidade é uma meta a ser alcançada ou vocês já a encontraram?

A serenidade é um exercício diário, No nosso refúgio, a gente busca esse tempo mais humano, o contato com a terra, com o silêncio. Acredito que esse seja um caminho para ela. Viver cercado de natureza é o que nos mantém equilibrados para enfrentar o barulho do mundo.

Se Salvador tem seus Pecados, para terminar, de bate-pronto: qual o maior pecado de Sergio Guizé?

É a ansiedade (risos). Acho um desperdício não viver plenamente o aqui e o agora; um pecado, na verdade. Às vezes me pego esperando algo que está por vir ou buscando algo que nem sei o que é, em vez de simplesmente estar presente, aproveitando o prazer de estar vivo e o que a vida oferece.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e Sérgio Santoian (imagem)

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