Se a ciência cura o corpo, é na arte que João Carlos Martins encontrou o remédio para a alma. E, certamente, o combustível para uma das trajetórias mais resilientes da história da música mundial. Reconhecido como um dos maiores intérpretes de Bach (1685-1750), o maestro brasileiro é a prova viva de que a genialidade não reside apenas na técnica perfeita, mas na capacidade inabalável de se reinventar. Após enfrentar dezenas de cirurgias e o diagnóstico de distonia focal que o afastou do piano, João não apenas voltou à música como maestro, mas transformou sua “teimosia” em missão. Hoje, ele não se apresenta apenas nas prestigiadas salas de concerto pelo planeta, ele ocupa as praças, as periferias e o coração de crianças que veem nele um mestre que os guia a um futuro com mais dignidade. Nesta entrevista exclusiva ao NEW MAG, o maestro fala de seu projeto “O pianista e o poeta”, em parceria com o escritor Gabriel Chalita, que, a partir da direção de Jorge Takla, funde as melodias de clássicos de Beethoven (1770-1827) e Chopin (1810-1849) às palavras de autores como Fernando Pessoa (1888-1935) e Clarice Lispector (1920-1977). O espetáculo estará em cartaz no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro, nos dias 25 e 26 deste mês. Com a lucidez de quem conviveu com Tom Jobim (1927-1994) e a generosidade de quem aponta André Mehmari como o sucessor de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), o artista reflete sobre a “falta de alma” da inteligência artificial, a importância de tirar a música clássica das “torres de marfim”, e o legado que ele quer deixar para as próximas gerações.
O espetáculo “O pianista e o poeta”, ao lado de Gabriel Chalita, propõe um diálogo entre música e literatura. Como nasceu essa ideia?
Nasceu de uma experiência orgânica no final de 2023. Eu estava tocando a “Ária da quarta corda”, de Bach, e pedi para o Chalita recitar. Ficou tão bonito que eu, que não sou viciado em Instagram, postei e vi que deu uma repercussão enorme. Falei para o Chalita: “Vamos pensar nas melhores poesias, e penso em melodias que chegam fundo na alma”. O Jorge Takla entrou para dirigir e teve que passar a postura do Chalita de palestrante para ator, o que aconteceu rápido, porque ele tem muito talento. No palco, funciona assim: de repente estou tocando um prelúdio de Bach e, durante a música, entra a poesia; ou a música entra no meio do texto, mas eles não se interferem nesse espetáculo, pelo contrário, se completam. Bach, em alemão, significa “riacho”, mas Beethoven dizia que deveria significar “oceano”, pela grandiosidade de sua obra. No espetáculo, usamos um vídeo meu dos anos 1970, montado pelo Boni para o “Fantástico”, onde toco Bach em cima de uma pedra no oceano. Quando eu falo essa frase sobre Bach e Beethoven, o vídeo entra no LED.
Como é a amizade entre o senhor e o Gabriel?
A nossa amizade já tem mais de 30 anos. O Chalita tem uma importância incrível, especialmente pelo que fez na educação em São Paulo, e traz essa bagagem para o palco. Ele selecionou textos de Clarice Lispector, Adélia Prado e Fernando Pessoa que se fundem à música. Ficou muito lindo. Recentemente, fizemos a apresentação no Teatro Amazonas, e, no final do espetáculo, tinha muita gente chorando. Costumo dizer que um ator, um artista, um músico, quando entra em palco, ele tem uma missão: o público tem que sair com uma lágrima nos olhos e um sorriso nos lábios. Porque a missão de um artista é transmitir emoção para o público. É para isso que ele está lá.
Mesmo em um mundo dominado pela tecnologia e pelo consumo rápido, as salas de concerto e o teatro seguem atraindo público, especialmente após a pandemia. Como o senhor vê esse movimento?
Veja o exemplo da Sala São Paulo: outro dia não cabia um mosquito! Defendo que a ciência cura o corpo e a arte cura a alma. Na pandemia, essa frase dizia tudo. Recentemente, usei um robô para abrir um concerto regendo Mozart na Avenida Paulista. Quando substituí o robô, a reação do público foi imediata, uma verdadeira comoção. O Bill Gates pode lutar a vida inteira, mas nunca vai conseguir construir um computador com alma. O único que foi um “computador com alma” foi Bach. A tecnologia avança, a inteligência artificial produz música, mas quando chegamos na palavra “alma”, a história muda. Falta alma à inteligência artificial. O público sente essa diferença, e é por isso que continua lotando os teatros.
Qual a visão que o senhor tem sobre a música clássica no Brasil hoje? O senhor acredita que ela está menos segmentada ou ainda está atrelada a um nicho?
Ela está mais pulverizada, mas falta os artistas saírem de suas “torres de marfim”. Eu vou à periferia de São Paulo, em lugares como São Mateus e São Miguel Paulista, e faço um teste: o músico da orquestra toca um compasso de uma melodia de 200 anos, e o público canta o segundo compasso imediatamente. Todo mundo conhece! Eu digo a eles: “Essa música tem 238 anos, as que vocês ouvem hoje, daqui a 15 dias não vão lembrar”. Se todos os artistas de ponta fizessem como Villa-Lobos e fossem ao encontro do povo, a situação seria outra.
Quando se apresentou com Maria Bethânia no Rio de Janeiro em 2022, o senhor perguntou à cantora se o Caetano iria vê-los. O que a música do Caetano representa para o senhor?
O Caetano é genial. Como cantor, ele tem uma voz profundamente íntima e afinada. Já o lado criativo do Caetano, incluindo as parcerias com o Gil, por ter amizade dos dois, fazem parte da história da música brasileira. Quando eu morava em Nova York, convivi muito com o Tom Jobim e com o João Gilberto, que eram meus amigos. Eles deram à música brasileira a mesma relevância que o jazz tem nos Estados Unidos. A nossa música passou a ser não só para o lazer do ouvinte, mas a importância sob o ponto de vista da criatividade e de influenciar outros gêneros musicais. Quanto a Bethânia, o timbre de voz dela é único, que você não encontra em nenhum lugar do mundo.
Como o senhor observa a nova geração de músicos brasileiros, como o maestro Carlos Prazeres e o pianista André Mehmari?
O Carlos Prazeres faz um trabalho na Bahia que é algo que realmente une tradição com inovação. Ele foi assistir a um concerto meu em Campinas e eu disse a ele: “Olha, o velho maestro está ficando um bebezinho, você é o meu herdeiro”. Ele é o meu herdeiro musical. Já o André Mehmari, eu vou fazer uma comparação que podem achar que vai longe demais, mas ele é uma espécie de Da Vinci da música, porque ele faz tudo. Ele toca todos os instrumentos, ele compõe no estilo mais clássico possível e explora o folclore brasileiro e chega à beira da genialidade. Em Nova York, depois de um concerto em que o apresentei, disse: “Vocês acabaram de ouvir uma peça do sucessor de Villa-Lobos no Brasil”. Porque o Villa-Lobos se interessava por Pixinguinha e por outros aspectos da música popular, e o Mehmari faz exatamente isso. Em 2022, eu estreei uma suíte dele no Carnegie Hall, e o teatro veio abaixo. Fiz questão de apresentá-lo ao público, e ele foi ovacionado. Mehmari é uma pessoa que transita por tudo com uma facilidade impressionante.
Sua vida já foi retratada em livro e no filme “João, o Maestro”. Como foi para o senhor revisitar a própria trajetória a partir desses olhares?
É gratificante ver documentários franceses e japoneses sobre minha vida, ou o desfile da escola de samba Vai-Vai em 2011, com que ganhamos o Carnaval. O Washington Olivetto, antes de morrer, escreveu na contracapa da minha biografia que “este maestro não tem conserto (com S)”. Mas, sinceramente, eu não acho que mereço tudo isso. Para mim, o legado começa agora. Estou como a Fernanda Montenegro me disse uma vez: “em trabalho de parto” para novos projetos. Meu foco agora é educação musical para crianças de 5 anos e dar dignidade aos músicos veteranos.
Por falar nisso, o senhor dedica sua carreira a democratizar a música clássica, atuando na introdução musical de jovens em situação de vulnerabilidade social. Qual a importância desse acesso?
A música muda o destino. Eu tenho a Orquestra Bachiana Senior para músicos acima de 65 anos e projetos para 15 mil crianças. Quero chegar a 1 milhão de crianças no mundo todo. Recentemente, vi uma flautista aposentada dizer que voltou a ter vida por causa da orquestra. Minha temporada se chama “Ouro e Prata” porque une o solista de 89 anos ao violinista prodígio de 10 anos. Apesar da distonia focal e de todos os diagnósticos negativos que recebi como pianista, hoje, como maestro, sinto que minha missão é transmitir emoção.
Existe uma tendência da sociedade de enxergar pessoas com deficiência como exceções, e não simplesmente como profissionais. O senhor sente que já sofreu capacitismo alguma vez?
O Tom Jobim me dizia que o sucesso no Brasil é quase um palavrão. Se você inova, sofre preconceito dos “narizes empinados”. Quando misturo música clássica com Fafá de Belém, os ortodoxos reclamam. Mas eu nunca desisto. Meu pai é minha grande inspiração: teve um câncer aos 37 anos, tiraram três quartos do estômago dele e deram seis meses de vida. Ele disse: “É porque não me conhecem”. Morreu aos 102 anos, lúcido, de acidente! Na festa de 100 anos dele, perguntaram se ele consultava médicos e ele respondeu: “Meus médicos já morreram há muito tempo”. Eu herdei essa teimosia.
Créditos: Bruno Nunes (texto e entrevista) e reprodução / Internet (imagem)





