Um reencontro entre quatro instrumentistas pautados pela excelência musical. A (co)junção de velhos amigos, hoje sessentões, e aos quais o tempo só fez bem. E (re)unem seus instrumentos com aquele sangue nos olhos de quando, lá no início dos anos 1980, formaram uma banda que abriu alas ao que ficaria conhecido como Rock Nacional. E o resultado é um show grandioso. Assim pode ser definido “Barão Vermelho Encontro”, espetáculo que reúne quatro dos cinco integrantes-fundadores do grupo.
O projeto leva novamente ao palco Roberto Frejat (vocal e guitarra), Guto Goffi (bateria), Maurício Barros (teclados) e Dé Palmeira (baixo) que, juntamente com Cazuza (1958-1990) criaram a banda cujo nome foi tomado do aviador alemão Manfred von Richthofen (1892-1918). E o pontapé inicial na turnê foi dado, na noite da última quinta-feira (30), para alegria e comoção dos fãs (muitos deles hoje na faixa 50+) que lotaram a Farmasi Arena, no Rio de Janeiro.
Os fab four estão lá, no centro da cena, numa formação acrescida por sete excelentes músicos de diferentes gerações (e parceiros como o guitarrista Fernando Magalhães). E os painéis de LED dão à apresentação, realizada pela 30e, ares de superprodução, à altura dos shows de rock internacionais. E, diante deste aparato, a canção de abertura precisava ser contagiante. E “Maior abandonado”, faixa-título do segundo LP do grupo, cumpriu bem esse papel, levando a plateia a cantar em coro.

O que começou bem fica ainda melhor quando, após “Pedra, flor e espinho”, a banda ataca com “Pense e dance”, ainda mais vigorosa pelo naipe de sopros formado por José Carlos Bigorna (sax), Marlon Sette (trombone) e Diogo Gomes (trompete). A partir dali o show decola. E voa alto ao elencar temas como “Política voz” (Jorge Salomão PRESENTE!), “Tão longe de tudo” e a clássica e obrigatória “Bete Balanço”.
A banda abre ENTÃO seu leque a referências e a parceiros de jornada. Imagens de Ezequiel Neves (1935-2010), produtor-guru do grupo, e do letrista e poeta Mauro Santa Cecília (1962-2025) são vistas nos painéis durante “Meus bons amigos” num set que traz ainda “Ponto fraco” e homenagens a Raul Seixas (“Tente outra vez”) e ao próprio Cazuza, saudado com “O tempo não para”, canção-título do seu derradeiro show solo e no qual ele foi dirigido por Ney Matogrosso.

Findo o número, Ney adentra o palco na surdina o que não arrefeceu em nada a recepção calorosa do público. Ele (cuja gravação de “Pro dia nascer feliz” ajudou a projetar a banda) juntou-se aos barões em cinco números. “Poema” (parceria póstuma de Frejat e Cazuza) e “Jardins da Babilônia” (Lee Marcucci/Rita Lee) e “Blues da piedade” (Frejat/ Cazuza) abriram o set e contagiaram o público. A partir de “Ideologia”, o teleprompter atrapalhou o cantor que, cachorro grande (e vira-lata de raça) que é, contornou o fato com Frejat auxiliando-o nas entradas das estrofes.
Ney, cuja participação foi encerrada com “Exagerado”, não foi a única cereja naquele suculento sundae. Outra participação surpresa – e só possível graças aos adventos tecnológicos – arrebataria também o público. Se pensou em Cazuza acertou. O cantor e Frejat juntaram seus timbres em “Todo amor que houver nesta vida” (canção que, a partir de sua inclusão num show de Caetano Veloso, chamaria atenção à banda), com Cazuza surgindo nos telões em imagens do seu supracitado derradeiro show. Findo o set, que incluiu ainda o blues “Down em mim”, Frejat mandou aquele que é seu bordão há décadas: “Agora o rock n’ roll vai rolar”.

E rolou, com “Por você” (Mauro Sta. Cecília PRESENTE) e três das faixas daquele álbum de fim de contrato e que, por ironia, levou de volta o grupo às paradas: “Álbum”. “Amor, meu grande amor” (Angela Ro Ro/Ana Terra), “Vem quente que estou fervendo” (Eduardo Araújo) e “Malandragem, dá um tempo” (Bezerra da Silva) foram ouvidas com esta cantada por Maurício Barros que, em sua fala, dedicou o show ao pai de Frejat, o ex-político José Frejat, morto poucos dias antes.
E, como preconizado por Frejat, o rock n’ roll rolou ainda mais, num roteiro que trouxe ainda faixas-títulos de álbuns significativos como “Declare guerra” (o terceiro da banda e o primeiro sem Cazuza) e “Puro Êxtase” (1998).

E, em se tratando de um espetáculo suntuoso, ele precisava de um grand finale. E coube a “Pro dia nascer feliz” fechar a noite. O país não é mais o daquele 1985, quando o Barão fez História no Rock in Rio. A canção tem ainda força ao resistir a um país cujo Congresso derruba veto presidencial a favor de golpistas. O Brasil mudou. E o Barão também.
Roberto Frejat, Guto Goffi, Dé Palmeira e Maurício Barros voltam a se encontrar como se não houvera existido hiato algum. Aqueles garotos que juntavam-se para levar um som na garagem (e que foram apresentados a Cazuza por Leo Jaime) são hoje sessentões de respeito e de responsa. Eles não mudaram o mundo, Ok, mas pavimentaram uma estrada na qual caminham soberanos. E dão prova disso num espetáculo que é puro êxtase. E rock n’ roll da melhor qualidade.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e PrÍdia (Farmasi Arena)






