‘Entramos na mente do Amyr’

outubro 11, 2026

Carlos Saldanha fala sobre os desafios de levar a travessia de Amyr Klink ao cinema em filme que encerrou o Festival do Rio

A travessia de Amyr Klink pelo Atlântico Sul feita em 1984 ganha uma nova dimensão em “100 dias”. O filme dirigido por Carlos Saldanha vai além dos desafios enfrentados pelo navegador em sua jornada solitária a remo. Inspirada no livro “Cem dias entre o céu e o mar”, a produção também explora as motivações pessoais do aventureiro e sua relação com a família. Saldanha e Filipe Bragança, que interpreta Amyr, falaram ao NEW MAG sobre os desafios de transformar uma história real em longa-metragem.

— Apesar de ser uma jornada no oceano ao longo de 100 dias, a travessia é repleta de eventos marcantes. Ele enfrentou de tudo: baleias, tubarões, golfinhos, tempestades violentas e cruzamentos com grandes navios. Criamos momentos de muita tensão e energia. Mas, simultaneamente, entramos na mente do Amyr, compreendendo suas motivações e suas ligações familiares. É um filme que constrói um equilíbrio bonito entre o intimismo de estar preso em um barquinho de cinco metros e a grandiosidade épica do Oceano Atlântico — afirmou o diretor.

O longa foi exibido na gala de encerramento do Festival do Rio no último sábado (10) e lotou o Cine Odeon, no Centro da cidade. Para o diretor, a sessão teve um significado especial, não apenas pela dimensão da produção, mas também pela oportunidade de apresentar o trabalho em sua cidade natal. Carioca, Saldanha construiu uma carreira internacional na animação e agora leva sua experiência para uma história que combina efeitos visuais e conflitos humanos.

— É uma sensação indescritível. Fechar o Festival do Rio sempre foi um sonho para mim. Como cineasta carioca, ser o filme de encerramento do festival foi o melhor presente que poderíamos ter recebido para lançar essa produção para o mundo inteiro — contou.

Conhecido por trabalhos como “A era do gelo” e “Rio”, o cineasta encontrou em “100 Dias” novos desafios. Embora a experiência com a animação tenha contribuído para lidar com os efeitos especiais, a produção em live-action também representou uma oportunidade de aprendizado.

— Cada projeto tem seus próprios desafios. Trouxe muita experiência da animação para este filme, que conta com muitos efeitos especiais, mas, ao mesmo tempo, foi um aprendizado contínuo. É isso o que me interessa ao fazer cinema: em cada projeto em que embarco, quero aprender e fazer ainda melhor. Fiquei extremamente feliz com a oportunidade de contar essa história. O que me move são projetos com narrativas envolventes e personagens interessantes. E essa história tem tudo isso — explicou Saldanha.

Para dar vida ao navegador, Filipe passou por uma preparação física intensa, com acompanhamento profissional, dieta restritiva e rotina de exercícios. A transformação também teve efeitos na maneira como o ator se relacionou com o personagem durante as filmagens. O isolamento provocado pela preparação acabou se aproximando, em alguma medida, da solidão vivida por Amyr no oceano.

— O Amyr realizou essa travessia já bem magro e acabou emagrecendo ainda mais ao longo dos 100 dias. Por isso, passei por um processo de emagrecimento significativo, mas tudo acompanhado por profissionais. Segui uma dieta restritiva e uma rotina de exercícios muito intensa para alcançar o visual adequado para o personagem, o que faz toda a diferença. Mentalmente, esse processo físico me atravessou de forma profunda. Acabei me isolando muito. Quando você está em uma dieta tão rígida, não pode sair para tomar um chope ou comer uma pizza — contou Filipe.

Interpretar uma pessoa real que acompanha de perto a produção também exigiu atenção. Amyr esteve presente durante as filmagens e ajudou a esclarecer dúvidas, mas Filipe ressalta que sua tarefa era dar vida à versão do navegador construída pelo roteiro, respeitando os conflitos e o percurso apresentados pelo filme:

— Apesar da presença dele, o meu papel era interpretar o personagem escrito no roteiro. O Amyr esteve sempre presente, supergeneroso para conversar, tirar dúvidas e responder às minhas perguntas. Mas eu precisava contar a história a que o filme se propõe. A partir da leitura do roteiro, criei a performance. A abordagem muda por ser uma pessoa real, mas a essência do trabalho do ator permanece: interpretar os conflitos e a jornada histórica do personagem.

A experiência de atuar em cenas predominantemente ambientadas no oceano trouxe outro desafio: sustentar a narrativa mesmo quando o personagem está sozinho em cena. Para Filipe, porém, o trabalho coletivo foi fundamental para tornar a experiência convincente.

— Carregar uma cena sozinho é algo extremamente desafiador. Mas, na verdade, eu não estava sozinho. Tinha a equipe ao meu redor, parceiros incríveis e uma liderança muito forte na direção. Não me senti sozinho em momento algum. O essencial no trabalho do ator é acreditar piamente no que está vivendo ali, e eu acreditei muito: me senti realmente viajando no mar com aquelas pessoas — disse.

A produção também marca a primeira coprodução entre Brasil e Finlândia, parceria que ampliou as possibilidades técnicas do projeto. Enquanto estúdios de São Paulo ficaram responsáveis pela maior parte dos efeitos visuais, a equipe finlandesa trabalhou na trilha sonora, nos efeitos sonoros e em parte dos efeitos especiais.

— Foi uma experiência incrível reunir talentos de diferentes partes do mundo. Eles se apaixonaram pelo filme e se tornaram parte da nossa família. Coproduções como essa expandem as possibilidades do cinema brasileiro para projetos de grande escala — arrematou Saldanha.

Créditos: Bruno Nunes (texto) e Davi Campana (imagens)

Filipe Bragança, Carlos Saldanha, Amyr Klink e Felipe Camargo

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