Marieta Severo, Fernanda Torres, Claudia Abreu, Pedro Cardoso, Malu Mader, Mateus Solano… Todos os grandes nomes da dramaturgia brasileira passaram pelo Teatro O Tablado. Localizado no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, esse palco-escola viu brotar centenas de talentos e esta semana completa 75 anos, mantendo a mesma jovialidade de quando abriu suas portas, pelas mãos da escritora e dramaturga Maria Clara Machado (1921-2001). Atual diretora, Cacá Mourthé não apenas viu essa história ser escrita: a história do Tablado é a própria história de sua vida. Sobrinha da fundadora, frequenta o teatro desde os quatro anos de idade, quando se tornou programa fixo de final de semana assistir às peças de Clara (como ela se refere à tia) ou ajudar a vender os programas das peças em cartaz. Um ano depois subiu ao palco pela primeira vez como atriz e, aos 11 anos, já estudava na escola. Aos 18, já dava aulas. Foi então uma passagem muito natural para Cacá assumir a direção da escola após o falecimento da fundadora. Mas, mais do que manter o legado vivo, ela transformou a inicialmente companhia de teatro amador em escola profissionalizante. Sempre lembrando da essência do teatro: “Nestes 75 anos de Tablado não mudou a necessidade do encontro presencial. Mais do que nunca estamos necessitando desses encontros afetivos. A mídia isola o ser humano, deixando a sensação estranha de que “estamos todos juntos”, lembra ela nesta entrevista ao NEW MAG.
Hoje atuar é uma profissão muito disputada. Muitos querem ser atores e famosos. Como vê a nova geração?
É uma geração mais sagaz e menos disciplinada. É uma geração que crê em mágica e não no trabalho. Eles querem resultado e é por isso que, mais do que nunca, o teatro é fundamental para a formação do indivíduo, independentemente da futura profissão que se escolha.
A preparação dos atores mudou? Já houve polêmicas com preparadores acusados de abuso. Qual a sua opinião sobre essa questão?
Temos que respeitar o tempo de elaboração de cada um porque, como dizia o Zé Celso Martinez: “é de dentro pra fora e de baixo para cima”.
São 75 anos de O Tablado. E você sempre junto desde sua infância até hoje, no comando da casa. Como vê a importância do teatro nestas décadas? O que mudou e o que deveria mudar?
Talvez a pergunta seja: o que não mudou? Não mudou a necessidade do encontro presencial. Mais do que nunca estamos necessitando desses encontros afetivos. A mídia isola o ser humano, deixando a sensação estranha de que “estamos todos juntos”.
Teatro é resistência. Mas o teatro infantil sempre costuma ter mais público. O que é um pouco idiossincrático. O que motiva pais a levarem tanto os filhos ao teatro quando, em alguns casos, eles mesmos não são consumidores de peças?
Ida ao teatro é um bom momento de entretenimento para a família. No Tablado é costume ver três gerações juntas assistindo a uma peça, a avó que levou a mãe e que agora leva o neto junto com sua filha. É emocionante ver a ligação afetiva que uma peça de teatro infantil causa. O Tablado tem essas coisas e é bonito de ver.
Você teve uma infância muito rica, culturalmente falando. Como foi conviver desde pequena com tanta arte e cultura?
Foi uma grande sorte; costumo dizer que minha universidade foi a minha família, os almoços recheados de histórias e de pessoas ilustres como Carlos Drummond, Aníbal Machado, Eneida, Vinicius de Moraes e tantos outros.
Em sua estreia no teatro, aos cinco anos, é verdade que você paralisou no palco?
(Risos)… é verdade. Fiquei muito emocionada e paralisei. Estava fazendo Gretl, a filha caçula da família Von Trapp, no musical ‘A Noviça Rebelde’. Quando a noviça vai embora da casa, a Gretl tinha que dizer: “Não sei por que me sinto tão só”. Eu olhei para a plateia, vi o contorno preto das cabeças na plateia, era muita gente e paralisei. Depois de um bom tempo, falei: “Não sei por que me sinto tão mal”. A plateia veio abaixo de tanto rir.
Como era Maria Clara Machado, tia? E professora? Ela mudava com você quando estava ensinando?
Era sempre a mesma: uma palhaça que gostava de disciplina. Bem contraditória (risos)…
Você já declarou que ela não gostava muito de você atuando e que ela te deu o ‘Pluft’ por falta de opção. É verdade? E como você lidou com isso?
A Clara costumava dizer: “O fracasso dá caráter”. Acho que eu não me sentia à vontade no palco, apesar de amar o palco. Então entendi que eu não seria atriz, mas sim diretora.
Em determinado momento da vida, você decide fazer trabalhos fora do Tablado, mas sempre acabou sendo “puxada” de volta. Acha que deveria ter feito mais trabalhos fora?
Acho que deveria ter feito sim, mas existe uma enorme dedicação minha ao Tablado como se fosse uma missão e, na verdade, é uma missão manter um teatro infantil no Rio de Janeiro. Não é fácil, não.
O que está preparando para os 75 anos?
Estamos em cartaz com “A bruxinha que era boa”, com uma nova roupagem, que marca as comemorações. Também temos a estátua da Clara, feita pelo artista Edgar Duvivier, que foi colocada na pracinha em frente ao Tablado. A inauguração da estátua foi no último dia 27, um dia antes de o Tablado completar 75 anos.
Como você vê o futuro do Tablado? Pensa em mudanças, novidades?
Para que mudar um time que está ganhando? Vida longa ao Tablado e que cada vez mais ele possa formar indivíduos melhores, mais criativos e responsáveis.
Créditos: Bianca Portugal (texto e entrevista) e Chris Martins/ divulgação (imagem)





