Um país chamado Fafá

janeiro 20, 2026

Fafá de Belém emociona-se em sessão para convidados do musical criado para celebrar seus 50 anos de carreira

 

Fafá de Belém diante do elenco e da equipe técnica de “Fafá de Belém, o musical”

“Eu poderia ter me tornado cantora. Mas Fafá de Belém foi uma invenção de Roberto Santana”. Com essa frase, uma emocionada Fafá de Belém agradeceu a presença de Roberto, seu produtor e espécie de tutor nos primeiros anos de sua carreira. Acontece que Maria de Fátima Palha de Figueiredo tornou-se uma das mais importantes vozes femininas da nossa música. E ela tem parte de sua rica História narrada em “Fafá de Belém, o musical”, espetáculo idealizado por Jô Santana (ele também diretor-geral da encenação), que teve sessão para convidados na noite da última segunda-feira (19), no Teatro Riachuelo (onde o supracitado Roberto esteve presente), no Rio de Janeiro.

“Você quer o sucesso ou uma carreira?”. A pergunta é feita a queima-roupa por Roberto Santana (Daniel Carneiro) a Fafá (Helga Nemetik), então com 18 anos e alçada à paixão nacional naquele ano de 1975. O episódio pode ser apontado como uma das cenas-síntese do espetáculo, que esmiuça a trajetória da intérprete da sua infância em Belém do Pará, onde deu seus primeiros passos na música, até sua consagração, passando, é claro, pela explosão nos anos 1980 como a cantora que emprestou sua voz a temas de forte adesão popular sem descuidar da MPB na qual emoldurou seu canto nos primeiros LPs, lançados entre 1975 e 1980.

Helga é uma das três intérpretes da personagem central. E também um dos pilares de sustentação da mesma personagem, pintada com matizes extraídas de características pungentes na própria Fafá como sua resiliência, autonomia e a certeza da sua vocação. As demais intérpretes são a estreante Laura Saab, que faz bonito ao personificar a cantora na infância, acertando ao imprimir ao papel leveza na justa medida; e Lucinha Lins, cantriz de mão cheia, que empresta à personagem descontração, exuberância e sobriedade num resultado que a deixa, inclusive, fisicamente parecida com a personagem.

E Lucinha e Helga merecem uma explanação mais profunda, uma vez que vivem a mesma personagem em sua porção adulta ainda que em períodos de vida distintos. Enquanto Helga surpreende ao levar seu timbre à mesma região vocal de Fafá, reproduzindo, inclusive, maneirismos e a dicção vocais, Lucinha acerta ao privilegiar as inflexões, divisões rítmicas e – por que não? – a respiração que também são marcas latentes no canto de Fafá. As duas estão soberbas e amalgamadas no propósito de servir à personagem. Ambas merecem prêmios e será uma injustiça dá-lo a uma delas apenas.

Lucinha, Helga e Laura revezam-se em cena num roteiro cênico cronológico, mas em nada linear, num acerto de Gustavo Gasparani, diretor e autor (juntamente com Eduardo Rieche). E a dupla não economiza nas tintas fortes – e em nada apelativas – em momentos como o do clamor pelas eleições diretas, embalado por “Menestrel das Alagoas” (Milton Nascimento/ Fernando Brant), a morte de Tancredo Neves (1910-1985), presidente civil eleito indiretamente, momento em que ouve-se a interpretação personalíssima de Fafá (Helga) para o Hino Nacional; e o da ligação da cantora com o Círio de Nazaré, num set apoteótico que fecha o primeiro ato do espetáculo.

Os autores acertam também ao tratar com lirismo e sutileza momentos mais pessoais da vida da personagem. Um deles é o do encontro da cantora com o saxofonista Raul Mascarenhas, pai de sua filha, Mariana. A cena, interpretada por Helga e por Sérgio Dalcin (Boto/Raul), é executada quase como uma coreografia e apropriadamente embalada por “Que me venha esse homem” (David Tygel/ Bruna Lombardi) e lançada por Fafá em 1979.

Em cinco décadas de vida artística, episódios pitorescos ou antológicos não faltam na trajetória de Fafá de Belém, e vários deles estão lá, costurados a números musicais que remetem ao regionalismo do repertório da Estrela Radiante – em temas como ‘Indauê Tupã” e “Pauapixuna”, ambas da dupla Paulo André e Ruy Barata,  e “Filho da Bahia” (Walter Queiroz), ponta-de-lança para a artista tornar-se conhecida em âmbito nacional a partir da trilha da novela “Gabriela” – e também aos sucessos arrasa-quarteirão como ‘Nuvem de Lágrimas”(Paulinho Rezende/ Paulo Debério) e “Abandonada”(Michael Sullivan/ Paulo Sérgio Vale).

E uma bola dentro é o momento em que os grandes sucessos da artista são interpretados por drag queens, num coup de théãtre assertivo e que passa ao largo de didatismos comuns em musicais biográficos. E os figurinos – os das transformistas e os de todo o elenco, aliás – primam pela exuberância, marca de Claudio Tovar, artista visual de mão cheia.

‘Fafá de Belém, o musical” faz mais do que levar à cena a vitoriosa trajetória de uma das nossas maiores cantoras. E ali não está somente Maria de Fátima Palha de Figueiredo, mas todo um estado (geográfico e de espírito) que a artista propagou através do seu timbre.

Ali também está um Brasil em parte de sua essência, um país sem polarizações, cuja principal ruptura foi a da picada aberta do Norte ao restante do país pelo canto transgressor de Fafá de Belém.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Vera Donato (imagens)

MAIS LIDAS

Posts recentes

Encontro de notáveis

Salgado Maranhão reúne grandes nomes das Letras em lançamento de coletânea no Rio de Janeiro

Veio para ficar

Flora Camolese reúne talentos da sétima arte em cineclube e mostra que quem sai aos seus não degenera