‘Não interessa o luxo pela ostentação’

setembro 18, 2026

Michelle Novaes dá nova guinada profissional e avalia o boom do mercado imobiliário no Rio, aposta na Cultura como bem e garante que o luxo está na simplicidade

Michelle Novaes era ainda bebê quando, em 1977, Renata Sorrah estrelou no Brasil “Afinal, uma mulher de negócios”, com texto de Fassbinder (1945-1982). A trama, escrita no início daquela década, tratava de uma mulher que rompia com estigmas patriarcais e com o fato de ser uma mulher-objeto. O mundo mudou, e as mulheres ocupam hoje postos até então restritos aos homens. E Michelle é prova disso. Ela é muito mais do que uma mulher de negócios: uma gestora com faro fino a oportunidades e olhar criterioso às engrenagens do mercado. Antes de brilhar no setor notarial, onde atuou por 22 anos, conciliou a graduação em Direito com o trabalho como aeromoça. “Na aviação, você entende que existem procedimentos que não podem falhar”, pontua num paralelo entre o aprendizado nos dois ofícios: “As duas me ensinaram algo muito parecido: responsabilidade”. Michelle dá agora nova guinada na vida profissional. Ao lado de Karine e de Marcos Saceanu, unem conhecimento e experiências na Kaselle, imobiliária com foco no mercado de luxo. A mira é certeira e nada tem de ostentação. “Há coisas caríssimas que nada significam”, atesta Michelle nesta entrevista ao NEW MAG. A seguir, a gestora fala sobre aprimoramento, empreendedorismo, oportunidades (“O mercado imobiliário vive momento de redescoberta das cidades”), defende a gestão humanizada (“Nenhuma estrutura funciona sem pessoas”) e aponta a Cultura como item de primeira necessidade (“A Cultura explica quem somos”). E o que é um luxo para ela, afinal? “Gostar da vida que você construiu”. E, em se tratando de Michelle Novaes, esta construção tem na solidez sua pedra fundamental.

Você atuou no setor notarial por 22 anos e envereda agora pelo mercado imobiliário voltado ao luxo. O que te motiva a dar esta nova diretriz à tua vida?

Não sinto que abandonei uma história para começar outra. Sinto que levei comigo tudo o que construí ao longo desses 22 anos: confiança, responsabilidade, relações e, principalmente, pessoas. O mercado imobiliário entrou na minha vida como uma possibilidade de continuar fazendo aquilo em que sempre acreditei: conectar pessoas, cuidar de patrimônio, entender histórias e participar de decisões importantes na vida de alguém. Porque uma casa nunca é apenas uma casa. O luxo veio quase como consequência. Mas o que me interessa não é o luxo pela ostentação. É o luxo que tem identidade, arquitetura, bem-estar, serviço, cuidado e verdade. Gosto de construir coisas. E gosto ainda mais de construir com gente ao meu lado. Nunca acreditei em time atrás de líder. Para mim, time está ao lado. Eu nunca cheguei a lugar algum sozinha e não tenho nenhuma intenção de caminhar sozinha daqui para frente.

O Rio expandiu-se por anos para a Zona Oeste e, hoje, indícios apontam para a procura por áreas como o Centro e bairros como a Tijuca, Ipanema e Leblon. Em São Paulo a oferta é crescente. Há planos de abrir o leque de serviços a outras capitais brasileiras?

Sim, mas sem a ansiedade de estar em todos os lugares. Acredito muito mais em presença relevante do que em expansão por expansão. O mercado imobiliário vive um momento interessante de redescoberta das cidades. O Centro do Rio, por exemplo, passa por uma ressignificação muito importante. Ao mesmo tempo, bairros consolidados continuam extremamente desejados porque carregam história, serviço, mobilidade e identidade. A Kaselle nasceu no Rio, mas não nasceu com fronteiras. Temos relacionamentos, parceiros e clientes que naturalmente nos levam para outras cidades e também para fora do Brasil. Só que existe uma coisa da qual eu não abro mão: crescer sem perder a capacidade de olhar no olho. Quando você perde isso, pode até aumentar de tamanho, mas talvez diminua de valor.

O mercado do luxo cresceu no Brasil quase 30% entre 2022 e 2024. Podemos dizer que esse nicho vive um bom momento ou é preciso ainda certa cautela?

O mercado vive um bom momento, mas eu sempre teria cautela com qualquer mercado analisado apenas pelos números. O consumidor de alto padrão mudou muito. Hoje ele não compra simplesmente metragem, endereço ou acabamento. Ele compra tempo, experiência, privacidade, segurança, bem-estar, arquitetura, serviço e pertencimento. E isso muda completamente a lógica do mercado. Há espaço para crescer, sim, principalmente para quem entende que luxo não significa apenas preço alto. Um imóvel caro pode não ter absolutamente nada de luxo. Luxo exige excelência, consistência e percepção de valor. O mercado está bom para quem entrega verdade. Para quem apenas coloca uma etiqueta de luxo em cima de um produto, aí eu teria muito mais cautela.

O que as experiências na aviação e no setor notarial te ensinaram de mais importante?

As duas me ensinaram algo muito parecido: responsabilidade. Na aviação, você entende muito cedo que existem procedimentos que não podem falhar e que cada pessoa dentro de uma operação importa. No setor notarial, aprendi talvez a palavra mais importante da minha vida profissional: confiança. Durante 22 anos, pessoas colocaram diante de mim patrimônio, decisões familiares, empresas, casamentos, separações, sucessões e histórias inteiras. Isso cria uma consciência muito grande sobre responsabilidade. Mas talvez o maior aprendizado tenha sido outro: nenhuma estrutura funciona sem pessoas. Processos são fundamentais. Tecnologia é fundamental. Gestão é fundamental. Mas, no final, sempre existe alguém confiando em alguém.

A gestão humanitária, que valoriza o bem-estar profissional e o meio ambiente, é uma das tuas marcas. Esse ainda é o futuro ou já é o presente do mundo corporativo?

Já deveria ser o presente. Durante muito tempo, algumas empresas trataram cuidado, propósito e bem-estar quase como acessórios de gestão. Para mim, eles fazem parte da própria estratégia. Uma empresa não é um CNPJ. Uma empresa é um conjunto de pessoas. E pessoas precisam ser respeitadas, ouvidas, desenvolvidas e reconhecidas. Isso não significa ausência de cobrança, pelo contrário. Eu acredito muito em responsabilidade, resultado e excelência. Mas acredito que seja perfeitamente possível exigir muito sem diminuir ninguém. Eu nunca gostei da ideia de um líder à frente e um time atrás. O meu time está ao meu lado. E há também uma responsabilidade maior das empresas com o mundo em que estão inseridas. Não acredito mais em negócios que prosperem de costas para a sociedade ou para o meio ambiente.

Como gestora, você apoia e incentiva o diálogo entre os setores Corporativo e Cultural. A Cultura precisa ser vista como um item básico e vital?

A cultura não é decoração de uma sociedade. É uma das coisas que explicam quem somos. Ela preserva memória, provoca pensamento, produz identidade, gera pertencimento e também movimenta a economia. Gosto muito dessa aproximação entre o ambiente empresarial, a cultura e o terceiro setor porque acredito que o capital precisa circular, não apenas financeiramente, mas socialmente. Uma empresa pode gerar lucro e, ao mesmo tempo, gerar acesso, oportunidade e transformação. Uma coisa não exclui a outra. Aliás, talvez um dos desafios do nosso tempo seja justamente fazer essas pontes.

Você é ousada e discreta. Qual das tuas características você vê na Julieta, sua filha?

A Julieta tem uma personalidade muito própria, e faço muita questão de preservar isso. Talvez eu reconheça nela uma certa coragem para ser quem ela é, e isso me deixa feliz. Mais do que enxergar nela características minhas, espero que ela enxergue algumas coisas em mim. Quero que minha filha possa assistir, em vida, à mãe dela tentando fazer alguma diferença na vida de alguém. Quero que ela entenda que sucesso pode ser bonito, que trabalho pode ter propósito e que dinheiro é importante, mas existem lugares essenciais da vida onde ele não ocupa espaço: família, amor, saúde e amizade. Se ela aprender isso vendo como eu vivo talvez esse seja o meu maior legado.

O que você considera hoje um luxo?

Ter tempo. Tempo com quem eu amo. Saúde. Poder fazer escolhas. Estar em paz. Ter amigos verdadeiros. Estar diante de uma mesa onde não preciso representar absolutamente nada. Luxo é acordar e gostar da vida que você construiu. Talvez por trabalhar justamente com um mercado de luxo, eu tenha aprendido a separar ainda mais preço de valor. Há coisas caríssimas que nada significam. E existem coisas que não custam absolutamente nada e são impossíveis de comprar. Hoje, para mim, isso é luxo.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e entrevista) e divulgação (imagem)

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