‘Não tenho medo de nada’

fevereiro 20, 2026

Alice Caymmi relê repertórios do avô, Dorival, e da tia, Nana, em shows e fala sobre legado, celebra Caetano e Björk e do que levou-a a recriar tema imortalizado por Gal

Ela é ousada, corajosa, inteligente, sagaz e irreverente. Neta de Dorival Caymmi (1914-2008), eterno Buda Nagô da moderna música brasileira, Alice Caymmi cresceu ouvindo o que há de mais refinado em matéria de música, e a constatação abarca ainda seu pai, Danilo Caymmi, exímio cantor e compositor, e seus tios por parte deste, Dori e Nana Caymmi (1941-2025), que imprimiram seus selos de qualidade no que abraçaram. Cercada por talentos, Alice não se intimidou e, aos 35 anos, é um dos nomes mais autênticos na nova cena musical. “Rainha dos raios”, álbum lançado em 2014, já demonstrava que a moça tinha (muita) personalidade. E assim ela segue, recriando em shows concomitantes parte do repertório de Nana e do cancioneiro do avô. É este quem reverencia em “Roda Caymmi”, com que aporta, neste domingo (22), na área externa da Casa Camolese, Rio de Janeiro, como parte da programação de verão do Manouche. “Tive mais pudor em reler o repertório da minha tia do que o do meu avô”, revela a artista nesta entrevista, por telefone, ao NEW MAG. A seguir, Alice fala da relação com o legado da família, com a indústria musical, aponta para Caetano Veloso e Björk como referências e diz que não teve medo de recriar tema imortalizado por Gal Costa (1945-2022). “Prefiro sempre fazer uma coisa a deixar de fazer”, justifica. Personalidade não falta a Alice Caymmi. Voa, canora!

Dorival ganha através de você ainda mais modernidade à uma sonoridade que nasceu moderna. Chegou a sentir algum pudor ou receio de reler parte do cancioneiro do teu avô?

Tive mais pudor em reler o repertório da minha tia do que o do meu avô, acredita? Convivo com as canções do meu avô desde muito pequena e sempre vi meu pai e meus tios mexendo com elas e as reinterpretando que me apoderar delas foi muito natural para mim. Estou ligada a esse cancioneiro desde muito nova. É um repertório que faz parte da minha criação.

Modinha para Gabriela ficou por anos como algo intocável por conta da interpretação magistral da Gal. Que bom que você teve a coragem de interpretá-la.

Não tenho medo de nada. E essa é uma característica muito importante para mim hoje. Quando gosto de uma música, quero trazê-la para perto de mim e posso às vezes fazer isso até por ignorância, mas faço, tento. Prefiro sempre fazer uma coisa a deixar de fazer.

Você viaja o país com um tributo à Nana. O que foi mais prazeroso e mais doloroso na recriação desse repertório?

O que foi mais doloroso foi lidar com a ausência dela uma vez que a partida dela é ainda recente. A ausência dela é concreta e se faz presente. O gostoso era ver do palco os rostos das pessoas na plateia. Todos nós estamos ali para celebrá-la, ela, seu canto e o seu legado.

Você já misturou Maysa e Michael Sullivan num mesmo álbum. Noto em você o mesmo senso de liberdade que vejo em cantoras como Maria Bethânia e Marisa Monte. Você demorou a tomar consciência disso?

Não, eu sempre tive noção dessa consciência, ela é um traço da minha personalidade. Eu demorei foi para mostrar às pessoas que eu tinha essa vertente. E isso se deu quando eu tinha lá os meus 24 anos. Eu podia ser nova para algumas pessoas, mas o fato é que custei a deixar aflorar esse meu posicionamento.

No Rainha dos Raios você gravou três canções do Caetano. Ele é o cara para você?

Caetano é o cara sim. Ele é o artista com quem mais me identifico desde sempre. E acabo andando para o lado dele até mesmo inconscientemente. Admiro as canções dele, seu pensamento, a forma como ele se posiciona e expõe suas ideias, a coragem que ele tem. Claro, são mil Caetanos num só, mas eu me reconheço em muitos deles.

As feats pululam entre os novos artistas da cena pop e, no Brasil, você foi pioneira nisso. Ter feats dá mais chances de alavancar uma canção ou isso é um modismo com dias contados?

As feats surgiram como um modelo de negócios, uma forma criativa de movimentar a indústria, mas acabaram resvalando em todo um maquinário que há por trás da canção. Os tempos são outros, e tudo mudou nessa relação, que envolve hoje muita gente. O que era para ser algo legal ficou chato hoje.

Recentemente o grupo Menos é mais sacudiu o reinado do sertanejo pop entre os artistas mais ouvidos no país em 2025. Você vislumbra uma quarta via nessa disputa entre sertanejo, pagode e funk?

Sim, isso é algo que espero que se dê em algum momento. Não sei se isso se dará com a minha música, mas é algo que busco através da minha música. Não sei se vou conseguir. Acho que arejar certos sistemas é sempre positivo.

Sua avó paterna, Dona Stella Maris, era famosa pelas opiniões e pelos comentários firmes que tecia sem rodeios.  Qual a lembrança mais latente você traz da tua avó?

O que ficam dela é a disposição e a energia que ela tinha para defender quem ela era. Isso me encanta e me ajudou muito a deixar aflorar a pessoa que eu sou hoje. O modo de ela ser quem era e sua inteligência são coisas que levo comigo.

Você completa no ano que vem 15 anos de carreira fonográfica. É possível já fazer um balanço desta trajetória?

Não, não mesmo. Até porque, ao longo desse tempo, fui para tantos lugares, tão diferentes entre eles, na tentativa de chegar ao meio de um caminho… E esse caminho é contínuo e sigo nele movida pelos meus interesses e pela curiosidade. Ainda é cedo para um balanço.

A Catto me disse aqui que Madonna nunca vai morrer. Você diria o mesmo sobre qual artista?

Todos!

Me diz um, vai

Todo artista é eterno. Todo artista deixa uma marca e um legado, seja em que área for. A Catto falou no sentido mais pessoal, uma vez que a Madonna é conhecida no mundo todo, mas falo aqui do ponto de vista filosófico. Até porque um artista influencia outros e vai deixando “filhos” que estão por aí e perpetuam sua arte. Mas se fosse para escolher um único nome, adoraria que a Björk não morresse.

E já que você a trouxe à conversa, o que é moderno para você hoje?

O moderno para mim é algo que vai permanecer e preservar a capacidade de se manter atual. Não tem nada a ver com os dias de hoje. Tem a ver com tempo e com permanência. Tem muito mais a ver com o conceito do Zeitgeist (ideia de processo dinâmico que influencia e molda o pensamento numa sociedade). Não é o que é feito hoje, mas aquilo que vai permanecer.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e Marcela Cure (imagem)

 

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