Dama entre damas

julho 4, 2026

Karinah reúne talentos do samba e reitera seu brilho em noite de reverências às vozes femininas do segmento

Era o ano de 2012. Karinah chegava ao Rio de Janeiro, vinda da Bahia (para onde a cantora curitibana mudara-se) e tinha consigo um álbum de estreia e as bênçãos de Letieres Leite (1959-2021). Vem dessa época o conselho ouvido de Dona Ivone Lara (1921-2018): “Chega no sapatinho”. A recomendação foi seguida à risca e, aos 45 anos, Karinah fulgura entre os novos talentos do samba. E usa da voz muito bem burilada para reverenciar aquelas que a precederam no segmento e ajudaram a forjar a artista que ela é.

“Karinah canta as damas do samba” fez sua aguardada estreia no Rio de Janeiro. E o show chegou chegando, na noite da última sexta-feira (03), num Blue Note apinhado de talentos do samba e do Carnaval. Neguinho da Beija-Flor, Rildo Hora (produtor de álbuns de Beth Carvalho e Zeca Pagodinho), Altay Veloso, Carlinhos de Jesus, Milton Cunha e Mosquito assistiram à estrela, reunidos ali pelo casal de promoters e empresários Liège Monteiro e Luiz Fernando Coutinho.

No pequeno palco da casa, os nove músicos que acompanharam Beth Carvalho (1946-2019) – e que formam, portanto, a Banda da Madrinha – estão sentados em semicírculo. Ao som de uma percussão de acento ancestral, Karinah entra em cena e posiciona-se no centro do palco. É ali o seu assento e seu lugar – de canto e de fala. E ao soltar a voz em “Embala eu” (Albeléria) e “Marinheiro só”, ela saúda aquela que foi definida por Aldir Blanc (1946-2020) como a “Rainha Negra da voz/ Mãe de todos nós”: Clementina de Jesus (1901-1987).

Estão abertos os trabalhos e, com eles, Karinah vai tecendo loas a diferentes mulheres que, cada qual no seu tempo, colocaram-se como protagonistas num segmento cuja predominância foi, por anos, masculina. Natural que depois de Kelé, a supracitada Dona Ivone (primeira mulher a assinar um samba-enredo no país) seja reverenciada. E isso se dá com “Alguém me avisou” e dois de seus clássicos feitos com Délcio Carvalho (1939-2013): “Sonho meu” e “Acreditar”.

A partir daí, Karinah inclui em seu inventário três das vozes que abriram no samba alas a todas as demais intérpretes: Clara Nunes (1942-1983), Elza Soares (1930-2022) e Beth Carvalho, sendo Elza a pioneira delas. Enquanto a primeira é celebrada com “Guerreira” (Paulo César Pinheiro/João Nogueira), as demais são festejadas com “Se acaso você chegasse” (Lupicínio Rodrigues/Felisberto Martins) e “1800 colinas” (Gracia do Salgueiro).

Alcione, Jovelina Pérola Negra (1944-1998) e Leci Brandão não poderiam ficar de fora da festa. Elas têm seus legados celebrados em temas como “Não deixe o samba morrer” (Edson Borges/Aloísio Silva), “Sorriso aberto” (Guará) e “Isso é fundo de quintal” (Leci e Zé Maurício). Leci, com quem Karinah cantou no show em São Paulo, mereceu da artista um comentário emocionado, que levou-a a interromper e a se desculpar com Carlinhos 7 Cordas, diretor musical do show.

— Era uma noite muito fria em São Paulo, e Leci chegou, cumprimentou a todos, músico por músico e abençoou aquela noite, o que me deixou muito emocionada. De todas as artistas que celebro aqui, ela e Alcione estão vivas. E as pessoas têm de ser reconhecidas em vida – declarou a estrela sem disfarçar o embargo na voz.

O clima festivo foi prontamente retomado com “Sonhando eu sou feliz” (Arlindo Cruz/Franco/Marquinho PQD) e “O mar serenou” (Candeia), entre outros temas. E o termo festa vem bem a calhar em se tratando do show, cuja direção geral é dividida por Karinah com o sempre competente Afonso Carvalho. Os temas estão misturados e muito bem alinhavadas no assertivo roteiro, também assinado pela dupla.

Há momentos mais introspectivos – e sublimes – como o de “Malandro”, lançada por Elza e que, naquela noite, serviu de deixa para Karinah falar também de seu autor, Jorge Aragão (parceiro de Jotabê no tema). Outro ponto alto ficou com “Você passa, eu acho graça” (Ataulfo Alves/Carlos Imperial), do repertório de Clara. E, em ambos os números, os sopros de Dirceu Leite brilharam, assim como as vozes de Jussara Lourenço e Clarisse Grova nos vocais de apoio.

O clima romântico fez-se presente com “Sufoco” (Chico da Silva/Antonio José), samba do repertório arrasa-quarteirão de Alcione. E a noite terminou em alto astral com a memória de Beth Carvalho reavivada em dois de seus clássicos: “Coisinha do pai” (Almir Guineto/Luiz Carlos/Jorge Aragão) e “Vou festejar” (Aragão/Dida/Neoci Dias).

Ao reverenciar as grandes damas do samba, Karinah mostra-se mais do que uma aluna aplicada e uma discípula muito bem preparada. Ela está à altura delas. E chegará o dia em que será também celebrada como uma dama do segmento.

É questão de tempo. Estrela ela já tem.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Vera Donato (imagens)

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