‘Não acho as críticas despropositadas’

junho 26, 2026

Sílvia Pfeifer brilha no teatro e avalia sua trajetória, das passarelas à TV, e opina sobre novelas, nudez, preconceito e os ganhos da maturidade

“Tudo a que me dediquei, fiz com seriedade”. A frase, assertiva, é dita com honestidade por Sílvia Pfeifer. A atriz chegou à meia-idade sem perder uma de suas qualidades: a de iluminar os lugares por onde passa ou decide estar. E eles podem ser as passarelas internacionais da moda, segmento no qual ela brilhou entre os anos 1970-80, a tela da TV ou o palco. É neste, em especial, onde ela mostra-se na sua plenitude. Sílvia atua em “Uma vida de amizade”, um dos grandes acontecimentos da atual cena teatral carioca. Na comédia, escrita por Gustavo Pinheiro, a atriz brilha em pé de igualdade com Adriana Garambone e Helena Fernandez. “Estou realizada e fazendo o que gosto”, reconhece ela, por telefone, nesta entrevista ao NEW MAG. E tem mesmo razões para estar. O espetáculo, dirigido por Fernando Philbert, é um sucesso. Silvia não esconde o entusiasmo e, tomada por ele, avalia sua trajetória, da labuta como modelo, quando contou com o apoio de Betty Lago (1955-2015), ao início na TV, em “Boca do lixo”, série da TV Globo, para onde foi levada por Bia Lessa. Sílvia é grata a todas elas e estende o reconhecimento a Marília Pêra (1943-2015) e à crítica especializada. “A vida é feita de experiências”, pontua. E todas elas podem ser válidas quando a alma não é pequena. E este é o caso de Sílvia Pfeifer.

É lindo ver você plena, segura e tão à vontade em cena. O que exatamente te levou a este estado de espírito?

Como é bom ouvir isso! Isso vem de um processo de vida em que, no caso do trabalho como atriz, sempre busquei me aprimorar. Foi difícil… Recebi uma saraivada de críticas e, hoje, não as acho despropositadas. Comecei na profissão já com oportunidades grandes e, claro, isso gerou muita expectativa também. “Quem é essa aí no papel principal?”, as pessoas perguntavam. Uma modelo. Então, isso gerou um estigma que me acompanhou por anos. Hoje, aos 68 anos, estou envolvida com um projeto que vem da vontade de nós três de falarmos de determinados assuntos. E somado a isso há o encontro com o Philbert (o diretor Fernando Philbert). Numa das nossas reuniões, ele ficou ouvindo a gente conversar e sugeriu que aquelas falas davam uma peça. Levamos a ideia ao Gustavo (Pinheiro, autor do texto) que topou de cara.

O Philbert imprime o olhar dele sem que isso tenha um peso e de forma delicada…

Ele é muito sensível e nos trouxe muita segurança. Nossas interpretações estão muito bem cuidadas, e o mérito é dele. Aliado a isso está o texto, com o equilíbrio entre leveza, ironia, humor e reflexão. Estreamos em Portugal, e essa decisão foi ousada, mas importante. Um dos meus trabalhos recentes em TV foi lá (com a novela “Ouro verde”). Depois, um dos colaboradores, Sebastião Salgado (homônimo do fotógrafo), me convidou para um curta pelo qual fui indicada ao prêmio de Melhor Atriz. Quis retribuir, então, o acolhimento que recebi deles.

Vejo a figura da personagem morta como uma homenagem a Betty Lago… Essa suspeita faz sentido?

Muita gente tem essa mesma impressão, mas a personagem vem de um recurso dramático trazido pelo Gustavo, que é muito antenado. Há muitos dados na dramaturgia que são nossos, mas não todos. Helena é uma irmã minha. Já passamos o Natal juntas, por exemplo. A Garambone eu a conheço há tempos. Sou dez anos mais velha do que elas, mas somos muito ligadas, mas nunca moramos juntas. E o mesmo vale em relação à Betty, que me deu muita força quando trabalhei como modelo, tanto em Nova York quanto em Paris. E digo o mesmo sobre a Carla Souza Lima, que também morreu. Eu morava num hotel em Milão, e ela me salvou de uma gripe fortíssima me acolhendo na casa dela. Mas acho bonito isso de as pessoas associarem a personagem à Betty. Isso mostra que ela foi marcante não somente no meio da moda como na vida artística.

Sua personagem na peça é uma das muitas mulheres brasileiras que lidam, caladas, com as agressões dos companheiros. Você viveu algo semelhante em algum momento?

Nunca! Tive um casamento longo (com o empresário Nelson Chamma) todo pautado pelo carinho e pelo respeito. O Nelson sempre me deu força em tudo na minha vida, no tempo em que trabalhei como modelo e, depois, quando quis ser atriz. Helena, Garambone e eu quisemos falar de coisas ligadas à gente, como a questão do etarismo, e também às mulheres, e entra aí o machismo estrutural. A mulher foi vista, ao longo de séculos, como um objeto, e esta visão precisa mudar. Um homem quando repara em outro não diz, por exemplo, como ele está vestido. Quando se trata de uma mulher, o olhar está sempre relacionado ao corpo e à libido.

Você tem dois filhos, de gêneros diferentes e ambos adultos. Conseguiu dar a eles uma educação igualitária?

Acredito que sim. A vida é feita de experiências, e a mulher tem liberdade para escolhê-las.  Sempre vi minha filha como um indivíduo. E disse a ela para viver as experiências dela com consciência e responsabilidade, mas sem deixar de vivê-las. Na época dos meus pais, as preocupações eram a de o filho se envolver com drogas e a de a menina engravidar. Hoje as preocupações são outras. A minha é a de meus filhos chegarem bem nas suas casas. Minha filha mora sozinha, e meu filho, com a namorada, e sempre peço para avisarem quando chegam, pode ser a hora que for.

Boca do Lixo foi sua porta de entrada para a TV. Você virava, aos 32 anos, uma chave na sua vida. O que foi mais intimidador naquele momento?

Sinceramente, sou corajosa, às vezes até por ingenuidade. Estava tão decidida a ser atriz que não me deixei intimidar por nada. Antes, eu havia sido escolhida para atuar no cinema (em “A grande arte”, filme de Walter Salles), mas acabou não rolando. Fui a Nova York, fiz vários desfiles, mas já estava decidida a abraçar uma nova profissão.

A Bia Lessa foi muito importante para isso, não?

A Bia fez mais do que me preparar naquele começo: ela me pegou pela mão e me levou para conversar com o Daniel Filho na TV Globo. Aí o Talma (saudoso diretor Roberto Talma) me escolheu para o Boca. Foi um processo muito intenso. Gravamos primeiramente em São Paulo e viemos para o Rio para as cenas de estúdio. Decorava minhas falas de um dia para o outro e, às vezes, entre uma cena e outra. As demandas eram muitas e muito grandes.

Foi tranquilo fazer as cenas de nudez da tua personagem?

O conselho recebido de um amigo fez toda a diferença. Ele me disse para que, quando precisasse ficar nua, para tirar a roupa o mais rápido possível. E explicava que despir-se é mais intimidador do que a nudez em si, e estava certo. O Talma foi fundamental também. As cenas eram coreografadas, afinal, dentro daquele contexto, o mais importante mesmo era o posicionamento da câmera.

Podemos dizer que você lavou a égua com Leia Mezenga, sua personagem em O Rei do Gado?

Sim, mas muita gente viu a Léa como uma filha da p*t@. Por que? Ah, ela traia o marido… Acontece que parte do público esqueceu a mágoa que ela tinha daquele homem, que só tinha olhos para o gado dele. Ela queria alguém que tivesse desejo por ela. Tudo bem, ela acabou envolvida com um homem que batia nela (Ralf, personagem de Oscar Magrini), mas a vida é feita de tentativas e, nela, somos movidos pelo impulso do desejo. A afazia causada pela depressão vem justamente da perda do desejo.

Alguma mágoa por não ter rolado o filme com o Walter Salles?

Nenhuma! Frustração, talvez. Me preparei para aquele trabalho e não o fiz. Houve um atraso nas filmagens e, nesse ínterim, muita coisa mudou. Se não fui escolhida, o Walter teve, como diretor e produtor, razões para isso. Agora posso dizer: isso acontece. Um diretor precisa priorizar o que é melhor para a obra e não o que ele quer para si.

Vinte e oito anos depois de Torre de Babel, vimos em Guerreiros do Sol, cenas de beijos e afagos entre mulheres. Demorou muito para a TV atingir este patamar?

Demorou, né? Uma das funções da TV é a de trazer os questionamentos de uma determinada época e fazer com que a sociedade reflita sobre eles. Acontece que isso não é feito ali de forma aprofundada e nem há tempo para isso…

A sinopse previa o envolvimento entre a tua personagem e a da Glória Menezes. Acha que houve preconceito em razão de a Glória ser um patrimônio da TV?

Em momento nenhum me foi dito se as nossas personagens se envolveriam de fato ou se a minha ficaria atraída pela dela. Houve, acho, que uma série de fatores. Já no primeiro capítulo, o personagem do Tony (Ramos) matava a mulher com uma pá, o Antony (Marcelo Antony) aparecia já em crise como dependente químico, e a minha personagem e a da Torloni eram vistas no banho, em chuveiros diferentes, diga-se, e falando de coisas corriqueiras num ambiente esfumaçado. Há vários rumores sobre isso. Um deles diz que a emissora recebeu cartas de escolas preocupadas com as temáticas da novela. É difícil dizer exatamente o que houve.

Você teve oportunidade de ser dirigida no teatro por Marília Pêra, e vivendo Callas, a mais importante cantora líricas do mundo. Foi sofrido o processo ou foi enriquecedor?

Cada encontro com a Marília valia como uma aula. Eu saía dos ensaios sempre com uma frase na cabeça. O processo de leituras do texto foi breve e logo passamos para os ensaios. Durante o processo, o Cássio (Reis), que tinha um trabalho apalavrado, precisou se afastar por duas semanas, e segui trabalhando com Marília. Quando ele voltou, a peça já estava toda levantada e com as cenas marcadas. O processo foi difícil em razão do tempo que tivemos para levantar o espetáculo, mas o aprendizado foi imenso. Ela dizia que o ator tem de entrar no palco como se aquele fosse o último dia da sua vida.

Houve um tempo em que você vendeu brownies. Parte do público estranhou o fato por achar que artista só pode  estar na crista da onda. Algo chegou a te magoar?

Sabe que estou doida para voltar a fazer? Minha mãe cozinhava muito bem, e tenho mão boa para doces. Uma coisa que fazia nos aniversários dos amigos era presenteá-los com um belo de um prato sobre o qual colocava um doce feito por mim. A ideia dos brownies surgiu na pandemia. Minha irmã do meio me ajudava, mas depois ela conseguiu um trabalho e paramos. A casa onde morava, que tinha uma cozinha grande, foi vendida, mas quero retomar isso em algum momento. Posso ter outros momentos de entressafra na profissão. A gente não nasce para ser uma coisa só. Cozinhar me dá prazer e todo mundo elogia, então, por que não retomar?

Estar próxima de completar sete décadas de vida te deixa serena ou apreensiva?

Não exatamente apreensiva e também não totalmente serena. Estar serena demais não é bom. Estou realizada e fazendo o que gosto. Tudo a que me dediquei, fiz com seriedade. Estou feliz com o que tenho hoje: meus filhos estão criados e estou bem fisicamente, afetivamente e emocionalmente. Envelhecer pode ser bonito. Não tenho mais a flexibilidade de antes? Tudo bem. Não me violentei esteticamente: as intervenções que fiz foram sutis. Um exercício que faço é o de aceitar o que virá pela frente. A vida foi generosa comigo.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e entrevista) e Nil Caniné (imagem)

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