‘A indústria musical virou um grande bololô’

janeiro 23, 2026

Catto traz ao Rio show autoral e fala sobre sua transição, aplaude as Marinas Lima e Sena e diz que Madonna não morrerá e que ter homenageado Gal mudou sua vida

Uma voz. Não uma voz qualquer. Mas um timbre apto a apoderar-se do repertório de uma das nossas maiores cantoras, como demonstrado no show e no álbum “Belezas são coisas acesas por dentro”, em que reverenciou Gal Costa (1945-2024), como a cantar as dores de amor de forma pungente no seu álbum mais recente, o autoral e não menos vibrante “Caminhos selvagens”. E de quem é essa voz afinal? É de Catto, artista que, desde sua aparição na cena musical em 2011, quando lançou o álbum “Fôlego”, mostrou que estava vocacionada a pavimentar na música um caminho autoral e personalíssimo. “A pessoa que sou hoje não comporta mais firulas”, reconhece ela nesta entrevista ao NEW MAG. Na conversa, por telefone, a cantora e compositora fala do novo trabalho, cujo repertório será apresentado no Rio de Janeiro na próxima quarta (28), em apresentação no Teatro Riachuelo, e não só sobre ele, aliás. Catto fala também da sua transição de gênero, da relação com o mercado (“Sei quem é meu público”), rasga seda às Marinas Lima e Sena, aplaude a deputada Érika Hilton e é categórica sobre a importância de ter homenageado Gal. “Foi um show que nasceu de parto normal”, constata.

Nas oito faixas do álbum você reitera a tradição brasileira de cantar as dores de amor e a atualiza ao incluir expressões atuais como boy… E vai além ao dizer que a solidão pode ser uma festa. Acho lindo esse estar na fossa de forma solar…

Isso é libertador. O discurso é mais confessional e quis me colocar nesse lugar, de uma comunicação mais direta com as pessoas. Queria que o álbum fluísse como uma conversa entre amigos, dessas em que você toca em pontos importantes e ri e chora ao mesmo tempo, ainda que as músicas não sejam exatamente engraçadas. Queria que o discurso fosse esse, do jeito que falo. O álbum é denso, mas tem isso de fluir como uma fala entre amigas.

E o álbum soa atualíssimo ao falar do fim da civilização e do fim do mundo. Como vê as barbaridades que envolvem a geopolítica atual?

É interessante que as imagens apocalípticas presentes em algumas das letras não são meras figuras de linguagem. Estamos vivendo o fim de uma Era, e isso não vem de hoje. São tempos complexos, e a tendência é que muita coisa piore daqui para frente. O mundo nos exige coragem, e é imprescindível encontrarmos alguma paz no meio desse caos.

A ousadia está presente em algumas das letras com imagens como a da transa no banheiro… A Catto está mais atrevida?

Sim. Passei por muitas coisas de 15 anos para cá. Meu processo de vida foi de desrepressão. Sou trans, e a pessoa que sou hoje não comporta mais firulas. E hoje posso falar dessas coisas abertamente. Não preciso mais medir meu discurso para agradar a A, B ou a C. Quando mudei, passei a prestar mais atenção em mim. As pessoas que vão aos meus shows e que consomem minha música eu sei quem elas são, conheço cada um ali. Aquele é o meu nicho, esse é o meu recorte.

Percebo ecos de Madonna em algumas faixas do álbum e no look usado em Madrigal. O trono de Madonna é vitalício?

Com certeza! E, quando ela morrer, vão dizer que mudou-se para o Marrocos. Não há na arte ninguém que tenha provocado mudanças comportamentais, estéticas e relacionadas ao feminismo como ela provocou. Ela não deixará sucessoras. O legado dela é único, é como o de (Charles) Chaplin, o de (David) Bowie. Você pode ir aos cafundós do mundo e até encontrar alguém que nunca tenha ouvido falar no Bowie, mas não vai encontrar quem não conheça uma canção da Madonna, uma “Like a virgin” que seja. Qualquer coisa que se pense no pop, ela já fez. Até sex book ela já fez (“Madonna sex book”, de 1992). Eu não teria coragem de fazer algo do tipo…

Claro que teria!

Eu? Jamais! Sou tímida. Ficaria pelada sem estar diante das câmeras. Não tenho essa coragem e essa ousadia.

Tua mãe te aplicou na música da Marina Lima e, décadas depois, você e Marina cantaram juntas no palco…O que te comove mais nessa aproximação entre vocês?

A Marina sempre foi um farol para mim. Ela sempre me acolheu, fosse através das letras ou da própria atitude. Eu a via e pensava que queria ser como ela quando crescesse. Sempre me interessei mais por artistas mulheres. Gostava da Blondie (banda norte-americana de New Wave), da Cássia Eller, e a Marina foi uma das principais referências, ainda mais por ser uma artista LGBTQIA+. Ela é inteligente, generosa e tem isso de estar aberta ao novo. Ela não é saudosista e não está presa ao que fez. Ela tem isso de nos colocar para dançar e nos levar ao mesmo tempo à reflexão, e isso é maravilhoso!

Já te vi cantando com Simone Mazzer no Circo Voador. De quais nomes da tua geração ou da atual cena pop gostaria de se aproximar?

Fiquei fazendo feats nos últimos 3 anos e já transei com todo mundo dessa música. Tem muita gente legal e diferente de mim de quem gostaria de me aproximar mais. A Tulipa Ruiz, com quem estive recentemente em Fortaleza, é uma. Tem a Duda Brack, a Alice Caymmi, a própria Marina, com quem já cantei, mas com quem nunca gravei… E a Marina Sena. A Marina Sena é foda!

O projeto em homenagem a Gal cresceu rendendo álbum e mais apresentações. O que de mais gratificante esse projeto te trouxe?

Esse projeto não foi planejado e foi muito relevante para mim. Estávamos sob um governo de extrema direita e tínhamos passado pela pandemia, não aguentava mais cantar sozinha, estava doida para voltar a tocar com banda, reencontrar as pessoas,  reencontrar o Brasil. E cantar aquele repertório foi muito significativo. Foi meu primeiro show após minha transição. Eu estava me sentindo gostosíssima e passando por uma separação, então fazia todo o sentido cantar “Vaca profana” e versos como “Desta vez doeu demais” (da música “Nada mais”). Gosto de todo o trabalho que envolve a criação de um show, e aquele foi um show que nasceu de parto normal. Eu já tinha começado a gravar o “Caminhos selvagens” quando abracei esse projeto. Então, os dois álbuns conversam entre eles. Brinco que, agora, com o “Caminhos” lançado, as duas irmãs gêmeas se encontraram (risos).

O pagode do Menos é Mais furou a barreira do sertanejo pop no ranking das canções mais ouvidas de 2025. Essa tríade sertanejo/pagode/funk vai continuar reinando em medições ligadas à preferência popular?

Não penso sobre isso. A música de massas é hoje muito diferente daquela que curti nos anos 1990. Muitas músicas de novelas fizeram a minha cabeça. Antigamente você ligava a TV e ouvia uma Adriana (Calcanhotto), uma Bethânia… Ter uma canção na abertura de uma novela mudava a vida de um artista. O mercado está cada vez mais massificado e agora, com o uso da IA, a previsão é apocalíptica (risos). A indústria da música virou um grande bololô, e a música que faço está longe de ser hegemônica. Se você me apresentar uma lista com os 100 artistas mais ouvidos hoje no Brasil, certamente não vou saber quem são. A minha vida segue sem tocar nesse modelo. Claro que, hoje, temos artistas com mais diversidade, há uma volta do analógico, e o interesse das novas gerações pela MPB, OK, mas vou continuar onde estou. Sei quem é meu público.

Acha possível termos, neste ano de eleição, um congresso mais diverso e arejado?

Espero que sim. Mas uma coisa é certa: vence (a eleição) quem tem mais dinheiro. E a gente tem dinheiro para vencer? A gente tem hoje pontos de luz como uma Érika (Hilton, deputada federal), uma pessoa esclarecida que causa um impacto enorme, mas não podemos nos iludir. A sociedade é exposta às ideias da extrema direita a todo momento: na TV, no rádio, na internet, nas fake news… Um candidato é eleito por suas oligarquias. Sempre foi assim. Temos hoje mais espaço na política e mais atenção às políticas em razão de termos um partido de centro-esquerda no governo federal, mas é preciso lutar mais por nossos direitos.

Ser uma artista pop te blinda ou te expõe mais à intolerância do mundo?

Sou uma artista pop? Adorei saber disso (risos).

Claro que é! E vou colocar essa reação na matéria…

As maiores dificuldades com que tenho de lidar não estão no âmbito virtual, de haters. As pedras atiradas não estão no meu mundo profissional. A intolerância está dentro da minha família, por exemplo, sobre questões relacionadas ao meu corpo. A intolerância está nesse campo das questões mais íntimas. Acho que, como artista, estou mais blindada, o que não significa que tenha um salvo-conduto. A transfobia é latente no país e precisa ser combatida fortemente, e aí não importa mais se você é artista ou não… Antes de estar onde estou, sou cidadã e preciso fazer valer meus direitos. Preciso estar sempre esperta.

Atenta e forte…

Atenta e fortíssima!

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e Ivi Maiga Bugrimenko (imagem)

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