‘Ele foi um professor’

março 21, 2026

Nívea Maria fala da parceria com Juca de Oliveira em ‘O Clone’ e lembra características que fizeram do ator único no seu ofício

Era o ano de 2014. Juca de Oliveira tinha então 79 anos e, já aclamado como um dos nossos maiores atores, vivia no teatro Rei Lear, sonho dourado de muitos atores veteranos. Juca não somente interpretava o célebre personagem de Shakespeare como os demais da trama, encenada como um solo. E ele fazia isso magistralmente. E não poderia ser diferente em se tratando do ator que ele era. Era?

Juca sai de cena neste sábado (21, mas não em definitivo). O ator de 91 anos imortalizou uma galeria de tipos nos palcos e nas telas. Ficará eternizado nas memórias daqueles que o assistiram e também nas mentes dos que trabalharam com ele. É o caso de outro grande nome da nossa dramaturgia: Nívea Maria.

Ela e Juca formaram um casal em “O clone”, novela de Glória Perez exibida pela TV Globo entre 2001 e 2002. E Nívea falou com NEW MAG, na manhã deste sábado, sobre a experiência de ter trabalhado com o amigo e do aprendizado trazido por ele, um artista vocacionado a viver muitas e muitas vidas.

– O Juca vai ficar para sempre na nossa memória não somente pelo grande ator que ele foi, mas pelo ser humano e pela pessoa pública. Ele tinha o carisma e a capacidade de tocar naqueles que o assistiam e também nos que estavam ao lado dele – reconhece a atriz salientando o privilégio de ter trabalhado com o amigo: – Ele foi um professor, e o fato de termos trabalhado juntos foi um momento especial na minha vida.

Na trama, Juca vivia Albieri, um cientista que realizava a proeza de clonar um ser humano. Era a primeira vez que o assunto, que passara a ser mais discutido a partir da clonagem da ovelha Dolly, era abordado num folhetim de TV. Nívea lembra que o amigo dedicou-se a estudar o assunto a fim de municiar-se de informações científicas para dar mais credibilidade ao personagem.

– A clonagem era um tema sobre o qual sabíamos pouco na época, e ele procurou se aprofundar naquele assunto. Conversávamos muito, e ele sempre tinha algum dado novo. Por isso a verdade daquele cientista. Ele pôde, a partir disso, desempenhar o papel com aquela maestria típica dele – recorda-se Nívea.

Se o colega era rigoroso quanto a desempenhar seu papel da melhor forma, isso não fazia dele uma figura austera ou circunspecta. A leveza e a descontração são duas marcas lembradas por ela:

– O Juca era uma pessoa fácil de se estar ao lado. Se ele tinha um certo tom professoral, isso não fazia com que ele se colocasse num pedestal. Ele era um colega sensível, carinhoso, amoroso e muito dedicado aos outros. O sucesso nunca fez com que ele se enxergasse como um astro.

Indagada sobre qual das características de Juca em que as novas gerações deveriam se espelhar, Nívea destaca a consciência sobre a responsabilidade com seu ofício, que vai além de questões estéticas e da função de entreter.

– A primeira delas é esquecer o glamour que há em torno da carreira. O trabalho do ator é muito mais relevante para o público do que ´para ele em si. O ator tem também a responsabilidade de levar informação às pessoas. O trabalho vai muito mais além do estar bonito na cena. O ator precisa se sentir responsável como pessoa pública – arremata.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e divulgação/TV Globo (imagem)

 

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