‘Sou uma mulher que aceita envelhecer’

abril 24, 2026

Claudia Ohana brilha no teatro e fala sobre pioneirismo e perseverança, aplaude a obstinação de Bruna Marquezine e celebra o legado de Ney Latorraca

Existem atrizes que se tornam parte do imaginário coletivo do público. Claudia Ohana certamente é uma delas. É impossível não associar sua imagem à Natasha, da novela “Vamp”, e à parceria com Ney Latorraca — uma união que começou na televisão, mas que, como ela mesma revela, encontrou sua profundidade real no “olho no olho” do teatro. Cria do cinema e filha da primeira montadora mulher do país, Claudia carrega no DNA a sétima arte, mas é nos palcos que tem buscado suas transformações mais viscerais. Atualmente, está em cartaz com “As amantes de George Washington”, onde ela interpreta Martha Washington, a viúva do primeiro presidente norte-americano. Sob a direção de Darson Ribeiro, a peça ocupa o Teatro BDO Jaraguá, em São Paulo, até o dia 10 de maio. Dividindo a cena com Priscila Fantin, Claudia encara o que define como “uma dos personagens mais difíceis” que já fez. Além disso, nesta entrevista ao NEW MAG, a atriz também relembra o início da carreira e a importância de descentralizar o cinema brasileiro. E exalta atrizes que buscam seu lugar em Hollywood. Recusando as amarras do etarismo, ela fala sobre o direito de envelhecer sem abrir mão do desejo, do amor e dos sonhos. Para Claudia, a felicidade é uma escolha prática, e o tempo, longe de ser um inimigo, é o que lapida sua arte.

Você interpreta Martha Washington, a viúva do primeiro presidente norte-americano, em um embate direto com a amante do marido. Como foi construir essa mulher do século XVIII que, em vez de se calar, decide enfrentar a rival?

É a primeira vez que faço uma personagem de época, construída a partir do texto mesmo. É como se eu estivesse fazendo uma peça de Shakespeare, porque o texto é rebuscado e com poucos gestos. É muito difícil, porque você tem que ser verdadeiro numa postura que não é comum, seja no sentar ou no falar. Fora isso, as discussões são muito profundas e é muito forte fazer. 

Como tem sido dividir a cena com Priscila Fantin no primeiro trabalho de vocês juntas no teatro?

Já estivemos na mesma novela, mas não contracenamos, não éramos do mesmo núcleo. A Priscila é uma pessoa muito doce, muito querida, muito dedicada, muito legal. Somos grandes parceiras de cena. É muito bom quando você se entende bem com outro ator, e como são só dois atores, precisa ter uma cumplicidade muito grande. Isso é muito bom. É como se você entrasse numa arena com outro lutador e nós duas estamos lutando juntas. E a peça é rebuscada, densa, onde nós duas temos que jogar bem.

Mesmo sendo uma figura presente nos registros históricos, Martha Washington não costuma aparecer em um lugar de protagonismo. O que te interessou em reinventar essa personagem da história a partir da ficção, e sendo dirigida por Darson Ribeiro?

Assim que o Darson mandou o texto e eu li, já me interessou, porque realmente é bem diferente de tudo que eu já fiz. Trabalhar dessa maneira no teatro, numa coisa mais teatral mesmo, com esse tom meio épico, meio shakespeariano, me interessou muito. Mas confesso que é difícil. Talvez seja um dos personagens mais difíceis que eu já fiz.

Você começou no cinema muito jovem, em filmes como “Menino do Rio” e “Ópera do Malandro”, além de ter estrelado adaptações de obras de Gabriel García Márquez. Como foi esse início antes da grande popularidade com “Vamp”?

Demorei muito para entrar em novelas. Meu foco era o cinema, talvez porque eu tenha nascido no cinema. Minha mãe foi a primeira montadora mulher no cinema. É uma arte que conheço bastante. Embora depois venha o teatro, que é a base do ator. Comecei no cinema, depois fui para a televisão e depois para o teatro. Foi um caminho diferente. Mudei muito depois que fiz teatro. O teatro muda a personalidade, muda como você encara a arte, muda tudo. Realmente é uma coisa profunda.

Como você vê atrizes como Bruna Marquezine e Alice Braga construindo carreira no cinema no exterior?

Acho incrível a gente poder, neste momento, abrir uma pequena porta para as pessoas irem. Bato palma para quem vai. Fiz filme lá fora em outra época, que era bem mais difícil, mas acredito que ainda seja difícil agora. Nos Estados Unidos existe o sindicato dos atores americanos e outro sindicato dos latinos, onde um brasileiro não entra, por exemplo. É muito difícil trabalhar lá fora. Agora, com essas indicações ao Oscar, isso tudo foi incrível. Isso abre portas para uma outra geração que vai poder aproveitar.

Recentemente, você mencionou a importância de “sair do eixo Rio-São Paulo” para contar novas histórias. Como você avalia a força atual do cinema nordestino, que chegou ao Oscar este ano, e essa descentralização da produção audiovisual brasileira?

Acabei de fazer um filme no Mato Grosso, com direção, produção e equipe técnica de lá. Estamos saindo desse eixo. Antigamente, quando comecei, o cinema existia praticamente no Rio de Janeiro. Era uma coisa muito concentrada aqui. Também existia em São Paulo, mas o cinema mesmo se fazia no Rio. Depois foi abrindo e agora abriu para o Brasil. Imagina se todo lugar no Brasil fizesse cinema, seria incrível. O cinema nordestino, especialmente o pernambucano, é fortíssimo, incrível. São artistas e diretores fantásticos. Já há um tempo o cinema do Nordeste vem com força, e isso é muito bom.

Você construiu uma relação próxima com Ney Latorraca, que começou no cinema e ganhou ainda mais força a partir de “Vamp”. Como foi contracenar com ele e depois reencontrá-lo em outros projetos, inclusive no musical derivado da novela? Tem algo que você aprendeu com ele e carrega consigo até hoje?

Foi no teatro que a gente realmente se conheceu e virou parceiro. Na televisão é raro você conhecer profundamente alguém. No cinema ainda existe essa possibilidade por causa das locações. Mas no teatro, com meses de ensaio, você conhece a pessoa de verdade. O Ney era muito brincalhão, fazia as pessoas rirem, era engraçado contando qualquer história. Mas no palco e no dia a dia ele era muito sério. Era o primeiro a chegar, ficava no palco esperando a hora de entrar. Eu via como ele era profissional, dedicado. E era um parceiro de vida também, alguém com quem eu trocava muito. Foi um grande amigo.

Por falar em teatro musical, podemos dizer que o gênero se consolidou no país. Hoje temos tanto grandes produções nos moldes internacionais quanto trabalhos mais autorais e brasileiros, como o solo de Zezé Polessa sobre Nara Leão. Como você vê essas duas vertentes convivendo no cenário atual?

Graças a Deus que existe musical. Quando comecei, eu fazia muitas aulas de canto e dança e pensava para que estava fazendo aquilo. Hoje vejo que valeu a pena. Amo musical, amo fazer musical. Acho incrível ter esse espaço e esse público. Mas não acredito que seja a grandiosidade que faça um bom espetáculo. O mais importante é o conteúdo, o que você está dizendo e como você faz.

Você é uma voz muito importante na luta contra o etarismo. Existe uma pressão cultural para que a mulher “pareça jovem” a qualquer custo. Como você estabelece o limite entre os cuidados com a saúde, inclusive mental, e a aceitação das marcas que o tempo deixa? O que você parou de aceitar ou de se cobrar nos últimos tempos?

Sou uma mulher que aceita envelhecer, porque envelhecer faz parte da vida. Você nasce e envelhece. O que me incomoda é essa ideia de ser eternamente jovem, que não existe. E isso não acontece só com pessoas mais velhas, mas também com mulheres jovens. Eu não tenho nada contra quem quer parecer mais jovem ou fazer procedimentos. O problema é a sociedade te colocar em um lugar onde você não pode mais sonhar, amar ou ser desejada. Isso eu não aceito. Quero continuar vivendo. Ainda me cobro muitas coisas. Às vezes acho que tenho que sair mais, ir a eventos, e acabo indo a lugares que não queria. Com o tempo, você percebe que já viveu muita coisa e nem tudo te atrai mais. Nem todo lugar, nem toda pessoa. E você aprende a dizer não. Tudo tem um lado bom e um lado ruim. Se você só olhar o lado ruim de envelhecer, vai ser difícil. É melhor tentar ver o lado bom. A felicidade é uma escolha, mas não é só discurso. É prática, é postura de vida.

Créditos: Bruno Nunes (texto e entrevista) e Vinicius Mochizuki (imagem)

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