Show de sucessos

junho 7, 2026

Jorge Aragão, Alcione e Zeca Pagodinho abrem turnê com espetáculo que reitera a força de cada um na música

Jorge Aragão havia acabado de cantar “Malandro”, sua parceria com Jotabê, quando perguntou ao público se eles queriam ouvir sambas inéditos. O retumbante “Não” bradado pela multidão deixava clara a verve da turnê que, pela primeira vez, une Alcione e Zeca Pagodinho ao supracitado Aragão. As 65 mil pessoas que lotaram o estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, queriam ouvir sucessos. E foi o que tiveram no show que, no último sábado (06), em noite que contou ainda com a participação de Martinho da Vila, abriu o “Maior encontro do samba”, turnê realizada pela 30e.

Em noite com transmissão de amistoso da Seleção e com Lauryn Hill no páreo, a trinca mostrou ter seu quinhão no coração do público. Com um atraso de 50 minutos – suficiente para o público ocupar o local – Zeca (o primeiro a surgir em cena), Alcione e Aragão tomaram o palco ao som dos primeiros acordes de “Mutirão de amor” (Zeca, Aragão e Sombrinha), um dos raros números que cantam juntos num roteiro que, naquela noite, contava com pouco mais de 30 canções.

Abertos os trabalhos, os roadies colocam no palco cadeiras para cada um e, feito isso, Alcione e os músicos (excelentes) atacam com “Você me vira a cabeça” (Chico Roque/Zenith/ Paulo Sérgio Valle), cantada por ela (e pelo público), sendo seguida por Aragão com “Eu e você sempre” (com Flávio Cardoso e Martins) culminando em “Verdade” (Nelson Rufino/Carlinhos Santana), um dos grandes sucessos de Zeca.

Ali, o set dá uma pista da dinâmica do show: hits de cada um apresentados em números solos, o que não impede que um e outro cantarole o refrão alheio. Tal percepção confirma-se na medida em que o roteiro avança com “Saudade louca” (Arlindo Cruz/Franco/Acyr Marques), solada por Zeca, seguida por Alcione com “A Loba” (Julinho Rezende/Juninho Peralva) e voltando a Aragão, que mantém a bola no ar com “Já é”, sua parceria com Flávio Cardoso.

Jorge, Alcione e Zeca em um dos primeiros momentos da apresentação

E cada um dos números é acompanhado pelo público, num claro sinal de que cada um dos ídolos tem ali seu lugar.  Diretor musical que traz novas coloraturas a projetos arrojados (como o que Xande de Pilares recriou parte do cancioneiro de Caetano Veloso), Pretinho da Serrinha optou desta vez pela tradição, respeitando arranjos e andamentos dos temas de cada um.

A exceção se dá quando o roteiro abre-se à reverência a mestres comuns. E Cartola (1908-1980) é um deles. O baluarte é lembrado com “As rosas não falam”, num singelo dueto de Alcione e Zeca, e com “O sol nascerá (A sorrir)”. Outro orixá reverenciado é Zé Keti (1921-1999), que tem sua “A voz do morro” cantada pela tríade num dos momentos finais da apresentação.

Outros bambas fazem-se presentes, de formas mais ou menos explícitas. A imagem de Almir Guineto (1946-2017) surge no telão ao fim de “Lama nas ruas” cantada por Zeca, seu parceiro na canção. Dona Ivone Lara (1921-2018) faz-se presente com “Enredo do meu samba”, feita juntamente com Aragão e cantada por este. Nei Lopes e Wilson Moreira (1936-2018) estão lá com “Gostoso veneno”, interpretada por Alcione, e Marquinho PQD, falecido em 2025, tem sua “Ogum” (com Claudemir) cantada por Zeca com direito ainda à voz de Jorge Ben Jor ouvida na oração inserida no tema.

Louvado o Santo Guerreiro, é a vez de Martinho da Vila ser chamado ao palco. E o Danadinho Danado levou com ele cinco de seus sucessos: “Canta, canta, minha gente”, “Disritmia” (com Zé Katimba), “Ex-amor”, “Devagar devagarinho” (Eraldo Devagar) e “Mulheres”, esta de Toninho Geraes. O mais longevo no samba dentre todos ali, Martinho teve sua soberania comprovada pela recepção do público, levando Aragão a constatar: — Esse é professor da gente.

Martinho da Vila brilha em participação especial

O show tinha de continuar, e seguiu com um belo diálogo estabelecido por Pretinho entre “Meu ébano” (Neneo Moraes/Paulinho Rezende), sucesso de Alcione, e “Identidade”, de Aragão. “Deixa a vida me levar” (Sergio Meriti/Erigir do Cais),  de Zeca, mostrava que a vida levava a apresentação aos seus estertores.

Àquela altura, o público estava em estado de graça. O mesmo pode ser dito sobre os artistas. O grande mérito deste Grande Encontro do Samba é o de corroborar a força indelével de Alcione, Jorge Aragão e Zeca Pagodinho na música brasileira. E, juntos, eles são ainda mais fortes. E merecem respeito, fazendo jus a “Moleque atrevido” (Flávio Cardoso/ Jorge Aragão), a dos versos “Respeite quem pode chegar/ Aonde a gente chegou”.

E eles chegaram.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto), Guto Costa (imagem alto), B+Ca e 30ebr (imagens)

Maracanã lotado: público estimado em 65 mil pessoas

 

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