‘Não passei pano’

abril 29, 2026

O jornalista Carlos Jardim avalia o legado de Nelson Rodrigues, retratado por ele em peça que marca sua volta ao teatro

Carlos Jardim tem no jornalismo mais do que uma vocação; uma paixão. A música é outra delas. O teatro também. A ponto de dedicar parte de sua jornada de trabalho a este que ele especifica como “Vício incurável”. Sim, Carlos Jardim está de volta ao teatro – e em dose dupla. Ele assina a direção e a dramaturgia de “Nelson Rodrigues, o passado sempre tem razão”, solo no qual o personagem-título é interpretado por Bruce Gomlevsky.

Em meio ao corre-corre que precede a estreia, marcada para esta quinta (29), no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro, Jardim encontrou tempo para trocar uma ideia com NEW MAG. E um dos temas tratados foi seu interesse pelo legado daquele que é (e o verbo pode muito bem estar ainda no presente) um ás da crônica jornalística e um dos mais importantes dramaturgos brasileiros.

— A dramaturgia do Nelson sacudiu o teatro brasileiro e é, até hoje, muito atual. E as crônicas são retratos geniais da alma brasileira, com todas as nossas contradições. Em tudo o Nelson colocou muito humor e muita vontade de provocar o leitor ou o espectador. Acho essa coragem dele fascinante – pontua Jardim sobre as duas facetas mais célebres do personagem levado por ele à cena.

No mundo polarizado de hoje, quando as redes sociais servem de púlpito a opiniões que, muitas vezes, pregam a desinformação, Carlos não se deixou intimidar pelas contradições do personagem, cuja relevância, segundo ele, não está maculada:

— Numa frase muito reveladora, Nelson diz: “sou um ultra subversivo em todos os sentidos”. Reacionário politicamente, mas também com pensamentos bem avançados pra época. Um ser contraditório e de uma riqueza ímpar. Quanto mais polarizado fica o mundo, mais o Nelson se torna relevante.

Bruce Gomlevsky caracterizado como Nelson Rodrigues na sede do Fluminense, time pelo qual o dramaturgo torcia

Esse olhar não foi perdido ao longo do mergulho no universo rodrigueano. E fundamentou também uma escolha importante: a de não romantizar o personagem, pintando com cores mais brandas aquele que sabia carregar nas tintas.

—  O lado machista e a maneira como ele retratava a mulher são coisas que a gente não pode – e não quer! – levar à cena nos dias de hoje – pontua o jornalista sendo categórico num fato: — Mas não passei pano: deixei alguns pensamentos e frases dele que mostram esse lado sombrio.

A encenação marca a volta de Jardim ao teatro três anos após adaptar para os palcos a coletânea “Textos cruéis de mais para serem lidos”. E tudo indica que o jornalista foi picado pela mosca azul da ribalta, como ele entrega:

—  Teatro é um vício sem cura (risos). Tenho mais dois projetos em andamento.

Em uma de suas célebres frases, Nelson Rodrigues recomendava aos jovens que envelhecessem. Ele falava isso amparado pela certeza de que o passado nos ensina tudo. Carlos não somente concorda com essa máxima quanto destaca o quão amalgamada ao presente está essa instância temporal.

—  Sem dúvida nenhuma o passado sempre tem razão. Outra frase dele sobre isso é: “a toda hora, em toda parte, a vida injeta o passado no presente”. Profético é atualíssimo! – arremata ele.

Então, que sejam abertas as cortinas àquele que fez um retrato fidedigno do Brasil. E o resultado mantém-se nítido ainda hoje.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto), divulgação (alto) e Dalton Valério (imagem Bruce)

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