
Ivone Hoffmann levanta o tampo de um baú e retira dele uma fotografia. A imagem é a de Rubens Corrêa (1931-1996). Exibindo o retrato à plateia, a atriz narra episódio marcante vivido com o artista. Ivone estava já no ônibus que a levaria do Rio de Janeiro – e a abandonar profissão de atriz. Corrêa fez ela descer do veículo e, de bate-pronto, perguntou de quanto ela precisaria para manter-se na cidade. “Com isso, ele fez com que eu não desistisse”, arremata a grande atriz.
A narrativa é apenas um dos relatos tocantes que compõem a dramaturgia de “As Marias de Belém do Pará – Somos todas Marias”. Do alto dos seus 86 anos, Ivone não está sozinha em cena. Ela divide o palco com outras mulheres que revolucionaram costumes e contribuíram para dar à profissão a dignidade que ela tem hoje. E são elas Maria Pompeu (89) – e a mais longeva delas –, Itala Nandi (84), Bete Mendes (77), Veluma (73) e Mariah da Penha (67). O espetáculo ocupa o Sesc Ginástico, Centro do Rio de Janeiro, e teve, na noite da última quarta-feira (19), sessão para convidados numa noite que contou ainda com as participações de Joana Fomm e Hildegard Angel.
Um dos propósitos do teatro é o de ser uma celebração. E Eduardo Barata bebe nesta fonte. E, a partir dela, desenrola a linha dramatúrgica do espetáculo, também por ele dirigido numa proposta que evoca claramente o tom litúrgico do teatro de Amir Haddad, presente à sessão. A proposta é a de louvar o legado daquelas seis damas e também resgatar memórias ao celebrar outras tantas mulheres por elas evocadas (Eva Wilma, Dina Sfat, Elke Maravilha..). E outras mais, vistas em estandartes com imagens de Yara Amaral (1936-1988), Jacqueline Laurence (1932-2024) e, como não podiam faltar, Laura Cardoso e Glória Menezes, levadas de nós na última terça-feira (18).

Às narrativas misturam-se temas do cancioneiro paraense – como “Esse Rio é minha rua” (Paula André/Ruy Barata), imortalizada por Fafá de Belém, e “No meio do Pitiú”, de Dona Onete. E, para dar liga entre músicas e dramaturgia, Barata (cuja ascendência é paraense) ambienta a ação na reunião de um condomínio denominado Galharufa (objeto de boa sorte dado a um ator estreante por um veterano). Ali, é cultuada também a imagem de N. Sra de Nazaré, a quem a população paraense refere-se carinhosamente como Nazinha.
Os números musicais são muito bem executados, e o mérito disso deve-se à presença em cena do grupo Carimbaby e à direção musical segura do cantor e compositor paraense Marco André. Mas o alicerce do espetáculo está naquilo que é reavivado pelas seis atrizes e por suas convidadas (cujas participações alternam-se ao longo da temporada).
Em razão da idade avançada, Maria Pompeu passa sentada a maior parte da apresentação, o que não ofusca o brilho da artista, cuja trajetória remete ao Teatro de Revista (com ela figurando entre as Certinhas do Lalau’, ranking de beldades eleitas por Stanislaw Ponte Preta). Plenamente lúcida, não titubeou em momento algum com o texto e emocionou os presentes ao recitar o “Soneto da fidelidade”, de Vinicius de Moares (1913-1980), numa evocação a “Se todos fossem iguais ao Moraes”, espetáculo por ela estrelado e produzido nos anos 1990.

Comovente também foi ouvir Itala discorrer sobre Henriette Morineau (1908-1990) e creditar a “um cochilo” (no sentido literal) a liberação pela censura de “Na selva das cidades”, espetáculo no qual a atriz fez História (dentre as outras que fez) ao protagonizar o primeiro nu frontal do teatro brasileiro (num feito equiparado ao de Norma Bengell no cinema).
— A peça foi liberada e soubemos depois que os censores – e eles eram quatro – dormiram durante boa parte da apresentação. Isso abriu precedentes para liberar outras peças em que os atores ficavam nus, como “Hair” – pontuou a atriz.
Cada uma ali rompeu padrões e quebrou tabus vigentes. Veluma é celebrada como a primeira manequim negra a exibir seus cachos naturais e a sorrir quando desfilava. E enquanto Mariah da Penha, uma das atrizes-fetiche de Amir Haddad, defende que o teatro pode ser feito em qualquer lugar (“Na rua e por que não?”), Bete rememora a chancela recebida de Eva Wilma (1933-2021) na sua estreia teatral: — “Você está pronta”, ela me disse.

E, por falar em Bete, coube a ela reverter o jogo teatral com a entrada em cena de Joana Fomm e Hildegard Angel, confundida pela emocionada atriz com Heloneida Studart (1932-2007). Rápida no gatilho, a jornalista tratou de elencar as semelhanças entre as duas, ferrenhas defensoras da liberdade e dos Direitos Humanos. Corrigido o lapso, coube a Bete entrevistar Hilde e saber se ela tinha saudades da atriz que fora.
— Com os assassinatos do meu irmão (Stuart Angel) e com o da minha mãe (Zuzu Angel), fui aconselhada a deixar o teatro. Abracei então o jornalismo, profissão que já exercia, e fiz da palavra meu instrumento a favor da verdade. E, em meio a tantas barbaridades cometidas naquela época, acho que nunca deixei de ser atriz. Afinal, precisei criar uma personagem para me proteger – pontuou, emocionada e sendo muito aplaudida.
Duda Barata, que defende sua Dira (numa alusão-homenagem a Dira Paes) com muita segurança, pede a palavra para louvar sua ancestralidade. E a jovem o faz cantando. O tema escolhido é “Foi assim”, outro da dupla Paulo André e Rui Barata, compositores muito presentes nos primeiros LPs de Fafá de Belém e dos quais a atriz vem a ser prima e sobrinha-neta, respectivamente. O número resulta gracioso, e Duda mostra ter tudo para, a exemplo de suas colegas de cena, trilhar um caminho bonito nos palcos.
O teatro como celebração de um país onde a diversidade é uma de suas marcas. Este é o leitmotiv de “As Marias de Belém do Pará – Somos todas Marias”. O palco é também um altar. E, nele, Maria Pompeu, Ivone Hoffmann, Itala Nandi, Bete Mendes, Veluma e Mariah da Penha legitimam um país onde a arte é um de seus principais commodities. Que elas, então, clareiem a visão daqueles que teimam em enxergar os artistas como inimigos. Amém!
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Cristina Granato (imagens)







