O futebol feminino brasileiro tem uma história que ainda guarda capítulos pouco conhecidos — e um deles agora chega às telas pelas mãos de uma atriz que, pela primeira vez, também assume a direção. Bruna Linzmeyer estreia como diretora e roteirista em “A casa de Dona Carlota”, curta-metragem que terá sua primeira exibição no Festival do Rio 2026 e resgata a trajetória de uma personagem fundamental para o futebol de mulheres no país.
— Fico honrada em fazer minha estreia na direção e no roteiro com “A casa de Dona Carlota” no Festival do Rio, onde já participei com tantos filmes que marcaram a minha formação e a minha carreira. Entrelaçar cinema, mulheres e futebol não poderia fazer mais sentido diante de toda a minha pesquisa e vivência dos últimos anos — afirma Bruna, que divide a direção e o roteiro com Lili Fialho.
O filme acompanha Dona Carlota Rezende, dirigente e treinadora do Primavera Atlético Clube, equipe de futebol feminino cuja sede funcionava dentro de sua própria casa, em Pilares, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Determinada a levar o time para uma excursão internacional, ela vê seus planos ameaçados pela repressão que se aproximava das mulheres que ocupavam os campos naquele período.
Dona Carlota é vivida por Ingrid Trigueiro, enquanto Bruna também integra o elenco. O curta ainda reúne Tay O’hana, Luisa Mangini e Diego Pallardo, além de uma participação especial de Sandra Sá.
A narrativa se passa no início dos anos 1940, quando o futebol praticado por mulheres já conquistava público e buscava espaço no Brasil. Em 1941, Dona Carlota foi presa e a sede do Primavera fechada. Poucos meses depois, um decreto do governo de Getúlio Vargas (1882-1954) proibiu mulheres de praticarem esportes considerados incompatíveis com a sua natureza — restrição que atravessaria quatro décadas.
— Mesmo durante a proibição, elas nunca pararam de jogar bola. Agora, 80 anos depois, Lili e eu, inspiradas por elas, desobedecemos a História oficial ao resgatar e celebrar o sucesso do futebol de Dona Carlota e do Primavera A.C. Mesmo sob tanto apagamento, agradeço os rastros que essas mulheres deixaram pelo caminho, para que a gente pudesse encontrá-las e contar suas histórias — acrescenta Bruna, que desde 2018 desenvolve projetos ligados ao fortalecimento do esporte e passou a acompanhar de perto atletas, torcedoras e pesquisadoras.
Lili também destaca a importância de devolver visibilidade às mulheres que ajudaram a construir a história do futebol brasileiro a menos de um ano da Copa do Mundo Feminina.
— Espero que este filme honre a coragem e a resistência dessas mulheres e ajude a devolver a elas o lugar que lhes pertence. Às vésperas de o Brasil sediar uma Copa do Mundo Feminina, é impossível não lembrar que nada disso começou agora. Só chegamos até aqui porque mulheres como Dona Carlota existiram e resistiram. Que, a partir de agora, cada vez mais pessoas saibam quem foi a mãe do futebol feminino brasileiro — diz a diretora.
Créditos: Bruno Nunes (texto) e reprodução / Instagram (imagem)





