Um ator por inteiro e em sua plenitude. É assim, sereno e com o pensamento arguto, que Jonas Bloch festeja mais de seis décadas dedicadas à arte de interpretar. E a celebração acontece no palco, seu habitat natural ou, como ele próprio prefere dizer, “o lugar que te dá mais chances de desenvolver um trabalho com mais fôlego”. E fôlego não lhe falta. O ator encara, aos 86 anos, o desafio de levar ao palco a prosódia de um dos mais importantes poetas brasileiros: o sul-matogrossense Manoel de Barros (1916-2014). “Achei que haveria estranhamento, mas não”, celebra Bloch que aporta com “Delírio”, solo dirigido e estrelado por ele para curtíssima temporada, a partir deste fim de semana, no Rio de Janeiro. “No palco me sinto vivo”, reconhece ele nesta entrevista, por telefone, a NEW MAG. A seguir, o ator rememora a experiência de ter sido censurado na Ditadura, critica a beligerância de Benjamin Netanyahu, comenta o sucesso indelével de “A viagem”, novela na qual imortalizou um dos seus muitos antagonistas, e, falando nisso, aplaude o desempenho de Débora Bloch, uma de suas filhas, como Odete Roitman em “Vale Tudo”. “Ela é o máximo”, incensa. E teve a quem puxar.
Manoel de Barros disse que o poema é, antes de tudo, um inutensílio. Você lembra exatamente como surgiu teu encantamento pela poesia dele?
O Manoel trouxe à poesia uma linguagem nova que aborda de forma sutil todo um universo de pensamentos sobre a vida e sobre o mundo. Drummond dizia que ele era o maior poeta brasileiro vivo. São tantos os temas que acabei levando à cena um painel com certo pudor, por não ser uma linguagem com que estou acostumado a lidar na TV e no cinema. Com o primeiro livro dele que li, minha primeira reação foi de estranhamento. Insisti e acabei fascinado por aquele universo. É assim também com a reação do público, que tem sido maravilhosa. Achei que haveria um estranhamento, mas não é o que o público tem demonstrado.
Fernanda Montenegro levou à cena a poética de Adélia; Paulo Autran reuniu textos literários em O Quadrante, Clarice Lispector está viva nos palcos…. O teatro precisa dialogar mais com nossa literatura?
Acho que seria importantíssimo. A literatura faz com que nos reconheçamos como indivíduos e como nação. Ela pode ser utilizada como instrumento para nossa própria afirmação. Acho que, em relação às demais manifestações artísticas, ela é a mais genuína, preservando-se de influências externas como aconteceu com a música, por exemplo.
Você surge profissionalmente na época do Milagre Econômico e viu, ao longo de mais de 60 anos, o país ir do Regime de Exceção à Nova República, passando por diferentes planos econômicos. Em que momento foi mais difícil de segurar a barra?
Durante a ditadura. Tive uma peça censurada (“Oh, oh, oh, Minas Gerais”). Ao longo dos ensaios e dos preparativos, vários trechos foram sendo censurados até que o espetáculo foi proibido como um todo. Fazíamos uma interlocução entre os exilados pela Inconfidência e os exilados pela ditadura. Uma das cenas aludia ao exílio do Juscelino (Kubtschek) e o “Peixe Vivo” (tema folclórico preferido pelo ex-presidente) era cantado baixinho ao fundo. O tema foi proibido e, em Brasília, ele acabou cantado pelos estudantes na plateia.
Quais as suas expectativas para a condenação dos envolvidos na tentativa de golpe do 08 de janeiro?
Espero que, com essa condenação, muita coisa mude no país, ainda que seja forte a campanha por uma anistia. Espero que o Trump (presidente dos EUA) acalme o facho com essa loucura de prejudicar as relações comerciais com o Brasil como retaliação a esse julgamento. A História é cíclica e passa por várias fases, mas espero que, pouco a pouco, possamos recobrar a consciência daquilo que é de fato importante para o país.
“A Viagem” alcança excelentes índices a cada reexibição. Ao que você atribui a perenidade do interesse do público por aquele trabalho?
Em primeiro lugar a questão do tema espírita, que desperta muito interesse do público. Em segundo lugar, trata-se de uma trama simples e plena de reviravoltas e intrigas, e isso encanta o público até hoje. Uma frase que ainda ouço é “eu tinha muita raiva de você” (Jonas viveu o vilão Ismael). O fato de um ator provocar essa reação demonstra que ele fez um bom trabalho.
Falando em raiva, Débora brilha como Odete e mostra, aos 62 anos, a atriz potente que o teatro já conhecia. O que mais te dá orgulho na trajetória dela?
Tudo! A personalidade dela, a pessoa humana que ela é, a mãe maravilhosa e a pessoa generosa e engajada que ela se tornou. A Débora é uma atriz de altíssima qualidade. Ela é o máximo! Percebi cedo que ela teria tarimba para uma carreira internacional e disse que ela deveria estudar inglês, mas ela nunca deu bola para isso (risos).
A comédia “Viva a vida”, estrelada por você, foi rodada em Israel. Já havia visitado aquele país? Como foi estar num epicentro entre conflitos constantes?
Foi a segunda vez em que estive em Israel. Quando casei, optamos por viajar em vez de fazermos uma festa. Estar ali é de fato emocionante. Jerusalém tem essa aura histórica e clássica. Já Tel Aviv é mais cosmopolita, numa mistura entre Rio e São Paulo…
Como vê toda essa questão relacionada às barreiras humanitárias, à fome, ao genocídio e o fato de a Faixa de Gaza estar reduzida a escombros?
A maioria da população de Israel é contra Netanyahu (premier de Israel). Certamente a única questão capaz de sanar esses conflitos esteja na criação de dois Estados. Sou contra qualquer manifestação extremista. Há uma frase do Brecht (dramaturgo alemão) em “Galileu Galilei” da qual gosto muito: “A verdade é filha do Tempo e não da Autoridade”.
Irene Ravache disse aqui que ainda não interpretou um homem no teatro. O que falta a Jonas Bloch viver?
Já vivi uma mulher no teatro (risos). Era uma velhinha que sapateava. A peça não fez sucesso, mas a experiência valeu. Não tenho hoje expectativas em relação a papéis. A partir de certa idade, você passa a ser chamado para viver pessoas mais vividas, aquele personagem que vai dialogar com o protagonista e ajudar a explicar a trama. O palco é o lugar que te dá mais chances de desenvolver um trabalho com mais fôlego.
O contrato por obra na TV é uma carta de alforria ao ator?
A TV evoluiu e cresceu demais. Tornou-se uma grande indústria e, como tal, a questão econômica acaba tendo muita relevância. Quando essa questão chega na arte é para baixar o padrão. Fora o fato de as emissoras escancararem agora suas ideologias políticas. Tudo está polarizado. As estruturas mudaram muito. Há contratos hoje que, a grosso modo, colocam os termos da seguinte forma: tudo para mim e nada para você. É humilhante. O teatro é mais artesanal e pode ser feito com mais verdade.
Othon Bastos me disse aqui que o grande lance da vida é vivê-la. Pretende fazer como ele e como Fernanda e Nathália que brilham nos palcos com mais de 90 anos?
Sem dúvida. Interpretar é minha vocação. Nasci para isso. No palco, me sinto vivo. Ali, tenho razão para existir e colaborar para mudar a vida das pessoas, aliviando as dores do mundo. A arte é capaz de mudar os malefícios da política.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto e entrevista) e divulgação (imagem)





