Mariana Xavier já passou por novelas, filmes e séries que conquistaram o público, mas é no teatro que tem vivido uma das experiências mais transformadoras de sua carreira. Na peça “Antes do ano que vem”, a atriz une humor e acolhimento para falar sobre saúde mental, empatia e a importância da escuta — temas que considera cada vez mais urgentes.
A montagem retorna ao Rio de Janeiro neste sábado (06), para uma curta temporada no Teatro Gláucio Gill, em Copacabana. Escrita por Gustavo Pinheiro e dirigida por Ana Paula Bouzas e Lázaro Ramos, a peça acompanha Dizuíte, funcionária de um centro de apoio emocional que, durante um plantão de réveillon, precisa assumir o atendimento de mulheres em situações-limite após a ausência da psicóloga responsável.
Para Mariana, o espetáculo ultrapassou os limites de um simples trabalho e se transformou em um projeto de vida.
— A peça estreou há quatro anos e já passou por 33 cidades em 14 estados brasileiros. Desde o início foi concebida com o objetivo de botar a bandeirinha em todos os estados, e não vou sossegar enquanto não conseguir. Essa peça é muito mais do que um trabalho. Ela é uma missão — afirma a artista em entrevista exclusiva ao NEW MAG.
Sozinha em cena, a atriz interpreta diversas personagens sem recorrer a trocas de figurino ou adereços, apoiando-se apenas na construção corporal e vocal:
— É um desafio maravilhoso. Uma oportunidade de mostrar vertentes do meu trabalho que o audiovisual normalmente não mostra. Não tem troca de figurino nem nada. É só no gogó. As pessoas identificam essas personagens sem eu mudar de roupa, sem colocar sequer um adereço.
A peça é inspirada em uma notícia que chamou a atenção do autor Gustavo Pinheiro: o aumento do número de pedidos de ajuda emocional durante a noite de Réveillon. A partir daí nasceu uma comédia que aposta no riso como ferramenta de reflexão.
— Acredito na comédia não só como entretenimento, mas como uma ferramenta poderosa de gerar identificação, fazer crítica e provocar reflexão. O riso desarma o espectador e permite que a mensagem chegue sem tanta barreira, sem tanta defesa — diz a atriz.
Segundo ela, o espetáculo busca lembrar ao público algo simples, mas essencial: ninguém precisa enfrentar tudo sozinho.
— A peça acaba mostrando que, às vezes, a pessoa só precisa de uma escuta. Precisa de um pouco de atenção, de alguém que valide o sentimento dela. O objetivo principal dessa peça é fazer as pessoas saírem do teatro sentindo pelo menos um pouquinho melhor do que quando chegaram. A peça é um abraço e planta uma semente de esperança no coração das pessoas.
Na conversa, a atriz também refletiu sobre sua trajetória profissional e sobre a relação com Marcelina, personagem que interpretou nos filmes de “Minha mãe é uma peça”. Mariana reconhece a importância do papel em sua carreira, mas afirma que busca ser vista para além da adolescente criada por Paulo Gustavo (1978-2021).
— Sei que é uma personagem muito querida pelo público. As pessoas falarem dela o tempo inteiro é sinal de um trabalho muito bem feito, e sou muito feliz e grata por isso. Mas ninguém escolhe ser atriz para ficar presa a uma personagem só — diz a artista, que prossegue: — Fiz várias coisas depois e escolhi essa profissão porque ela me permitia viver várias vidas numa encarnação só. Não é que eu não queira ser lembrada por isso, não quero ser resumida a isso.
Ao abordar o legado de Paulo Gustavo, a atriz se emociona ao lembrar do amigo e colega de cena, a quem atribui uma virada decisiva em sua trajetória.
— Paulo foi a pessoa que me enxergou e me deu a oportunidade que virou uma chave na minha carreira. Ele era um gênio. Tinha um timing de comédia absurdo, uma forma muito particular de existir no mundo e de incentivar as pessoas a serem quem são, a sustentarem suas opiniões, seus gostos e seus amores. Foi uma perda horrorosa, a gente não se conforma até hoje com isso.
A atriz acredita que parte do carinho que recebe do público está ligada ao afeto construído por Paulo ao longo da vida:
— Vou ser eternamente grata a ele. Sou herdeira do amor que as pessoas têm por ele e procuro continuar plantando um pouco dessas mensagens de liberdade, para que as pessoas possam ser quem são e amar quem quiserem.
Mesmo reconhecendo a importância de Marcelina em sua trajetória, Mariana entende que parte do humor presente na franquia envelheceu de forma problemática.
— Não se trata de renegar. Trata-se de entender que aquilo faz parte de um momento que passou e que a gente precisa se atualizar. A verdade é que Marcelina envelheceu mal. O primeiro filme é carregado de piadas gordofóbicas, e não dá mais para normalizar isso. Tanto que as piadas do segundo e do terceiro filme já não tiveram mais esse tom. Marcelina reforça muitos estereótipos que eu tento o tempo inteiro combater. Inclusive, muita gente me conta casos de meninas que sofreram e ainda sofrem bullying por causa das associações feitas com a personagem.
Aos 46 anos, Mariana também tem pensado nos próximos passos da carreira e admite sentir falta da televisão, desde que os convites tragam desafios diferentes dos que recebeu no passado. Sua última participação em novelas foi em “A força do querer”, em 2017.
— Estou com saudade de fazer televisão, de fazer novela, porque é uma coisa que sempre sonhei desde criança. Mas só quero voltar se for para fazer algo diferente. Se for para fazer a gordinha engraçada que vai ter problemas de autoestima e ser rejeitada, não me interessa. Estou na batalha por personagens que tenham a ver com a minha idade — arremata.
Créditos: Bruno Nunes (texto e entrevista) e Aralume Fotografia (imagem)




