Memórias, relatos ouvidos e vividos dentro da própria casa e personagens que povoam o imaginário de Tina Correia dão origem ao novo livro da escritora. Em “Fidiguido”, ela revisita o Nordeste de sua infância para construir uma narrativa marcada pela oralidade, pelo humor, pela cultura popular e por histórias de uma pequena cidade onde todos parecem saber da vida de todos.
— A inspiração veio das histórias que eu vivi e ouvi na minha família no Nordeste, especificamente, em Aracaju, onde nasci. Ainda criança, muitas vezes flagrei as fofocas dos adultos sussurradas pelos cantos da casa. Foi assim que eu soube dos casos de incesto e do amigo da família que mantinha duas mulheres em casa, a esposa e a cunhada. Só quando cresci entendi o que realmente aconteceram — conta Tina em depoimento exclusivo ao NEW MAG.
O lançamento de “Fidiguido” vai acontecer no dia 08 de setembro, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, Rio de Janeiro. A autora também levou à ficção outras situações que experimentou na própria infância, transformando lembranças pessoais em elementos da trajetória de um dos personagens.
— Alguns dos castigos impostos ao personagem mirim, por exemplo, eu senti na pele aos 3 ou 4 anos, como folhear uma revista sem fazer barulho ou aprender a ler as horas apenas olhando para o relógio — recorda a escritora.
Se algumas situações vieram diretamente das memórias familiares, outros personagens nasceram da mistura entre pessoas próximas e figuras que faziam parte do imaginário popular de Aracaju. É o caso de Guido, o lendário Homem das Águas e protagonista da narrativa.
— A inspiração para criar o personagem veio do meu tio que era embarcadiço e de uma figura lendária da cidade, o prático conhecido como Zé Peixe por sua intimidade com o mar. Personagem folclórico, Zé Peixe ia buscar os navios em alto mar a nado, e assim voltava à terra. As histórias que eu ouvia dele eram surreais. E eu cresci fantasiando essa figura lendária, a quem eram atribuídas inúmeras peripécias na água.
Ao redor de Guido, circulam personagens como a bela e enigmática Engrácia, a exuberante Resplendor e Fidiguido, que dá nome ao livro. Quando Fidiguido entra em cena, segredos antigos, afetos, violências e disputas familiares passam a movimentar a narrativa. A pequena cidade nordestina criada por Tina ganha vida por meio de serenatas, festas, cordéis, paixões e expressões regionais. “Fidiguido” nasce, portanto, do encontro entre memória e imaginação.
Créditos: Bruno Nunes (texto) e reprodução / Internet (imagem)





