Beleza e sensibilidade

abril 27, 2026

Gabriel Chalita e João Carlos Martins arrebatam personalidades como Fernanda Montenegro em espetáculo pautado por música e poesia

Ao piano, Antonio Carlos Martins executa “Il postino”, música-tema criada por Luis Bacalov (1933-2017) para o filme que, no Brasil, ganhou o título de “O carteiro e o poeta”. O tema, executado com precisão e extrema delicadeza, serve de fundo para Gabriel Chalita falar três poemas de Cecília Meireles (1901-1964). Dois deles são  “Motivo”, o dos versos “Eu canto porque o instante existe/ e a minha vida está completa”…, e “Retrato”, que trata da relação da poeta com o ato de envelhecer.

O momento é apenas um dos muitos que tornam sublime “O pianista e o poeta”, espetáculo que marca o encontro artístico entre o maestro Antonio Carlos Martins e o escritor e apresentador Gabriel Chalita. A apresentação, dirigida e produzida por Jorge Takla, aportou no Rio de Janeiro no último fim de semana após sua estreia nacional, em março, no Teatro Amazonas.

E este encontro entre dois amigos que se frequentam há muito vai além do esperado recital unindo música erudita a textos literários. E prova disso foi dada por aquela que é uma das nossas mais importantes atrizes: Fernanda Montenegro. Uma Fernanda tomada de arrebatamento teceu loas aos dois artistas quando, ao fim da apresentação de sábado (25), foi chamada a pronunciar-se da plateia.

A querida atriz estava entre os nomes das artes e da vida social brasileira reunidos no Teatro Casa Grande pelos empresários e promoters Liège Monteiro e Luiz Fernando Coutinho nas duas noites de récitas.

A coreógrafa e empresária Dalal Achcar, outro nome de respeito no meio artístico brasileiro, foi também tocada pela apresentação. E o mesmo vale para a cineasta e diretora Carla Camurati, para o ator Marcos Frota e para Dona Déa Lúcia, mãe do saudoso comediante Paulo Gustavo (1978-2021) que deixou o teatro em estado de pleno torpor.

E o diagnóstico é em nada exagerado. Não em se tratando de uma apresentação que vai para além da singularidade de cada um dos temas elencados no roteiro, no qual peças de Beethoven (1770-1827) e Bach (1665-1750), autor do qual Martins é especialista, a poemas de Adélia Prado e João Cabral de Melo Neto (1920-1999), entre outros.

E foi através dos versos de Manoel de Barros (1916-2014), num texto no qual o poeta louva o viés analógico da vida, que Chalita mostrou que há nele também um ator capaz de arrancar do público merecidos e calorosos aplausos.

Em outro momento, após discorrer sobre a poeta Cora Coralina (1889-1985), que fez sua estreia literária aos 79 anos, Chalita fala sobre resiliência. E abre, assim, o microfone para o maestro trazer à baila fatos de sua vida, na qual a vocação musical resistiu às 31 cirurgias às quais ele se submeteu em razão dos avanços da distonia focal.

E Martins passa ao largo da autocomiseração e rememora fatos de sua vida – alguns deles envolvendo seu pai, que viveu pouco mais de 102 anos. Diante do espanto de um convidado que, na sua festa de 100 anos, o viu tragar seu charuto e sua taça de vinho, ele, ao ser perguntado se seus médicos estavam cientes daquilo, saiu-se com esta: “Meus médicos já não estão mais vivos”.

E a plateia ri ao mesmo tempo em que fica de olhos marejados. E acaba por fazer jus a um dos propósitos sugeridos pelo regente já ao fim da récita:

— O público tem de sair com uma lágrima nos olhos e um sorriso nos lábios.

E foi exatamente assim que estavam todos os que deixaram a sala de espetáculos após as noites de apresentação. Bravi!

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Eny Miranda (imagens)

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