Leandro Souto Maior e Ricardo Schott, craques do jornalismo musical, preparavam o guia “Heróis da guitarra” (Irmãos Vitale), que, lançado em 2014, elenca os notáveis guitarristas brasileiros. E coube ao primeiro, mais afeito ao blues e ao classic rock, entrevistar Luiz Carlini. E lá foi ele para São Paulo, onde foi recebido na casa onde o músico viveu por anos, próxima àquela onde surgiu Os Mutantes, grupo formado pelos irmãos Arnaldo e Sergio Dias Batista e por Rita Lee (1947-2023), a quem Carlini acompanharia na mítica banda Tutti Frutti em álbuns como “Atrás do porto… tem uma cidade” (1972).
Uma geladeira em plena sala chamou a atenção de Leandro. Papo vai, papo vem e, lá pelas tantas, Carlini pediu ao visitante que pegasse no móvel uma água. E, ao abrir a porta, o jornalista ficou boquiaberto com o que encontrou no eletrodoméstico.
— A geladeira estava desativada e era usada como um armário. E ali estava uma profusão de pedais, muitos deles dos anos 1970 e usados em shows e nas gravações dos solos eternizados por ele – recorda-se, Leandro, reconhecendo que aquilo era uma pegadinha pregada nas visitas pelo instrumentista, que morreu na noite da última quinta-feira (07), aos 73 anos.
Luiz Carlini foi, juntamente com Lanny Gordin (1951-2023) e com Sérgio Dias, pioneiro ao abrir na música brasileira picadas pelas quais passariam, nas décadas seguintes, futuros guitar heroes como Pepeu Gomes, Lulu Santos e Roberto Frejat.
— O Lanny e o Sérgio Dias trouxeram a guitarra para o Brasil enquanto o Carlini manteve-se como uma espécie de mensageiro entre o que havia lá fora de mais inovador no segmento e a nossa música – avalia o jornalista sendo categórico: — O Carlini estava à altura de um Eric Clapton!
O solo de Carlini ouvido na gravação de “Ovelha negra”, uma das faixas de “Fruto proibido”(1975), antológico álbum de Rita, é apontado por Leandro como um dos mais emblemáticos da música brasileira, como ele salienta:
— Temos solos suntuosos na música brasileira como o de Toninho Horta na gravação de “O trem azul” (faixa do histórico LP “Clube da esquina”, de 1972), mas como o solo de “Ovelha negra não há igual. E o curioso é que ele é ouvido já no fim da faixa, e a música renasce a partir dele.
E está relacionada a esta gravação uma constatação feita pelo instrumentista na entrevista para o supracitado livro de Leandro e Schott. Carlini acompanhava Rita Lee em um lugar remoto do país quando, no hotel onde estava, ouviu a arrumadeira assobiando uma linha melódica que lhe soou familiar. Era justamente a do seu solo em “Ovelha negra”.
— O interessante é que ela não estava assobiando o refrão ou alguma outra parte cantada da música, mas o solo da guitarra, e isso o deixou comovido à beça – arremata o jornalista e escritor, radicado há dez anos em Visconde de Mauá, na Serra da Mantiqueira fluminense. Ali, ele toca o pub Casa Beatles, decorado com itens referentes aos fab four colecionados por ele e onde mantém acesa a chama da paixão pelo rock.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e divulgação (imagens)






