‘A finitude não me apavora’

julho 31, 2026

Edson Celulari festeja sua volta aos palcos em peça de Nelson Rodrigues e lembra episódios marcantes no teatro e fala da relação com a TV e da chegada à maturidade

“O teatro opera milagres”. A fala é dita com serenidade e muita propriedade por Edson Celulari. E certamente um deles está na volta do ator aos palcos. Esse jejum foi de 14 anos. Demorado, portanto, em se tratando de um artista com uma extensa folha de excelentes serviços prestados ao teatro. Se a TV o tornou conhecido em âmbito nacional, foi na ribalta que ele disse a que veio. E isso deu-se em trabalhos com mestres como o saudoso Fernando Torres (“de fato um homem de teatro”), Ruy Guerra e Hamilton Vaz Pereira. “Acho que o teatro é o lugar para outras experimentações”, reconhece Edson que, aos 68 anos, realiza um desejo acalentado há décadas: o de atuar numa peça de Nelson Rodrigues (1912-1980). E numa obra-prima: “O beijo no asfalto”, cuja encenação, a cargo de Marco André Nunes, traz no elenco ainda Eduardo Sterblitch, Luisa Arraes, André Matos e Ernani Moraes, entre outros. “Formamos um grupo que deu certo”, celebra Edson nesta entrevista por telefone ao NEW MAG. Na conversa, cujo veio central é a relação do ator com o teatro, ele acabou por revelar o uso numa produção da grana guardada para o nascimento do filho Enzo. Tudo porque o patrocinador sumiu a 20 dias da estreia, que tal? O ator não se esquivou de falar de outras áreas em que brilha, como a TV (“Fazer novela é mais difícil que antes”) e o cinema, ao creditar a Elba Ramalho o conselho para soltar a voz na adaptação de um clássico de Chico Buarque. O artista fala também da chegada à maturidade e diz que aposentar-se não está nos seus planos. “Enquanto a lucidez permitir e tiver vitalidade, quero trabalhar até o último momento”, pontua. A legião de fãs do ator só tem então a comemorar.

Você realiza o desejo de estar no palco com um texto do Nelson Rodrigues. Isso demorou ou acontece no momento certo?

As coisas acontecem no momento certo. Estava há 14 anos sem pisar no palco. Quando recebi o convite do Rafael Raposo, me foi colocado que seriam cinco semanas de ensaios e 20 apresentações somente. Pedi para reler o texto e, a partir disso, vi que fazer algo do Nelson era um sonho que tinha e que seria importante para o meu repertório como ator. Topei, mudei minha agenda e consegui.

A peça mostra como um simples fato pode ganhar, através do olhar da imprensa, contornos de uma grande mentira. A atualidade da peça é assustadora, né?

Sem dúvida. O Nelson instaura o teatro moderno no Brasil e ele continua atual até hoje. Ele tem essa capacidade de ampliar fatos para expor a sordidez do ser humano e, a partir disso, nos provocar e até mesmo incomodar. Esta peça é um julgamento público ao mostrar o poder destruidor do linchamento moral feito com o Arandir (papel de Eduardo Sterblitch) e a forma cruel como ele acontece. E motivado por um sujeito que quer vender mais jornal. É interessante esse contraste entre a realidade e a mentira, e como pode ser tênue a linha que separa elas duas. Você torce pelo Arandir, mas há momentos em que ele mesmo duvida de si. O Nelson foi repórter policial, conhecia bem aquele universo e usa com propriedade aquele vocabulário. A defesa nunca terá a mesma força que tem um ataque.

A montagem resgata o que, no meio, é chamado de teatrão. Hoje em dia é uma ousadia levantar uma produção como esta, não?

Sim, são 14 atores em cena sem falar nos outros integrantes da equipe. Como se viaja assim? É difícil hoje. Essa é apenas uma das questões, pois há outras, relacionadas a espaço e pauta na agenda. Às vezes uma produção leva dois anos, e a temporada dura apenas um mês. Fazer teatro é assim. Uma coisa que aprendi com Dona Fernanda Montenegro foi que, se um ator quiser fazer carreira, tem de se produzir.

Quero falar do Ernani e do André.  Personagens periféricos como o jornalista e o delegado são tão importantes quanto os protagonistas. O teatro é de fato uma arte em equipe?

A gente vê claramente que eles estão ali se deliciando, e isso vale para o elenco como um todo. Formamos um grupo que deu certo. E teatro tem de ser feito dessa forma. E a direção do Marco André é muito coesa, e ele foi muito inteligente ao trazer à encenação elementos atuais, resultando num espetáculo contemporâneo e contundente para os dias de hoje.

E o Eduardo está diferente de tudo o que ele já fez, sobretudo dos personagens cômicos que conhecemos…

É o que digo: quem faz comédia é capaz de fazer de tudo.

Vamos voltar um pouco no tempo. O que te atraiu num personagem como Calígula: a embriaguez que o poder traz ou a necessidade de ousar como ator?

Antes de tudo, aquele texto incrível do Camus, um filósofo existencialista que foi opositor ao Sartre. A primeira fala do personagem é “eu quero a lua”, e isso já dá uma ideia do quão desmedida é a ambição dele. Me interessou o desafio de viver um grande personagem e de uma forma moderna, a partir do olhar do Limongi (o diretor Djalma Limongi Batista), um cara do cinema. Tive ótimos papéis na TV e a oportunidade de atuar em folhetins incríveis, e acho que o teatro é o lugar para outras experimentações.

A experiência de trabalhar com Fernando Torres em Inocência colaborou para você fazer Fedra com ele e com Fernanda?

“Inocência” foi o primeiro filme da Fernandinha Torres. O Fernando atuava no filme e trazia e levava a Fernandinha, que devia ter uns 16 anos. A primeira cena que fiz no filme foi com ele, e era justamente a última cena do filme. Algum tempo depois, trabalhei com Fernandona na TV (na novela “Cambalacho”) e acho que essas duas experiências colaboraram para eles me convidarem. Sem falar na equipe que eles montaram, né?. A direção era do (Augusto) Boal, e a Fernanda pediu ao Millôr (Fernandes, jornalista, chargista, tradutor e autor teatral) para traduzir e adaptar o texto, que era todo em versos. Então, topei e foi uma experiência incrível. O Fernando era de fato um homem de teatro. Ele era um intelectual extremamente culto e ligado às raízes do teatro. Acho que igual a ele só o Lineu Dias (pai da atriz Júlia Lemmertz), com quem trabalhei numa peça do Sam Schepard dirigida pelo (Hector) Babenco.

E como foi a experiência de trabalhar com Hamilton Vaz Pereira em Ela odeia mel?

Hamilton estava já no meu imaginário há muito tempo. A escola de Teatro (Edosn cursou a EAD, em São Paulo) era mais voltada a um conteúdo europeu, dos clássicos e tínhamos aula de esgrima, por exemplo. Então, imagina o impacto que me causou, ali em fins dos anos 1970, uma peça como “Trate-me leão”, com aquela trupe carioca falando coisas que eram comuns a todos nós? Essa gente se diverte muito!, pensei na época. Havia ali toda uma brasilidade que foi revolucionária. E, em “Ela odeia mel”, tivemos um pouco dessa experiência oriunda do Asdrúbal, de criar algo de forma coletiva, e isso foi muito bom. Sem falar no elenco: Julia Lemmertz, Claudia Abreu, Deborah Evelyn… Era um barato!

Ao longo dos anos 1980, você atuou em novelas das 7 e das 8 na Globo e ainda conseguia fazer teatro. Você dormia em algum momento?

E ainda fazia cinema nas madrugadas. Sinceramente, não sei como conseguia. E, no “Dom Juan” (de Mollière), conciliava os ensaios com as gravações de “Dona Flor” (e seus dois maridos, série da TV Globo). A Claudia (Raia, com quem era casado na época) estava grávida e, quando o Enzo nasceu, fui liberado das gravações para assistir ao parto, e retomei os trabalhos em seguida. E enfrentei ainda uma turbulência: a empresa que patrocinaria a peça desistiu a 20 dias da estreia. Claudia e eu tínhamos uma reserva para o nascimento do Enzo e precisei usar aquele dinheiro na peça. Depois, com a peça estreada, pintou um patrocínio. São dessas mágicas que só o teatro e o nascimento de uma criança podem proporcionar.

Com os adventos tecnológicos, fazer TV está hoje mais exaustivo ou mais fácil do que era antes?

Fazer novela hoje é mais difícil do que antes. Acho que, com as exigências relacionadas à tecnologia HD, tudo hoje demora mais. Com o cinema é assim também. Havia antigamente essa dinâmica: gravávamos três dias no estúdio, e as externas nos outros dois dias da semana. Assim, a gente conseguia se planejar mais e organizar melhor a vida.

No filme Ópera do Malandro, você interpreta três músicas do Chico Buarque. Uma delas é Pedaço de mim, num dueto com a Elba. Você não desafina e manda muito bem. A preparação para esse trabalho foi tensa?

Fui aprovado para viver o Max (Overseas, protagonista do musical) após dois meses de testes! Eu, um cara do interior de São Paulo, de uma família italiana, teria de viver um malandro carioca! Quando recebi a notícia, falei com o Ruy para botarem alguém cantando no meu lugar. Cheguei a pedir para chamarem o Caetano, mas o Ruy disse que quem cantaria seria eu. No dia da gravação de “Pedaço de mim”, o Ruy e o Chico não puderam ir ao estúdio. Estávamos somente o técnico, Elba e eu. Num primeiro momento, me defendi como ator e exagerei. A Elba, que também é atriz, foi muito generosa. Ela me disse que as intensões estavam todas ali na letra e na melodia, e que bastava cantar em branco. E assim foi. Não tive muito tempo para estudar canto durante as preparações, mas acho que me saí bem. Gosto do meu desempenho como ator e, como cantor, estou ali no meu limite. E o resultado é genuíno.

E você volta a trabalhar com Ruy em Dom Quixote de lugar nenhum. O que o Ruy representa para você?

O Ruy acreditou muito em mim para o “Ópera”. Ele sabia que eu gostava do “Dom Quixote” (personagem de Miguel de Cervantes) e comentou comigo sobre a ideia de transpor aquele universo para o Nordeste do Brasil. A região da Mancha, na Espanha, tem semelhanças com o Nordeste, pela questão do clima. E lá foi ele se debruçar sobre o texto, num trabalho que durou uns dois anos. Não é qualquer artista que se dedica a algo assim. Ficamos em cartaz no Villa-Lobos e, hoje, quando vejo aquele teatro inoperante (um incêndio destruiu parte do espaço em 2011),  me dá um aperto no coração.

A experiência de estrelar Brasileiros e Brasileiras foi um respiro naquela engrenagem das novelas da Globo? 

O responsável por isso foi Walter Avancini. Eu era contratado da Globo e não havia trabalhado ainda com o Avancini. Fui fazer uma minissérie dirigida por ele fora da emissora, e o Daniel Filho foi categórico: “Você vai, mas volta”. E me fez assinar um contrato me apalavrando com eles. E, de fato, fui e voltei. Depois é que veio a novela (“Brasileiros e brasileiras”) e, mais uma vez, voltei à Globo sem precisar assinar nada. Tudo pela vontade de trabalhar com o Avancini. Foi uma experiência ótima.

Você chegou a ter contato com o Silvio Santos?

Sim. Certa vez nos encontramos e ele demonstrou certo desânimo pelo fato de a novela não ter ido tão bem. Disse que ele não deveria desistir das novelas. Ele também foi me assistir no teatro e, na ocasião, confessou sua surpresa pelo fato de as pessoas irem assistir a coisas mais densas. Ele me disse que gostava de sair de casa para rir.

Glória Perez foi visionária ao mostrar em uma novela que o mundo estava se tornando mais tecnológico do que analógico. O que uma trama precisa ter para se atrair?

Uma das funções da arte é a de provocar, inquietar. Não sei se a arte transforma alguém, mas ela faz com que você mude sua maneira de pensar e de ver as coisas. O que me atrai num trabalho é a possibilidade de poder dizer coisas interessantes aos ouvidos de hoje. No caso do Nelson, ele era um provocador. A obra dele está viva. Certos textos, devido a questões sociais ou políticas, podem ficar datados. Godot (personagem-titulo de “Esperando Godot”, de Samuel Beckett) é propício em alguns momentos. Uma das perguntas que me faço é: vamos falar sobre o quê? E aí, o cansaço e os aborrecimentos se dissipam a partir do momento em que você está no palco. O teatro tem esse dom de tirar de você o peso dos anos. Lembro de assistir ao Paulo Autran. de vê-lo, já com uma idade avançada, todo serelepe no palco. E, depois, ao cumprimentá-lo no camarim, vê-lo arrastando os pezinhos.  O teatro opera milagres.

Daqui a dois anos você completa 70 anos. Considera-se satisfeito com o que realizou até aqui?

Estou muito satisfeito com tudo o que fiz até aqui. E não me arrependo de nada. Enquanto a lucidez permitir e tiver vitalidade, quero trabalhar até o último momento. Quando perder essas faculdades, será o momento de parar. A finitude não me apavora. A vida nos prega peças, eu mesmo já tratei um câncer, mas a finitude faz parte da vida. Tenho um amigo que diz que, depois dos 60, se você não sente dor ao acordar é porque está morto (risos). Quero viver até 120 anos e aí, dez anos antes, tiro férias.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e entrevista) e Reprodução internet (imagem)

 

 

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